A coleção Relações Internacionais da editora Fino Traço nos mostra uma variada gama de livros, cobrindo diversas temáticas da política internacional a partir da visão acadêmica brasileira. A coleção é composta por seis livros escritos por alguns dos mais célebres pesquisadores da área de Relações Internacionais no país: “África parceira do Brasil atlântico: Relações internacionais do Brasil e da África no início do século XXI”, do professor José Flavio Sombra Saraiva; “A Parceria Inconclusa: As relações entre Brasil e Portugal” do professor Amado Cervo; “As Relações Brasil – Estados Unidos” da professora Cristina Soreanu Pecequilo; “Encontros e Desencontros: O lugar da Argentina na política externa brasileira” da professora Miriam Gomes Saraiva; “Brasil e China: Cooperação Sul-Sul e parceria estratégica” do professor Henrique Altemani de Oliveira e por fim, o livro “As Relações diplomáticas da Ásia: articulações regionais e afirmação mundial (uma perspectiva brasileira)” do professor Paulo Fagundes Visentini.

O objetivo deste texto é apresentar a resenha do livro “As Relações diplomáticas da Ásia: Articulações regionais e afirmação mundial (uma perspectiva brasileira)” de Paulo Fagundes Visentini, Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEI) da mesma universidade. O livro, dividido em oito capítulos, discorre sobre a política externa da Ásia de um ponto de vista geral, sendo bastante diversificado: com isso abrange tanto os países principais da região como China, Japão e Índia, como nações pouco estudadas no Brasil como Mianmar, Malásia, Brunei, dentre outros. O livro possui duas partes: “A dimensão histórica: conexões e conflitos com o Ocidente” e “A diplomacia contemporânea dos Estados Asiáticos”.

No primeiro capitulo, “As civilizações asiáticas e o colonialismo europeu”, Visentini parte de uma construção histórica sobre a Ásia, mostrando o papel dos europeus na colonização da região. Nessa construção histórica, o autor foca em duas civilizações, que são a base para a Ásia moderna: a chinesa, que influencia praticamente toda a Ásia, e a hindu, que cria não só a Índia, mas também gera impactos em todos os países do seu entorno. Após essa apresentação histórico-cultural, o autor discorre sobre o fato de praticamente todas as nações terem sido colonizadas, a exceção do Japão que construira um país industrializado, tornando-se uma potência que chegou a contestar a hegemonia britânica (ao lado da Alemanha) na Segunda Guerra Mundial e com um projeto imperialista. O capítulo segue até 1945, quando o modelo econômico do Japão é derrotado, e os Estados Unidos tornam-se a liderança global.

No Capítulo 2 “Descolonização, nacionalismo e conflitos na Ásia (1945-71)”, o autor mostra quais processos caracterizaram a Ásia após a Segunda Guerra, dentre estes a descolonização e o fim do domínio europeu, as revoluções e as divisões geradas pela Guerra Fria. Aborda-se o tema da emergência do Terceiro Mundo e seu relacionamento com as potências mundiais, associado ao desenvolvimento do Movimento Não-Alinhado. É analisada a revolução comunista na China em 1949, e seus respectivos desdobramentos frente ao ocidente e a URSS. Também presente está a discussão acerca da Guerra da Coreia (1950/1953), investigando como se deu a divisão da Coreia e como o conflito foi um dos embates indiretos entre as potências da Guerra Fria. A construção da nova aliança sino-americana, para deter o avanço soviético para a Ásia, é outro tópico abordado.

Por sua vez, o terceiro capítulo “O desenvolvimento asiático e a multipolaridade (1971-2011)” avalia o desenvolvimento asiático e as tendências de multipolaridade presentes na região e no mundo no período. A análise versa sobre a trajetória econômica do Japão, como líder do processo denominado de revoada dos gansos. O tema do desenvolvimento econômico é abordado com referência aos Tigres Asiáticos, mostrando que seu crescimento fora acelerado e vinculado ao japonês. Somado a isso, o autor apresenta o caso da China e as reformas empreendidas na década de 1970. Tais reformas, denominadas de as “Quatro Modernizações” iniciadas em 1978 por Deng Xiaoping nos setores da agricultura, indústria, forças armadas e ciência e tecnologia, permitiram à China se desenvolver economicamente e modernizar sua base industrial. Tais modernizações levaram à construção do conceito de Socialismo de Mercado. Por fim, avalia como o modelo asiático foi visto pelo ocidente no pós Guerra Fria, e os desafios de manter tal modelo frente às pressões ocidentais.

