Há 60 anos Israel enfrentava uma das mais decisivas etapas para a sua consolidação, a guerra dos seis dias. Desde a sua criação como Estado em 14 de março de 1948, Israel tomou consciência das dificuldades que teria para torna-se nação soberana. A ameaça Árabe, a posição geopolítica, a falta de aliados de confiança, foram elementos, que os levou a compreender sua dura realidade. Tal percepção influiu em seus Objetivos Nacionais, que se baseia em 05 perspectivas das quais destacamos 04: a soberania; a integridade territorial; o progresso e a integração social.

A soberania se fundamenta na necessidade de continuidade do Estado de Israel como garantia da representação da nação judaica dentro do cenário mundial, o que asseguraria a manutenção do seu caráter étnico-religioso e político. Ideia alicerçada na sustentação de uma sólida base aliada. Nesse cenário, a aliança com os EUA garante permanente apoio às ações antiterroristas no Oriente Médio, uma vez que a sua política oficial é favorável ao Estado Judeu. No tema da soberania, enquadra-se a questão da integridade territorial que se expressa na manutenção de fronteiras seguras, sem comprometimento da sua situação geopolítica.

O progresso significa o desenvolvimento de uma economia duradoura que proporcione os meios vitais de sobrevivência com o mínimo de dependência do exterior, fato constatado pela evolução tecnológica, civil e militar. A integração social se justifica em razão da multidiversidade dos habitantes da nação israelense, composta por judeus de diferentes origens, porém com a mesma herança religiosa.

Nessa conjuntura também observamos como o princípio de Segurança e Defesa de Israel, esta intimamente ligada ao conceito de objetivo nacional, assim, em caso de ameaça, a continuação da Nação, só pode ser garantida por meio de uma ação militar preventiva, de forma a antecipar qualquer perigo à segurança e sobrevivência de seu Estado. Do ponto de vista, Árabe, ao longo de 50 anos, sempre foram claras as intenções de eliminar o Estado Israelense do Oriente Médio. A declaração feita pelo então presidente iraquiano Saddam Hussein, por ocasião do estabelecimento da nova carta Árabe em 1980 afirmava que: os estados árabes deveriam “[…] rechaçar a presença do de exércitos, forças militares […] na pátria árabe sob qualquer forma, pretexto ou motivo […]”. (CTM, p. 47, 1980). Uma clara alusão a Israel.

Para Israel segurança se traduz na presença efetiva de suas forças armadas e da doutrina que constitui sua missão […] defender a existência, a integridade territorial e a soberania do estado de Israel. Para proteger os habitantes de Israel e para combater todas as formas de terrorismo que ameaçam a vida diária. (IDF, 2012). Israel é uma ilha dentro de um oceano Árabe; para tanto a manutenção de seus objetivos nacionais requerem inúmeras ações, desde o estabelecimento de zonas de segurança, até a ação armada, tal como ocorreu em 1948, 1956, 1967, 1973.

Juntamente ao movimento sionista, já existiam dois grupos guerrilheiros que travavam luta contra a ocupação inglesa na Palestina. Com a independência essas forças encontravam-se com relativo preparo para enfrentar a ameaça Árabe. O primeiro grupo armado na região foi a Haganah, (Força de Defesa). Em 1931, judeus de direita, não aceitavam a atitude “defensiva” da Haganah para com os Árabes, e criaram a Irgun […], cujo objetivo também era de dificultar aos ingleses o controle da Palestina. (BROWN, 1984, p 26) A tensão entre árabes e judeus era intensa e em 1940 ocorreu uma nova cisão dessa vez na Irgun surgindo a Lehi (Combatentes pela Libertação de Israel).

Em 1967, na guerra dos seis dias, a IDF Israel Defence Force (Força de Defesa de Israel), entrou em ação em conformidade com o nível de organização e preparo almejado por sua doutrina de segurança, onde a eliminação dos inimigos do Estado deveria ser garantida por uma ação militar rápida, e decisiva, ou seja, uma doutrina ofensiva (MARQUES, 2008). Na ocasião o alto padrão de operacionalidade foi atingido. Em 1973, na Guerra do Yon Kippur, um duro golpe foi aplicado e a ação dos egípcios quase levou Israel à destruição. A reação da IDF foi proporcional, resultando na derrota egípcia. O aparato bélico, o grau de adestramento e a habilidade israelense foram um diferencial que levou-os a vitória. A prontidão militar permanente é condição prioritária, que em situação de perigo iminente envolve toda a nação, aliado a um eficiente serviço de inteligência, o Mossad.

