Mapeamento da burguesia brasileira na África entre 2003-2016, por André Reis da Silva & Camille Ribeiro

Uma das faces da política africana do Brasil entre 2003 e 2016 foi a promoção da ida da burguesia brasileira para o continente. A potencialização da balança comercial foi apenas um dos aspectos dessa empreitada, com o aumento significativo do fluxo comercial entre Brasil e a África – 5 bilhões de dólares em 2002 transformaram-se em 26 bilhões em 2008 (OLIVEIRA, 2015). Parcerias entre empresas brasileiras e africanas foram formadas, vide o caso da CEVITAL na Argélia, conglomerado com a presença da Random e Neobus. As relações com os governos locais foram aprofundadas, como exemplo há a atuação da Odebrecht na gestão de supermercados estatais em Angola. Projetos de cooperação sul-sul se concretizaram em consonância com o setor privado, assim como o Programa Mais Alimentos fomentou a venda de implementos agrícolas importados do Brasil.Neste contexto, o objetivo desse trabalho é realizar um mapeamento da atuação da burguesia brasileira na África durante os governos do Partido dos Trabalhadores (PT), evidenciando quais são as empresas e como elas foram inseridas como representantes da burguesia brasileira no projeto de política externa para o continente.

As relações entre Brasil e África passaram por múltiplos contextos, desde a escravidão até o estreitamento de laços políticos, econômicos e sociais e durante os governos do PT. Costa e Silva (2003) lembra que Obá Osemwede do Benim e Obá Osinlokun foram os primeiros soberanos a reconhecer a independência brasileira. Outro episódio foi a movimentação que o 7 de setembro de 1822 ocasionou em Benguela com pleitos por uma suposta união entre Brasil e Angola. Diante de um recorte histórico mais alargado, há quem reconheça movimentos oscilantes entre o Brasil e a África no século XX, com destaque para a aproximação durante o período da Política Externa Independente, na qual se imprimiu a vocação africana na diplomacia brasileira a despeito de possíveis críticas (MUNANGA, 2018). Na década de 1970, esse eixo de relacionamento é redesenhado com a erosão do conceito de comunidade luso-brasileira (CERVO, 2009), data desse período a primeira aproximação significativa entre o empresariado brasileiro e o continente (SANTANA, 2003). Após retração entre meados de 1980 e a década de 1990, o século XXI é marcado por uma reoxigenação das relações Brasil-África em termos mais amplos (SARAIVA, 2015).

Inaugura o período estudado a divulgação da “Carta ao povo brasileiro” (2002), com Lula da Silva ainda candidato à Presidência da República, que simboliza a inauguração de um período de preocupação em dialogar com múltiplos setores da sociedade e tecer consensos. Há na carta uma preocupação enfática em transmitir segurança à elite burguesa brasileira, temerosa com a ascensão da esquerda. Naquele momento, Lula deixava claro que tal estrato da sociedade seria fundamental para a concepção da política externa de sua futura gestão, ao afirmar que a agenda internacional seria reorientada para a promoção dos interesses comerciais, haja vista o status de nação em desenvolvimento do Brasil (LULA DA SILVA, 2002). Uma vez eleito, é conformada então a frente neodesenvolvimentista, voltada para a promoção de um modelo de genuinamente brasileiro e emergente de desenvolvimento, composta pela grande burguesia interna, baixa classe média (operariado urbano e campesinato) e uma massa marginal de desempregados, subempregados, autônomos, camponeses em situação de penúria (BOITO E BERRINGER, 2013).

No contexto pós redemocratização, as relações entre Estado e empresariado no que se refere ao trato internacional demoraram a florescer (OLIVEIRA, 2013), é ainda recente o reconhecimento da necessidade de uma ponte contínua entre o público e privado em favor de uma PEB mais responsiva (MILANI ET AL., 2015). O fomento à ida do empresariadopara o exterior foi um recurso necessário, um apoio às atividades de cooperação sul-sul entre Estados, tal qual um objetivo em si de política externa para projetar a face privada do país. Essa projeção resulta em fatores intermésticos, em empregos no Brasil, manutenção de acordos comerciais e assinatura de novos, abertura de mercados para produtos nacionais, promoção da cooperação técnica (MILANI ET AL, 2015).

Um parêntese é pertinente quanto à diferença ao modelo desenvolvimentista do PT e o que perdurou até a década de 1980, devido à uma série de estímulos construídos ao longo dos anos de 1990, pela promoção do ideário neoliberal entre as elites econômicas, que passam a perceber como importante fator para seus negócios a competitividade internacional e inserção nas cadeias globais de valor. Diante disso, foram expostas deficiências do próprio Estado brasileiro e da burguesia em lidar com esses constrangimentos internacionais, a disposição em ultrapassar as limitações só chegaram com o governo Lula (OLIVEIRA, 2013), quando fica latente a internacionalização da burguesia.

Sobre identificar a burguesia interna, Singer (2018) a reconhece como grupo caracterizado pela ligação estreita entre produção e rentismo. O autor explica, o empresário industrial que deseja crédito barato e juros baixos é o mesmo que detém igualmente um conglomerado financeiro para o qual os juros altos são vantajosos. Em meio a isso, há uma forte tendência a prevalência de elementos ideológicos rentistas tão próximos do neoliberalismo, mesmo que isso resulte em questões negativas para a face industrial. Equilibrar essa dualidade em sua agenda para o desenvolvimento foi um esforço bem sucedido em Lula, uma vez que havia do lado financeiro a combinação de aumento do consumo e juros altos com o desenvolvimento baseado no mercado interno promotor da indústria, no governo Dilma isso é paulatinamente desarticulado (SINGER, 2018; BOITO, 2016; GAITAN E BOSCHI, 2016).

