México: Cinco anos do massacre de Ayotzinapa, por Hugo Agra

Em setembro de 2019 completam-se cinco anos do massacre de Ayotzinapa, no México, no qual 43 estudantes foram cruelmente assassinados. Era 26 de setembro de 2014, e os jornais anunciavam a barbárie na pequena cidade de Iguala, no estado de Guerrero, sudoeste do México e a cerca de 190 quilômetros do Distrito Federal. Os jovens eram estudantes da tradicional Escola Normal Rural de Ayotzinapa. Apelidados de “normalistas”, geralmente são provenientes de regiões pobres e passam a estudar em tempo integral em escolas que já detêm um grande histórico de ativismo político. A escola é conhecida por formar professores e líderes camponeses, como Lucio Cabañas e Genaro Vázquez, importantes ativistas engajados na luta política mexicana nas décadas de 1960 e 1970 (KURI; MELLO, 2010).

O crime ocorreu de forma brutal e violenta. Os estudantes realizavam seus tradicionais bloqueios a ônibus e estradas nas redondezas de Ayotzinapa, região próxima a Iguala, com o objetivo de arrecadar dinheiro para participar das manifestações dos 46 anos do massacre de Tlatelolco — em outubro de 1968, dezenas de estudantes foram presos e vários foram mortos pelas forças policiais do governo federal na praça das Três Culturas, na região de Tlatelolco, Cidade do México. Em Ayotzinapa, os estudantes normalistas foram cercados e presos pela polícia de Iguala. Três membros do cartel de drogas Guerreros Unidos, que atua nos estados de Morelos e Guerrero, confessaram que os jovens haviam sido entregues pela polícia de Iguala aos narcotraficantes, que pensavam que os estudantes eram membros do Los Rojos, um cartel rival da região. Os familiares das vítimas rechaçaram a versão e afirmaram que vários policiais também eram membros do cartel Guerreros Unidos (HERNANDÉZ; FISHER, 2014; GARCÍA, 2016).

A Promotoria de Justiça que analisou inicialmente o caso disse que os estudantes haviam sido vítimas da ação conjunta da polícia e do cartel, sob ordens do então prefeito José Luis Abarca Velásques e sua mulher, María de los Ángeles Pineda, candidata a prefeita (os dois eram conhecidos na região como o “Casal Imperial”). O prefeito temia que os protestos realizados pelos estudantes acabassem prejudicando a candidatura da sua esposa. Antes mesmo de comprovado o envolvimento deles no crime, os dois fugiram da região, mas foram capturados, um mês depois, na Cidade do México. Os ânimos entre o Executivo municipal e os normalistas estavam à beira do colapso, pois os estudantes já haviam acusado o prefeito de envolvimento na morte do líder camponês Arturo Hernández Cardona, em 2013 (AGUAYO, 2015).

Os relatos de alguns dos envolvidos no crime que foram presos assustaram todo o país, e colocaram em dúvida a credibilidade do governo federal no combate ao narcotráfico. De início, antes das prisões, seis estudantes foram mortos numa emboscada: a bordo de picapes, homens fortemente armados atiraram contra o ônibus dos jovens. Os criminosos disseram que os estudantes que sobreviveram foram presos e enviados ao Quartel-Geral da Polícia e, depois, foram entregues aos membros do Guerreros Unidos. Mesmo afirmando que eram estudantes e não membros de Los Rojos, os jovens, segundo os delatores, foram torturados e assassinados — possivelmente incinerados em um lixão da região —, e os restos mortais jogados no rio San Juan, na cidade vizinha de Cocula. No dia posterior ao massacre, foi encontrado um corpo sem os olhos e com o rosto totalmente desfigurado. As fotos dessa cena horrível, que circularam pelas redes sociais, eram de Julio Cesar Mondragón, um dos jovens estudantes assassinados. Passava-se a conhecer, ali, uma barbárie que convulsiona o México até hoje (HERRERA ROMAN, 2015, p. 106-107).

Diante das atrocidades do caso, a Corte Interamericana de Direitos Humanos decidiu criar, em novembro de 2014, o Grupo Interdisciplinarios de Expertos Independientes (GIEI), para ajudar o governo mexicano na resolução do caso. Um dos pontos dos especialistas que trabalharam no relatório da GIEI foi que os 43 corpos não haviam sido queimados no lixão de Cocula. Os técnicos afirmaram que seria impossível que todos os corpos fossem incinerados no local, como haviam relatado alguns narcotraficantes (VILLA, A. et al, 2015, p. 420).

De imediato, além da fuga do prefeito, o governador do estado de Guerrero, Ángel Aguille, renunciou ao cargo, e o governo federal montou uma verdadeira operação de guerra para desvendar o caso. O presidente Enrique Peña Nieto enviou para a região a chamada Gendarmería, uma divisão de elite da Polícia Federal que foi somada às outras seis divisões já existentes (Fuerzas Federales, Seguridad Regional, Investigación, Científica, Antidrogas e Inteligencia) (MÉXICO, 2019). Diante da forte pressão popular, Peña Nieto destacou para liderar a operação o diretor da Agência de Investigação Criminal, Tomás Zerón, responsável pela captura de El Chapo Gúzman, em fevereiro de 2014, um dos homens mais procurados do mundo, que viria a fugir em julho de 2015 e seria recapturado em janeiro de 2016.