No quarto capitulo “A Grande China: o pivô da Ásia”, que inicia a Parte II do livro, Visentini foca a China. O autor analisa os aspectos da reinserção chinesa no sistema internacional. Avalia-se a política externa chinesa para o Século XXI e de como ela atuara frente aos desafios que surgiram com o final da Guerra Fria e a mudança para a quase unipolaridade norte-americana. Também são abordados dois países no entorno da China e que muito tem a ver com sua política externa e segurança: Taiwan e Mongólia.

No capítulo cinco, “A Índia, o Paquistão e a Ásia meridional” Visentini foca no Estado Indiano e no Paquistão. O autor aborda desde a independência de ambos em 1947 até suas políticas externas atuais, analisando as crises políticas. Ambos ainda se consideram Estados rivais e nuclearizados. Além dessa discussão, o autor discorre sobre a SAARC. A SAARC, a Associação Sul-Asiática para Cooperação Regional, é uma organização para a cooperação e o desenvolvimento do sul da Ásia. O autor apresenta uma análise sobre os principais aspectos da SAARC. No final deste mesmo capitulo Visentini ainda discorre sobre outros países do sul asiático como o Sri Lanka, Nepal, Butão, dentro outros.

Na sequência, o Capítulo Seis “O sudeste asiático e sua integração” aborda o Sudeste Asiático e suas perspectivas de integração como a ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático). A cooperação é vista pelo prisma da interdependência regional e das dinâmicas de inter-relação Sul-Sul. Também são analisados os países membros da ASEAN como a Tailândia, Cingapura, Brunei. A partir disso, observa as diferenças dos países membros da ASEAN, vendo as reais dificuldades e potencialidades da integração.

Já no sétimo capitulo “O nordeste asiático: tensões e desenvolvimento” o enfoque recai nesta região. O texto se inicia com uma discussão sobre a evolução do Japão no pós Segunda Guerra Mundial, mostrando sua construção política interna e paradigmas de inserção internacional.  São analisados desde o apogeu do Japão, em uma época onde se apostava que o país ultrapassaria a economia dos EUA, até seu declínio e estagnação, abrindo lugar para a China. É abordada a realidade da Península Coreana: são analisadas a Coreia do Sul e do Norte, focando em sua economia, política interna, política externa, o relacionamento bilateral e a possibilidade de reunificação.No oitavo e último capítulo “Os novos eixos da diplomacia asiática” o autor nos mostra os eixos atuais da diplomacia asiática. Com isso, são analisadas experiências como a OCX (Organização Cooperação de Xangai) que visa à cooperação entre os países do centro asiático mais a China e a Rússia. Esse capítulo também aborda o Fórum IBAS de cooperação no eixo Sul-Sul entre o Brasil, Índia e África do Sul. Adicionalmente, o autor termina essa seção sobre as experiências de multilateralismo asiático discorrendo sobre os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que consistem nos principais países emergentes do sistema internacional. Há uma discussão acerca da atual inserção/cooperação da China e Índia na África, questionando se é uma nova espécie de imperialismo ou uma cooperação Sul-Sul. Em suma, estão são as linhas gerais do livro, que aborda diversos aspectos e singularidades da região asiática. Portanto, torna-se um texto relevante para quem trabalha com o assunto ou deseja se aprofundar nas questões relativas a este espaço geopolítico.

VISENTINI, Paulo Fagundes. “As Relações diplomáticas da Ásia: articulações regionais e afirmação mundial (uma perspectiva brasileira)”. Belo Horizonte: Fino Traço, 2011. ISBN: 978-85-8054-042-0.

Márcio José de Oliveira Junior é Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, Campus Osasco e Bolsista de Iniciação Científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo- FAPESP (marcio.junior@unifesp.br).

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.