A importância do analista de relações internacionais na inserção internacional dos governos subnacionais brasileiros., por Rainne Feitoza do Nascimento e Henrique Sartori de Almeida Prado

 O final do século XX marca o início de uma nova configuração política global que permitiu a inserção de novos atores no cenário internacional e por sua vez, o surgimento dos acordos de integração econômica e foros de discussões internacionais. Nesse sentido, a emergência dos novos atores abriu novos caminhos das relações internacionais, sobretudo incentivados pela globalização e por uma crescente interdependência entre os mesmos. As organizações não governamentais, empresas transnacionais, organismos internacionais e organismos regionais de integração, passaram a ter cada vez mais importância no plano internacional e neste contexto, tornou-se mais favorável à atuação de governos subnacionais (departamentos, províncias, Estados-Membros, regiões, municípios, etc.) na promoção da paradiplomacia, principalmente através de atividades, tais como: os acordos de cooperação internacional descentralizada; a promoção comercial; as ações de visibilidade externa; e as atuações nos foros específicos inseridos nos processos de integração regional.

 A atuação internacional desses governos tem por objetivo destacar suas vantagens econômicas, seu posicionamento geográfico, suas oportunidades para novos negócios e investimentos, ganhos para o comércio internacional e outros mais. Contudo, uma discussão premente sobre a eficiência desta ação, passa pela formação, profissionalização e capacitação dos seus respectivos agentes e servidores, apresentando-se esta, como uma necessidade imediata para gerir com competência os fluxos de cooperação internacional em seus respectivos territórios (CORRÊA, 2010, p. 239), bem como os acordos, as agendas políticas internas e externas e a participação desses governos em foros internacionais.

 Deslocando-se do eixo tradicional da diplomacia, os governos subnacionais, buscam cada vez mais seu espaço no mundo, e com isso, aumentam a demanda por mão de obra especializada para o trato dessas questões. Nesse sentido, cresce a busca por profissionais qualificados que possuam um perfil dinâmico, flexível, capaz de dialogar neste espaço e que consigam observar uma necessidade interna, além de buscar instrumentos internacionais para atendê-la (MIYAMOTO, 1999, p. 96).

 Uma vez que a demanda por qualificação profissional por parte de outros atores internacionais é crescente – incluindo os governos subnacionais – fez-se necessário também, o repensar da construção do conhecimento de Relações Internacionais, tal como fora concebido. Esse repensar, como propõe Boaventura de Souza Santos (2003), significou uma ruptura com paradigmas tradicionais e inseriu novas escolas e pensamentos, auxiliando o desenvolvimento das Relações Internacionais como disciplina e formação acadêmica. Dessa forma, incluiu novos fenômenos tanto em aspectos político-econômicos, como também abarcou vários outros temas complexos, transformando o campo de estudo e formação mais inclusivo e marcante em matéria de informação.

 O primeiro ponto marcante na formação do analista de Relações Internacionais é a inter/multidisciplinaridade. Por constituir-se em um espaço onde outras ciências se encontram, faz com que o profissional forjado nesta base consiga manejar áreas que outros profissionais, de formação distinta e tradicional não conseguem.

 O segundo ponto marcante na formação é a versatilidade (LESSA, 2006). Por ter tido acesso a diversas informações e vivenciado fenômenos complexos e atuais, este profissional pode perceber oportunidades em um meio onde as transformações são constantes. Sua versatilidade no trabalho poderá ser absorvida tanto no setor privado como no público. No setor privado, cada vez mais se sente a demanda por profissionais da área. Processos de recrutamento de jovens profissionais, programas de trainees nas áreas de serviços, indústria e comércio, têm buscado profissionais com este perfil, principalmente para desenvolver habilidades e competências nas áreas de planejamento, vendas e estratégia.  Por sua vez, o setor público já consolidado em áreas como a diplomacia ou assessorias internacionais em órgãos federais, ainda apresenta um forte apelo para o profissional com formação em Relações Internacionais. Contudo, os órgãos de atuação internacional de governos subnacionais brasileiros se apresentam também como uma excelente oportunidade de alavancar uma nova carreira, por exemplo.

 De fato, analisar o comportamento estratégico dos governos subnacionais nas relações internacionais tem ocupado boa parte da produção acadêmica no Brasil e paulatinamente, crescido na importância da agenda da política externa nacional. (CNM, 2011; KLEIMAN, 2009; SALOMÓN, 2012). Assim, o tema demanda investimentos, estudos e a presença de profissionais aptos para identificarem oportunidades e riscos. Neste contexto, os analistas de Relações Internacionais contribuem para a atuação dos governos subnacionais em vista da crescente aproximação entre questões globais e realidades locais.

