China, Sudão e Sudão do Sul: entre a paz e o petróleo, por Renan Holanda Montenegro

A instabilidade política doméstica tem marcado a história do Sudão ao longo das últimas décadas, com guerras civis e golpes de Estado em sequência. Em abril de 2019, o presidente Omar al-Bashir, que estava no cargo há 30 anos, foi deposto após meses de intensos protestos devido a uma grave crise econômica. Uma parte significativa dessa crise é atribuída à perda de receita gerada pela exploração petrolífera, localizada majoritariamente na porção meridional do território, hoje parte do Sudão do Sul, independente desde 2011. No Sudão do Sul, a situação não é muito diferente: o país entrou em guerra civil em 2013, desencadeando a pior crise de refugiados em todo o continente africano (UNHCR 2019).

Dentro desse cenário, um ator extrarregional tem demonstrado claro interesse em assegurar a estabilidade na região: a China. Não à toa, mais da metade das contribuições chinesas de pessoal para operações de paz é destinada às missões no Sudão do Sul (UNMISS) e em Darfur (UNAMID), oeste do Sudão (UN Peacekeeping 2019). A atuação de Pequim na região pode até guardar relação com a necessidade de se portar como uma “potência responsável” (Richardson 2011), mas o empenho em garantir os investimentos feitos nos campos de exploração de petróleo – bem como a segurança dos próprios cidadãos chineses que lá trabalham – é uma variável elementar.

Apesar de manterem relações diplomáticas desde 1959, a história do envolvimento direto da República Popular da China no Sudão é bem mais recente. Basicamente, esse eixo bilateral só veio a ser fortalecido a partir dos anos 1990, influenciado, entre outros fatores: 1) pelo distanciamento e oposição dos Estados Unidos; 2) bem como pela mencionada demanda chinesa por petróleo. Portanto, como já resta claro e será abordado em maior profundidade ao longo do presente artigo, o fator energético desempenha papel fundamental na contextualização dessa grande narrativa.

Contexto histórico

Devido à sua localização estratégica, às margens do Mar Vermelho, próximo ao chifre da Somália (Golfo de Áden) e em conexão direta com a porção central do continente africano, historicamente o Sudão esteve sob o jugo de diversas empreitadas coloniais, como os impérios Otomano, Egípcio e Britânico. Ao tornar-se independente, em 1956, o país imediatamente herdou uma estrutura social fraturada e confusa, consequência de processos como: delimitação arbitrária de fronteiras por parte de potências ocidentais; interesses estrangeiros diversos; acomodação e influência do islamismo.

Nesse contexto, a trama pós-independência no Sudão foi permeada frequentemente por guerras civis. Já em 1969, um golpe militar alçou Jaafar Nimeiri ao poder. Dois anos depois, dissidentes comandados pelo Partido Comunista Sudanês também tentaram um golpe, não obtendo sucesso. Em 1972, um acordo assinado em Adis Abeba, capital da Etiópia, pôs fim à Primeira Guerra Civil.

Os Estados Unidos demonstraram interesse em estabelecer relações estáveis com o governo de Nimeiri a fim de obter garantias para a exploração petrolífera. Em troca, abria-se a perspectiva de os sudaneses receberem fluxos contínuos de dinheiro com a venda dos recursos naturais. Em 1974, a norte-americana Chevron assinou seu primeiro contrato com o governo sudanês. Cinco anos depois, a empresa realizava a primeira descoberta comercial. Nos anos 1980, contudo, tensões internas levaram a uma escalada dos conflitos no país africano (Patey 2014).

As hostilidades entre o governo e os grupos rebeldes testemunharam uma crescente quando, em junho de 1983, o presidente Nimeiri dissolveu a Assembleia Regional do Sul, dividindo essa parte do país em três regiões: Bahr el Ghazal, Equatória e Grande Nilo Superior. Em setembro do mesmo ano, a imposição da lei islâmica da sharia em todo o território foi a fagulha final para o renascimento dos rebeldes. Dois movimentos políticos protagonistas das disputas no sul podem ser citados como envolvidos diretos na guerra civil que se iniciou em 1983: o Ananya II, cuja maioria corresponde à etnia Nuer; e o Exército Popular de Libertação do Sudão (SPLA), de maioria Dinka. Esta divisão entre Nuer e Dinka, aliás, foi fortemente explorada pelo presidente Nimeiri.