Para Sergio Aguayo (2015), um dos mais influentes intelectuais mexicanos e professor do Colégio de México, a atuação do Estado na violência do país se dá não só pela sua ausência, mas também pela sua participação direta. Para Aguayo, o Estado mexicano é o principal responsável pelo monopólio legítimo da violência e ator direto em algumas das diversas violações de direitos humanos que ocorreram no país.

O crime organizado mexicano encontrou na corrupção institucionalizada um ambiente propício para lavagem de dinheiro, extorsão e controle da burocracia estatal. Durante mais de setenta anos, um único partido (o PRI) esteve na presidência da república, perdendo espaço apenas para o Partido da Ação Nacional (PAN), entre 2000 e 2012, e o MORENA, que ganhou as últimas eleições presidenciais, em 2018.

A barbárie do caso Ayotzinapa, mesmo com as ações empreendidas pelo governo mexicano, demonstra que ainda há muito a ser feito em relação ao problema da (in)segurança no México. Não basta o aumento das capacidades materiais no combate ao narcotráfico, na mudança da cultura policialesca e nas melhorias no bem-estar social dos indivíduos das localidades mais atingidas pela violência dos poderosos cartéis; ações devem ser realizadas nos locais onde há demanda por drogas, como Nova York, San Diego e Los Angeles.

A cultura do “plata o plomo” (dinheiro ou chumbo), do “se obedece pero no se cumple” (se obedece, mas não se cumpre), do “el que no transa, no avanza” (quem não trapaceia não prospera) e o poder dos cartéis adiam cada vez mais a visão de uma luz no fim do túnel para acabar com o poder desenfreado do narcotráfico e diminuir a simbiose entre bandidos e agentes públicos.

A história de Ayotzinapa, além de chocar, nos remete à análise e reflexão sobre o que está sendo feito na prevenção e segurança dos cidadãos das localidades mais afetadas pela violência grotesca do Estado e dos cartéis. O ideal, se é que podemos ser objetivos a tal ponto, não seria criar uma “paz negativa” (uma simples ausência de conflitos), mas uma “paz positiva” (com uma comunidade integrada, justiça social, liberdade e forte papel dos agentes locais na determinação da agenda de reconstrução do seu próprio país), como esclarece Johan Galtung (1964).

Ayotzinapa é apenas um entre as centenas de casos sanguinários que já aconteceram no México. Diante de todo o terror e comoção da população mexicana, compartilhada por fortes protestos por todo o país nas ruas e na internet (#YameCansédelMiedo, #Ayotzinapasomostodos), os pais dos jovens estudantes ainda ecoam vozes de esperança e alento: “¡Vivos se los llevaron, vivos los queremos!”. O dia 26 de setembro de 2019 será mais um dia de angústia para as famílias dos jovens assassinados, e marcará os cinco anos de um crime que ainda choca a sociedade mexicana.

Referências bibliográficas

AGUAYO, Sergio. De Tlatelolco a Ayotzinapa. Las violencias del Estado. México, DF: Proceso, 2015.

AGUILAR, Rúben; CASTAÑEDA, Jorge G. Los Saldos del Narco: el fracaso de una guerra. México, DF: Punto de Lectura, 2012.

GARCÍA, Denis A. PGR documenta “nexos” de Abarca y “Guerreros Unidos”. El Universal, Cidade do México, out. 2015. Disponível em: https://www.eluniversal.com.mx/articulo/nacion/seguridad/2015/10/27/pgr-documenta-nexos-de-abarca-y-guerreros-unidos. Acesso em: 7 set. 2019.

GALTUNG, Johan. An editorial. Journal of Peace Research, vol. 1, n. 1, p. 1-4, 1994.

HERNANDÉZ, Isabel; FISHER, Steve. Iguala: la historia no oficial. Processo, 2014. Disponível em: https://www.proceso.com.mx/390560. Acesso em: 7 set. 2019.

HERRERA ROMÁN, Sayuri. ¿Por qué torturaron hasta la muerte al normalista Julio César Mondragón Fontes? El Cotidiano, Distrito Federal, n. 189, enero-febrero. 2015, p. 106-108. Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=32533819011. Acesso em: 6 set. 2019.

KURI, Ariel; MELLO, Renato. El fracaso del éxito, 1970-1985. In: GARCÍA, Erik. et al. Nueva Historia General de México. México, DF: El Colegio de México, 2010.

MÉXICO. División de Gendarmería de la Policía Federal. Disponível em: https://www.gob.mx/policiafederal/es/articulos/division-de-gendarmeria-de-la-policia-federal?idiom=es. Acesso em: 7 set. 2019.

VILLA, ALEJANDRO. ET AL. Relatório do Grupo de Interdisciplinario de Expertos Independientes (GIEI). Disponível em: http://prensagieiayotzi.wix.com/giei-ayotzinapa. Acesso em: 17 jun. 2019.

Sobre o autor

Hugo Agra é doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB.

Como citar este artigo

Cite this article as: Editoria, "México: Cinco anos do massacre de Ayotzinapa, por Hugo Agra," in Revista Mundorama, 28/09/2019, https://mundorama.net/2019/09/28/mexico-cinco-anos-do-massacre-de-ayotzinapa-por-hugo-agra/.