Os Jogos Olímpicos de Verão, reestruturados ao fim do século XIX, são o evento esportivo de maior impacto no cenário internacional contemporâneo. Na Grécia Antiga, conforme respeito à tradição histórica, eram interditadas as guerras entre os povos helênicos, de modo que pode ser considerado que as disputas militares eram substituídas por disputas desportivas. Embora sem conter os elementos de brutalidade e de violência de uma guerra, os impactos psicológicos de uma vitória e de uma derrota tinham peso similar para os atletas e para as cidades que representavam, por estes homens, quando vitoriosos, serem agraciados com homenagens equiparáveis às concedidas aos grandes heróis militares.

Com o afloramento dos nacionalismos extremados, após a Primeira Guerra Mundial, os Jogos Olímpicos lograram maior sucesso entre público e atletas, levando-se em consideração o pouco apelo existente nas edições anteriores. Apesar de os Jogos em Berlim, de 1936, serem considerados grande exemplo da interseção entre política e esporte, por ter sido o grande interesse de Hitler em promover a competição comprovar a superioridade da raça Ariana, somente com o advento da Guerra Fria que a referida interseção se tornou mais constante. As disputas entre americanos e soviéticos, ou mais amplamente entre capitalistas e socialistas, tiveram nas Olimpíadas um dos seus grandes expoentes que, assim como na Corrida Espacial, tentavam externalizar a grandeza de seus sistemas político-econômicos por meio da performance de seus atletas. As competições de 1980 e 1984, as quais ocorreram, respectivamente, em Moscou e Los Angeles, exemplificaram sobremaneira as disputas políticas entre ambos os blocos, ao a delegação norte-americana ter boicotado a competição que iria ocorrer em território soviético em protesto à invasão desses ao território do Afeganistão e os soviéticos, alegando falta de segurança aos seus atletas, terem repetido gesto similar nos Jogos que ocorreriam nos Estados Unidos.

O Brasil, por outro lado, até a década de 1990, teve papel menos que secundário no cenário olímpico internacional. Não somente ofuscada pelas disputas entre as duas superpotências que se externalizavam nos Jogos, mas também pelos poucos resultados de alguma expressividade, a participação brasileira resumiu-se a poucos feitos de destaque, decorrentes muito mais de talento e investimentos individuais do que de uma política estatal de transformar o país em uma potência esportiva. A nova configuração do sistema internacional, na qual países anteriormente pertencentes à periferia obtêm, gradativamente, maior impacto político e econômico, também pode ser percebida no desempenho dessas potências emergentes nas competições esportivas internacionais, ao seus atletas obterem resultados de maior impacto e competindo de igual para igual com as tradicionais potências.

A China e seu grandioso projeto vinculado à edição das Olimpíadas que sediou, em 2008, é o exemplo de maior expressividade que se tem na atualidade. Embora a proporção chinesa seja de difícil comparação com a realidade brasileira em decorrência de aspectos diversos, muito dos quais caem, por vezes, em clichês e análises superficiais acerca do autoritarismo do regime socialista e de seu contingente populacional, não se pode desprezar o impacto do projeto olímpico implementado pela China e seu sucesso contemporâneo. País de maior peso do grupo BRICS e principal rival dos Estados Unidos em termos de poder econômico, a China, hoje, também é uma potência esportiva, fato o qual auxilia em promover sua imagem internacional como grande potência e logra frutos a sua população oriundos dos benefícios sociais que o esporte promove.

Em 2016 será a oportunidade do Brasil em promover o maior evento esportivo do planeta, sendo que, em 2014, o segundo maior, a Copa do Mundo de futebol, também será disputada no país. Considerado por diversos analistas como uma das potências que se estabelecerão no século XXI, fato o qual já é perceptível, hodiernamente, pelos crescentes resultados da sua economia, o Brasil ainda não pode ser considerado como uma potência esportiva mundial, apesar de apresentar melhores resultados que outrora. A falta de um projeto estatal de grande porte promovido em consonância por todas as esferas governativas do país é um fator que muito dificulta a ascensão brasileira no cenário olímpico, fato que pode ser atribuído, em grande parte, a pouca importância dada à imagem internacional que o país deseja ter caso realmente se consolide uma grande potência mundial.

No cenário internacional contemporâneo, na qual a utilização da força militar está caindo em desuso e sendo mal vista pela sociedade internacional, outras formas de demonstração da grandiosidade e do poder de um país ganham maior espaço. A despeito de a área de defesa não ter perdido sua importância, pois em última instância é a que tem a capacidade de dar sobrevivência a um Estado e a sua sociedade, não é mais por meio da promoção de guerras, como na Antiguidade Clássica, que se obtém, na atualidade, o prestígio internacional de um país. Entendido como uma metonímia da grandiosidade internacional, o sucesso em eventos esportivos internacionais tem a capacidade de demonstrar o sucesso econômico de um país que advém de políticas públicas sociais voltadas para a melhoria das condições de vida da população. Embora ainda seja uma perspectiva para o futuro, tendo em vista o desempenho histórico e o momentâneo do Brasil nos Jogos Olímpicos de Londres, pode-se afirmar que o país ainda encontra-se aquém dos resultados esperados para uma nação que tem como objetivo consolidar-se como uma das grandes potências internacionais do século XXI.

Pedro Henrique Verano é mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (phverano@gmail.com).

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