Dessa forma, a grande burguesia interna, em face da definição de Boito e Berringer (2013), é diversificada e multifacetada. Para os autores, é necessário reconhecer que a burguesia contemporânea no país se distribui entre a indústria, mineração, construção pesada e agropecuária. A tabela a seguir mostra como esses subsetores da burguesia estiveram presentes no continente africano ao longo do período estudado. Cabe ressaltar que o exposto abaixo não esgota todas as possibilidades de empresas brasileiras com atuação no continente, mas serve para ressaltar a relevância desse como um eixo de internacionalização. Das 49 empresas listadas como as mais internacionalizadas pelo ranking da Fundação Dom Cabral em 2017, em termos de ativos, receitas e funcionários, 27 estavam de alguma maneira presentes na África, sendo que das 15 primeiras ranqueadas, 10 possuíam atuação no continente.

Fonte: elaboração própria com base em FDC (2016;2017).

O mapeamento abaixo mostra a distribuição geográfica dos subsetores da burguesia brasileira no continente. Para elaboração do mapeamento, foram utilizados além do ranking FDC (2016;2017), empresas citadas nos Guias de Negócios do Departamento de Promoção Comercial do MRE, Divisão de Inteligência Comercial, com estatísticas até 2012, portanto os dados compreendem a dados de exportações e internacionalização de atividades produtivas. Essa complementação se deveu ao fato de a FDC não contabilizar para seu conceito de internacionalização empresas exportadoras sem parte de suas operações no exterior, a despeito da importância de tal modalidade para a balança comercial do país. Foram mapeadas 258 empresas subdivididas de acordo com os subsetores supramencionados. O grande destaque foi para a agropecuária, indústria e infraestrutura pela sua distribuição geográfica.

Fonte: elaboração própria com base em FDC (2016;2017) e BRASÍLIA (2012).

Fonte: elaboração própria com base em FDC (2016;2017) e BRASÍLIA (2012).

É notável o predomínio da presença da burguesia agropecuária, sobretudo no Norte da África, países de raízes árabes que são costumeiros consumidores do frango brasileiro, vide Egito, Argélia e Líbia. Por outro lado, as atividades industriais estão melhor distribuídas pela África subsaariana parte em que o maquinário brasileiro é elementar, por exemplo, para a cooperação técnica agrícola. O mapeamento da presença industrial brasileira mostra que de fato a África do Sul é um mercado diferenciado para o país, onde pelo menos 8 das multinacionais ranqueadas pela FDC ali se encontram: Weg, Random, Embraer, Marcopolo, Intercement, Iochpe-Maxion, Tupy e Magnesita, através de operações ou de exportações.

Já as empresas de infraestrutura se destacam na costa atlântica e nos países de língua portuguesa, bem como os outros dois setores anteriores, em especial Angola e Moçambique, os parceiros mais tradicionais do Brasil no continente, como é possível ver no mapa abaixo. A Odebrecht, o caso mais relevante de internacionalização via continente ultrapassa a simples atuação na construção civil, está na gestão de supermercados, mineração e agropecuária (ZANINI, 2017). A ida da empresa para a África resulta do período anterior de desenvolvimentismo, entre 1970 e 1980 e ganhou novo impulso durante os governos do PT.

Fonte: elaboração própria com base em FDC (2016;2017) e BRASÍLIA (2012).

Além dos setores acima elencados, cabe mencionar a participação do setor financeiro, porém em menor medida, através do Bradesco em Angola, Argélia, Cabo Verde, Líbia, Marrocos e Moçambique e também atividade financeira do BTG em Angola quanto a investimentos. Do setor de mineração, além da Vale do Rio Doce há a Samarco, Sandvik do Brasil, Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração, Morganite Brasil e a Minerações Associadas, nesse caso cabe destacar o caso da participação da Odebrecht no grupo responsável pela exploração da Mina de diamantes Catoca, a quarta maior do mundo.Outras que cabem mencionar são a Stefanini, multinacional de serviços de Software e a Falconi, consultoria de gestão. No setor de Óleo e Gás, além da Petrobrás, é possível identificar atividades da Odebrecht, HRT e a ARG Engenharia.

Considerações finais

As relações entre Brasil e o continente africano, retomadas em grandes proporções nas gestões PT, ofereceram à burguesia brasileira uma estratégia de inserção no cenário de globalização e uma possibilidade de reflexão sobre sua vocação internacional. Os laços históricos do país com o continente e uma tendência dos emergentes em desbravar esses mercados se combinaram em uma visão pragmática da África como mercado. A distribuição da face privada da política externa pelo continente é ampla e não se resume somente aos países de língua portuguesa. Contudo, a continuidade dessa relação permanece incerta diante das mudanças políticas mais recentes no Brasil.

Sobre os autores

André Luiz Reis da Silva é Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.;

Camille Ribeiro é Mestranda em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS .

Referências

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Como citar este artigo

Cite this article as: Editoria, "Mapeamento da burguesia brasileira na África entre 2003-2016, por André Reis da Silva & Camille Ribeiro," in Revista Mundorama, 26/09/2019, https://mundorama.net/2019/09/26/mapeamento-da-burguesia-brasileira-na-africa-entre-2003-2016-por-andre-reis-da-silva-camille-ribeiro/.