Com a invasão do Líbano em 1982, surgiu a ideia de criação de “fronteiras seguras”. O principal objetivo era estabelecer zonas de amortecimento visando deter qualquer ofensiva inimiga. Após a intervenção, a IDF tratou de manter-se junto à fronteira afim de criar um perímetro de segurança contra o Hezbollah, ao mesmo tempo sustentou uma política de apoio aos aliados Drusos. O desenvolvimento cientifico e tecnológico para Israel representa um fator de extrema importância, fato constatado na capacidade de seus armamentos e sua constante evolução. Desde a década de 70 vários analistas afirmavam com certeza que Israel seria detentor de um arsenal nuclear com capacidade de dissuasão bastante respeitável.

Em 1979, o então Chefe do Serviço de Informações do Exército de Israel Maj. Gen Shlomo Gazit, afirmou que, em cinco anos alguns países árabes teriam capacidade nuclear. (ADN, 1979, p. 118) É fato que em 1981 a Força Aérea de Israel destruiu a usina iraquiana de Osirak. Tal situação justificaria Israel possuir armas nucleares. Recentemente analistas apontaram inclusive a possibilidade de Tel Aviv haver negociado o fornecimento de bombas nucleares aos Sul africanos em 1975. (MCGREAL, 2012)

Sua doutrina de segurança procura enfatizar, na sociedade, a influência de uma expressão militar, uma cultura militarista ao estabelecer valores, conceitos, normas e métodos. Isto se baseia na necessidade de superar sua limitação quantitativa pela habilidade e qualidade, assumindo um alto grau de profissionalismo e especialização. Em seu treinamento são ressaltados os princípios de inteligência e iniciativa. A disposição física do território permite que as forças de terra sejam rapidamente abastecidas, para que tomem imediatamente atitude ofensiva ante a ameaça de agressão inimiga.

O serviço militar de Israel é obrigatório para judeus e drusos, para cristãos e árabes é voluntario, o período é de 36 meses para os homens, e 24 para mulheres. Para os oficiais o período é de 92 meses. Sobre o serviço militar, existem dois aspectos capitais. O primeiro é a importância da integração masculina e feminina junto às forças armadas, o que representa o desenvolvimento de uma consciência cívica. O segundo relaciona-se a estratégia, cujo cerne é a questão da sobrevivência do Estado. Em linhas gerais em Israel, cada cidadão é um soldado em permanente prontidão. O treinamento é constante, segue até os 50/54 anos para homens e 25 anos para as mulheres, sendo um dia por mês, ou três dias de três em três meses, além de um mês por ano de exercícios intensivos. Isso garante as forças armadas, principalmente ao Exército, uma reserva treinada de 90% de sua população masculina em idade militar e de cerca de 50% da feminina. Com uma notável capacidade de mobilização, a estratégia de defesa nacional israelense é incrementada ainda por duas organizações: a GADNA (Brigada da Juventude) e a NAHAL (Juventude dos Pioneiros Combatentes). Em situação extrema é possível a mobilização de quase meio milhão de homens e mulheres da IDF em pouco menos de 72 horas.

Ao longo dos anos Israel, conseguiu canalizar esforços para alicerçar sua sociedade em torno de uma causa comum, a defesa de seu país, impuseram um tipo de conduta própria que tem garantido a sobrevivência de seu Estado até nossos dias.

Bibliografia

A Defesa Nacional. “O sistema militar de Israel”. ADN Revista de assuntos militares e estudos de problemas brasileiros. Rio de Janeiro: BIBLIEX, nº 685, pp. 118-121, 1979.

BROWN, Ashley. (1984): “Os conflitos a partir de 1945”. Guerra na Paz: Rio de Janeiro: Rio Gráfica, pp. 20-30, 1984.

SALEM, Mohamed. Cadernos do Terceiro Mundo. Rio de Janeiro: Ed Terceiro Mundo, n° 25, pp. 40-45, 1980.

IDF. Doctrine. Disponível em: [http://dover.idf.il/IDF/English/about/doctrine/default.htm] Acesso 10/07/2012.

MARQUES, Adriana A. (2008). Segurança estatal, cultura, estratégia e doutrina militar. 2008. Disponível em: [www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/…/32037-37695-1-PB.pdf], acesso 14/07/2012.

MCGREAL, Chris. (2012) How Israel offered to sell South Africa nuclear weapons. Disponível em: [http://www.guardian.co.uk/world/2010/may/23/israel-south-africa-nuclear-weapons], Acesso em: 15/07/2012.

Johny Santana de Araújo é Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense – UFF, Professor de História da Universidade Federal do Piauí – UFPI e Membro do Programa de Pós-Graduação em História do Brasil – PPGHB.  (johnysant@gmail.com)

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2 comentários »

  1. Incrível! Sintetizou com perfeccionismo o sentimento que alimenta as necessidades que foram e são tão importantes para a sobrevivência de Israel.
    Parabéns pelo profundo conhecimento.

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