Considerado um dos Estados mais babélicos da América do Sul em que diversos grupos étnicos convivem na difícil geografia do país, o Peru atravessa um momento de grandes acontecimentos políticos, principalmente, na região da selva amazônica. São cada vez mais comuns as veiculações de notícias nos periódicos nacionais de grupos guerrilheiros que atuam em províncias como Quillabamba, capital de La Convención, onde no último mês de agosto, grupos desse tipo raptaram 36 trabalhadores de um gasoduto, abateram um helicóptero da Polícia Nacional e eliminaram oito militares.

Porém, é na área do Vale dos Rios Apurimac e Ene (VRAE) que se localizam os maiores focos de tensão. Isso ocorre devido à produção de metade da coca do Peru ocorrer nesses locais. Recentemente, o Centro de Estudos Estratégicos Internacionais (CSIS, em inglês), com sede nos Estados Unidos, apontou o país como o primeiro produtor de cocaína no continente sul-americano, superando a Bolívia e a Colômbia. Ao passo que a mídia local insiste na veiculação de notícias que apontam os narcotraficantes do VRAE como grupos terroristas remanescentes do movimento do Sendero Luminoso dotados de uma mega estrutura de plantio e transporte da pasta básica da coca ao litoral do país.

A transformação dos remanescentes do Sendero Luminoso no VRAE ocorreu após a assinatura de um Acordo de Paz entre um dos principais líderes do grupo, Abimael Guzmán, durante o regime de Alberto Fujimori, momento no qual o movimento aliou-se ao narcotráfico. A mudança ao longo dos anos até os dias atuais foi tanta a ponto de os novos guerrilheiros negarem qualquer ligação com o antigo movimento. Primeiro, porque optam em lutar apenas na selva, ao invés do terrorismo urbano que era característico do Sendero Luminoso; depois, porque seus ataques são direcionados exclusivamente aos militares, poupando a sociedade civil, ao contrário do senderismo que praticava uma violenta opressão sobre as comunidades locais campesinas, que eram obrigadas a dar apoio logístico ao grupo, ao mesmo tempo em que sofriam pressão por parte dos militares para que não fornecessem esse tipo de apoio ao movimento; por fim, sua ação concentra-se na região do VRAE, um local montanhoso e de selva fechada, muito difícil de ser controlado militarmente, enquanto o primeiro não se detinha a um único local, representando um perigo real para o Estado.

A principal fonte de financiamento dos guerrilheiros do VRAE também difere das práticas de grupos narcotraficantes, uma vez que ao invés do tráfico, os guerrilheiros fornecem proteção aos produtores e transportadores da pasta básica até os laboratórios que produzem a cocaína na costa do país, recebendo um pagamento por essa proteção aos negócios dos camponeses que trabalham com a produção de coca.

Compreender a realidade desses grupos localizados na Amazônia peruana requer uma volta ao passado, iniciando com a chegada de Francisco Pizarro à América Hispânica. O Império dos Incas contrariamente ao que pensavam os espanhóis, era menos homogêneo e mais complexo do que se poderia pensar. Contando com uma alta densidade demográfica, a região do altiplano peruano era ocupada por uma população sedentária que demandava um sistema de agricultura estável. Além disso, o clima seco forçava o armazenamento de água para a irrigação. Tudo isso forçava uma estrutura social com um mínimo de centralização administrativa que pudesse ainda lidar com a constante tensão vivida pelos grupos indígenas do altiplano, conhecida como ayllu. O ayllu consistia na unidade social básica do Império Inca e sustentou o seu desenvolvimento.

Com a chegada dos espanhóis, o ayllu, como unidade organizativa e produtiva, permaneceu e prosseguia em seu ritmo, praticamente sem interesse por parte dos colonizadores, que estavam interessados apenas nos recursos que lhe faltavam para a exploração das minas na região: mão de obra indígena. Ao se observar essa realidade, pode-se dizer que, a partir da chegada de Francisco Pizarro, os muitos conflitos internos que ocorreram na história da Amazônia peruana ocorreram sempre entre o vice-reinado e o ayllu, entre o poder central e o poder local, entre o Presidente e o chefe local. Da mesma forma que em vários dos demais países que compartilham dessa região de floresta, o Peru teve grande parte de sua história voltada para o contato com o exterior, o que resultou na pouca atenção dada ao seu interior, em especial a selva que quase metade de seu território.

Esse pouco tratamento dado à população que lá vive, resultou na necessidade das comunidades locais em se organizarem, sob a égide do espírito do ayllu, de forma a promover a sua própria manutenção de vida sem depender do Estado central. Daí a desconfiança das populações locais com relação ao poder central representado pelos militares na região do VRAE.

Como conseqüência, os recentes conflitos entre militares e população local acarretaram não só em ações de grupos guerrilheiros, como também em embates contra projetos de mineração na área planejados pelo governo. Existe o temor de que ocorra a contaminação das águas, além do aumento no número de casos de doenças causadas por substâncias químicas nocivas ao homem e utilizadas nesse tipo de atividade. Os enfrentamentos se tornaram tão violentos a ponto de o governo peruano decretar estado de emergência nessa região, tendo como objetivo de salvaguardar a integridade física das pessoas, a propriedade privada e a manutenção da ordem pública e livre trânsito de cidadãos e veículos.

Assim, depois do seqüestro dos 36 trabalhadores do gasoduto e dos enfrentamentos entre a Força Nacional e a população, que é contra os projetos governistas de exploração mineral, os embates entre guerrilheiros e militares têm crescido a ponto de o estado de emergência prever dentre outras medidas, a suspensão de garantias constitucionais relativas à liberdade e segurança pessoais, a inviolabilidade de domicílios e a livre reunião de pessoas e de circulação; como uma forma de manter o controle da população.

Finalizando, o espírito do sistema ayllu permanece presente na atual configuração social do Peru. Nesse sentido, pode-se afirmar que a região do VRAE, que sempre esteve à margem do desenvolvimento do restante do país, vive atualmente uma situação na qual diversos poderes estão em conflito pelo seu controle. Os grupos guerrilheiros que lá atuam, ao contrário, do movimento do Sendero Luminoso que antigamente impunha medo na população local, tornou-se aliado na luta contra as pretensões do governo Humala de levar projetos mineros que ameaçam a vida de quem lá reside, mantendo o histórico embate entre o governo central e as comunidades locais características do período de conquista do Império Inca pelos colonizadores espanhóis.

Paula Gomes Moreira é mestre em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – PPGRI/UERJ e pesquisadora do Observatório Político Sul-Americano do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da mesma instituição – OPSA-IESP/UERJ (paulagmri@gmail.com).

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