Para além dos desdobramentos da segunda guerra civil, pode-se dizer que um acontecimento em especial foi determinante para o distanciamento definitivo dos Estados Unidos: o atentado às instalações da Chevron, em fevereiro de 1984, que deixou três funcionários mortos (um queniano, um britânico e um filipino). A partir dali, a Chevron – e os Estados Unidos, consequentemente – foi arrastada a contragosto para o centro de uma guerra civil recrudescente. Sem poder contar com o aporte financeiro decorrente do petróleo, a economia sudanesa foi paulatinamente definhando e os protestos populares tomaram as ruas da capital Cartum.

Em 1985, enquanto o governo tentava garantir a confiança de Washington e a permanência dos investimentos, o Sudão testemunhou mais um golpe de Estado. Jaafar Nimeiri foi deposto, buscando exílio no Egito, e em seu lugar assumiu o líder pró-Islã, Sadiq al-Mahdi. Pouco tempo depois, em 1989, outro golpe bem-sucedido ergueu ao poder a Frente Islâmica Nacional, que exigiu dos norte-americanos o reinício das operações nos campos de exploração, caso contrário seriam expulsos.

A aproximação chinesa

Foi exatamente na esteira desses acontecimentos que a China começou a desenhar uma estratégia de aproximação diplomática com o Sudão. Em 1986, já havia sido estabelecida uma comissão conjunta sino-sudanesa para assuntos relativos à economia e comércio (Jakobson & Zha, 2006). Com a Frente Islâmica no poder, o estreitamento desses laços ganhou ainda mais força. Em novembro de 1990, o novo líder sudanês, Omar al-Bashir, realizou uma visita oficial à China, onde se encontrou com o presidente Jiang Zemin. Em junho, Bashir havia estado na Malásia.

Esse tour asiático do líder sudanês tinha o objetivo de buscar alternativas para o desenvolvimento da indústria petrolífera doméstica. Isso porque, no início dos anos 1990, a Chevron vendeu suas concessões de exploração, abrindo espaço definitivo para a participação de outros players internacionais. Àquela altura, os Estados Unidos haviam imposto severas sanções econômicas contra o Sudão, o que terminou por facilitar ainda mais a entrada das estatais CNPC (China) e Petronas (Malásia) (Patey 2014).

Ao passo em que, aos poucos, os leilões de concessão iam trazendo novos investidores para o mercado de petróleo no Sudão, os líderes dos movimentos rebeldes do sul – cujo principal representante era John Garang – sentiam-se ameaçados pelo incremento no poder de combate que as rendas oriundas da exploração energética dariam ao governo da Frente Islâmica Nacional. Entre 1992 e 1993, focos de resistência da etnia Dinka foram sumariamente eliminados pelas Forças Armadas oficiais e outras milícias leais a Bashir. Foi com esse pano de fundo que a China iniciou, de fato, sua empreitada no setor petrolífero do Sudão.

O primeiro acordo de investimento oficial assinado pelos chineses aconteceu em 1995, por meio da CNPC, maior empresa nacional do setor, mas ainda uma desconhecida no mercado internacional àquela altura. No ano seguinte, a CNPC já havia se tornado a principal investidora no Sudão, com 40% dos ativos em um consórcio formado pela canadense Arakis (25%), pela Petronas (30%) e pela estatal sudanesa Sudapet (5%). O executivo Zhou Jiping, da estatal chinesa, foi nomeado o primeiro presidente da joint venture.

As tensões do governo sudanês – que havia assinado, em 1997, um acordo de paz com Riek Machar, ligado à etnia Nuer e desertor do SPLA – com os rebeldes do sul prosseguiram até 2005, quando se chegou a um acordo de paz definitivo que encerrou a segunda guerra civil, abrindo caminho para a independência do Sudão do Sul, consumada em 2011. Por meio das negociações, ficou acertada a criação de um governo semiautônomo no sul, baseado em Juba, hoje capital do país. Após a morte de Garang, no mesmo ano da assinatura do acordo, o principal representante dos sulistas passou a ser Salva Kiir, que logo tratou de desenhar uma aproximação com os chineses. Em julho de 2007 ele foi a Pequim e se reuniu com o então presidente Hu Jintao. Em setembro de 2008, a China abriu um consulado em Juba (Large, 2016).