 Ao se envolverem com o plano internacional, os governos subnacionais tendem a construir uma sólida rede de conhecimento e contatos visando atender suas demandas, servindo para o desenvolvimento em áreas que vão desde a gestão compartilhada de recursos naturais (água, bacias hidrográficas, solo, biodiversidade…), como políticas de qualificação de mão de obra, educação, saúde, mobilidade urbana, incentivo ao empreendedorismo privado e aprimoramento da gestão pública, transformando assim, a prática dos agentes dos entes federativos brasileiros. Para tanto, o analista de Relações Internacionais se apresenta como um importante agente na transformação econômica, social e política para o aprimoramento da atuação desses governos em âmbito global.

Referências
BARRETO, Maria Inês; MARIANO, Marcelo Passini. Questão subnacional e integração regional: o caso do Mercosul. In: VIGEVANI, Tullo; WANDERLEY, Luiz Eduardo; BARRETO, M. Inês e MARIANO, P. (orgs). (2004). A dimensão subnacional e as relações internacionais. São Paulo: EDUC; UNESP/EDUSC, p.21-48.
CASTELO BRANCO, Álvaro Chagas. (2009). Paradiplomacia & entes não-centrais no cenário internacional. Curitiba: Juruá.
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS MUNICÍPIOS (CNM). (2011). As Áreas Internacionais dos Municípios Brasileiros: Observatório da Cooperação Descentralizada – Etapa 1 / Confederação Nacional dos Municípios – Brasília: CNM.
CORRÊA, Márcio Lopes. (2010). Prática comentada da cooperação internacional: entre a hegemonia e a busca de autonomia. Brasília.
KLEIMAN, Alberto. (2009). A cooperação internacional federativa como política de Estado. In: RODRIGUES, Gilberto Marcos Antonio; XAVIER, Marcos; ROMÃO, Wagner de Melo. (Orgs.) Cidades em Relações Internacionais: análises e experiências brasileiras. São Paulo: DESATINO.
LESSA, Antônio Carlos. (2006). A intensificação do debate acadêmico e social sobre relações internacionais e política exterior no Brasil. In: OLIVEIRA, Henrique Altemani de; LESSA, Antônio Carlos. (orgs.) Relações Internacionais do Brasil: temas e agendas, v.2. São Paulo: SARAIVA.
MIYAMOTO, Shiguenoli. (1999). “O estudo das Relações Internacionais no Brasil: o Estado da Arte.” In: Revista de Sociologia e Política. Curitiba, n.12, jun., pp.83-98, 1999.
PRADO, Henrique Sartori de Almeida. (2010). Inserção dos atores subnacionais no processo de integração regional: o caso do Mercosul. Dissertação de Mestrado. Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Goiás. Brasil.
SALOMÓN, Mónica. (2012). A dimensão subnacional da política externa brasileira: determinantes, conteúdos e perspectivas. In: PINHEIRO, Letícia; MILANI, Carlos R.S. (Orgs.) Política externa brasileira: as práticas da política e a política das práticas. Rio de Janeiro: EDITORA FGV.
SANTOS, Boaventura de Souza. (2003). Um discurso sobre as ciências. São Paulo: Cortez.
VIGEVANI, Tullo; WANDERLEY, Luiz Eduardo. (Org). (2004). A dimensão subnacional e as relações internacionais. São Paulo: EDUC; Fundação Editora da UNESP; Bauru, SP: EDUSC.

Rainne Feitoza do Nascimento é graduanda em Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD.  Integrante do Projeto de Pesquisa: A cooperação descentralizada e a paradiplomacia no ambiente da integração regional: a atuação dos governos subnacionais em busca do desenvolvimento. É bolsista do Programa Institucional de Voluntários de Iniciação Científica da mesma instituição – PIVIC/UFGD (rainne_1000@hotmail.com).

Henrique Sartori de Almeida Prado é professor do Curso de Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD (henriquesartori@ufgd.edu.br).

1 Comentário em A importância do analista de relações internacionais na inserção internacional dos governos subnacionais brasileiros., por Rainne Feitoza do Nascimento e Henrique Sartori de Almeida Prado

  1. O artigo é muito interessante e importante. Ele nos alerta para algo que já é bem praticado em outros países desenvolvidos. A “diplomacia” em esferas menores, no sentido federativo e municipal tem mesmo o condão de catapultar o desenvolvimento do Brasil em vários sentidos.
    Abraços

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