Com a independência oficializada em 2011, formou-se no Sudão do Sul um governo que buscasse consolidar o pacto social entre as duas maiores etnias do novo país. Assim, os Dinkas elegeram Salva Kiir para presidente, enquanto os Nuers indicaram Riek Machar para o cargo de vice. Ao fim de 2013, contudo, acusações de que Machar planejava um golpe contra Kiir levaram à eclosão de uma nova guerra civil, agora restrita somente ao Sudão do Sul. Um acordo de cessar fogo foi assinado em junho de 2014, mas as hostilidades permaneceram.

Esforços internacionais concertados, liderados pela organização regional Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento (IGAD), levaram à assinatura de mais um acordo para encerrar os conflitos, em agosto de 2015. Em 2018, um novo acordo selou a paz entre Kiir e Marchar, levando à recondução deste último ao cargo de vice-presidente (Al Jazeera 2018).

Considerações finais

O envolvimento direto da China na exploração de petróleo na região do Vale do Nilo desde os anos 1990 e o seu considerável engajamento nas missões de paz da ONU no Sudão e Sudão do Sul demonstram a centralidade desses países dentro da política externa tocada por Pequim hodiernamente. Entre os atores extrarregionais envolvidos nas tensões em ambos os países, certamente a China é um dos mais interessados e atentos aos desdobramentos das situações domésticas. Basta notar que, em setembro de 2018, pouco menos de um ano antes de sua deposição, Omar al-Bashir foi recebido pessoalmente pelo presidente Xi Jinping (Xinhua 2018). No Sudão do Sul, a descoberta recente de novas reservas de petróleo feita pela CNPC deve intensificar ainda mais os laços bilaterais (Xinhua 2019).

Ademais, convém salientar que a porção oriental da África, principalmente às margens do Oceano Índico, é de fundamental importância para o projeto da Nova Rota da Seda. Espera-se, portanto, um engajamento cada vez mais assertivo da China nessa porção do globo. De certo, os Estados Unidos e as antigas potências coloniais europeias não ficarão inertes. A conferir os próximos desdobramentos.

Referências

Al Jazeera. 2018. “South Sudan president signs peace deal with rebel leader”, 12 de setembro de 2018. https://www.aljazeera.com/news/2018/09/south-sudan-president-signs-peace-deal-rebel-leader-180912185452831.html

Jakobson, Linda, e Zha, Daojiong. 2006. “China and the Worldwide Search for Oil Security”. Asia- Pacific Review, Volume 13, Issue 2.

Large, Daniel. 2016. “China and South Sudan’s Civil War, 2013-2015”. African Studies Quarterly, Vol. 16, No. 3-4.

Patey, Luke. 2014. “The New Kings of Crude: China, India, and the Global Struggle for Oil in Sudan and South Sudan”. London: C. Hurst & Co.

Richardson, Courtney J. 2011. “A Responsible Power? China and the UN Peacekeeping Regime”. International Peacekeeping, Vol.18, No.3, pp. 286-297.

United Nations High Commissioner for Refugees (UNHCR). 2019. “South Sudan emergency”. https://www.unhcr.org/south-sudan-emergency.html.

United Nations Peacekeeping. 2019. “China”. https://peacekeeping.un.org/en/china

Xinhua. 2018. “Xi meets Sudanese president”, 2 de setembro de 2018. http://www.xinhuanet.com/english/2018-09/02/c_137438661.htm

______, 2019. “South Sudan says to boost oil exploration after discovery of new well”, 22 de agosto de 2019. http://www.xinhuanet.com/english/2019-08/23/c_138329982.htm

Sobre o autor

Renan Holanda Montenegro é Doutor em Ciência Política e Pesquisador Associado do Instituto de Estudos da Ásia da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE.

Como citar este artigo

Cite this article as: Editoria Mundorama, "China, Sudão e Sudão do Sul: entre a paz e o petróleo, por Renan Holanda Montenegro," in Revista Mundorama, 18/09/2019, https://mundorama.net/2019/09/18/china-sudao-e-sudao-do-sul-entre-a-paz-e-o-petroleo-por-renan-holanda-montenegro/.

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