Ron Paul: as primárias republicanas e a política externa americana, por Carlos Góes e Henrique Barbosa

Ron Paul, deputado texano que ocupa ininterruptamente uma cadeira no Congresso dos EUA desde 1997, é pré-candidato à indicação do Partido Republicano embora tenha poucas chances de vir a se tornar o candidato. Libertário convicto que propaga as ideias da Escola Austríaca de Economia (de Menger, Schumpter, Hayek, von Mises e Rothbard), Paul é um republicano atípico. Opôs-se às guerras no Iraque e Afeganistão, denunciou o PATRIOT Act como um ataque às liberdades civis, votou contrariamente aos bail-outs de instituições financeiras, é contrário ao uso de tortura como método de combate ao terrorismo, defende a legalização das drogas e o casamento homoafetivo. Ainda assim, o deputado do Texas é a peça determinante para a formação da plataforma política republicana para 2012. Paul é reconhecido como “godfather intelectual” do Tea Party e sua ideias nas esferas econômica e de política exterior passaram a ser amplamente defendidas por seus contendores, mesmo que de modo mais moderado.

Domesticamente, tornou-se lugar comum entre os pré-candidatos republicanos criticar a atuação do Fed – banco central americano – e propor a limitação da capacidade da instituição em praticar políticas inflacionárias, bem como a necessidade de realizar cortes drásticos nos gastos governamentais para controlar o crescimento exponencial da dívida pública americana, que entre 2007 e 2011 passou de 37% a 75% do PIB dos EUA. As propostas práticas a essas questões são, a longo prazo, a abolição do Fed e o restabelecimento de um sistema de moedas atreladas a commodities e, no curto prazo, o corte de 1 trilhão de dólares no orçamento do governo federal.

As ideias de Paul parecem encontrar eco no eleitorado americano. O congressista empatou em números de delegados com Mitt Romney e Rick Santorum nas primárias de Iowa e teve um sólido segundo lugar no estado de New Hampshire.  Slogans como “End the Fed” passaram a se proliferar pela Internet e um recente estudo demonstra que Paul é o político com o maior número referências positivas nas redes sociais entre todos os concorrentes à Presidência – inclusive Barack Obama (POLITICO, 2011).  Uma parte significante desse apoio, e um dos motivos pelos quais Paul tem recebido tanta atenção não só dentro dos Estados Unidos como também no resto do mundo, é a posição dele em relação à política externa norte-americana, reverberando em outro slogan que se tornou viral na rede mundial de computadores: “bring our troops home”.

A proposta de Paul para a política externa norte-americana resume-se nas ideias jeffersonianas de “paz, comércio e amizade com todas as nações”. Propõem-se, portanto, um não-intervencionismo estrito, opondo-se fortemente a guerras de agressão e a alianças com outros países que possam levar os Estados Unidos a uma guerra. Os altos níveis de aprovação das ideias do deputado Paul em vários segmentos da população provavelmente significam uma manifestação da insatisfação da população americana com o modo como a política externa vem sendo conduzida.

O não-intervencionismo, porém, não é ideia de Paul. Ainda que esteja fora de prática há algum tempo, ele faz parte do histórico político dos Estados Unidos e, principalmente, do discurso dos founding fathers da república americana, aos quais Paul faz referências constantes. Ele não deve ser confundido com isolacionismo – que significaria um afastamento, por parte dos EUA, das questões diplomáticas ou econômicas mundiais. A proposta é o extremo oposto: conduzir relações amigáveis, principalmente no que tange a relações comerciais, com o maior número possível de países, exceto aqueles que declararem guerra aos Estados Unidos.

“Eliminar as bases militares [no exterior] e deixar de lidar com outras nações com ameaças e violência não é isolacionismo. É o contrário. Abrir-nos para amizade, comércio honesto e diplomacia é a política externa de paz e prosperidade. É a única política externa que não vai nos levar à bancarrota no curto prazo, como estão fazendo nossas ações presentes. Eu compartilho da decepção do povo americano na retórica de política externa do governo atual. A parte triste é que nossa política externa terá de mudar no futuro, como mudou a de Roma, quando todas as escusas manobras monetárias e orçamentárias estiverem exaustadas” (Paul, 2009)

Paul enfatiza a diferença entre gastos com defesa nacional e gastos com militarismo. O deputado argumenta que a mentalidade de “polícia do mundo” cria um fardo excessivo à economia dos EUA, pois ao manter tropas no estrangeiro, além de fomentar o anti-americanismo, os EUA acabariam por subsidiar os gastos militares de diversos países. Essa constatação é coerente com a teoria institucionalista proposta por Keohane (1984) ou Ikenberry (2001), que afirmam que o hegemon da ordem institucional usualmente provê bens públicos para os demais atores, arcando, portanto com os custos de free-riding. Contrastando-a com o atual cenário da política externa americana, uma política não-intervencionista significaria não só a retirada completa das operações americanas no Iraque e no Afeganistão, como também o levantamento de todas as sanções comerciais inclusive a países como Irã e Coreia do Norte, e o término completo do embargo econômico e político dos EUA a Cuba e a progressiva diminuição do número de bases americanas no exterior.

Como dito no começo deste ensaio, muito provavelmente Paul não será eleito ao posto executivo máximo dos Estados Unidos – mas isso não significa que as ideias que o colocam em voga no contexto de campanha desaparecerão da sociedade – elas continuam não só através de pesquisas de opinião e protestos, mas também através da eleição de deputados (como o próprio Paul), senadores e da formação de grupos de pressão. Isso se torna ainda mais relevante no caso dos Estados Unidos por conta da grande influência do Congresso em termos de política externa naquele país.

            Para além disso, Paul terá papel essencial para a construção da agenda republicana para as próximas eleições. Dentre todos os quatro pré-candidatos do partido, o único que adere a ideias similares àquelas propostas pelos neo-conservadores da administração Bush é Rick Santorum, que advoga a necessidade de um imediato ataque preventivo ao Irã. Mitt Romney e Newt Gingrich têm uma retórica forte frente aos perigos de um Irã nuclear, mas não fazem compromissos – dizem que as decisões devem ser feitas com base na opinão do Estado-Maior americano. De todo modo, os 20%-25% de eleitores jovens, a maioria dos quais não é filiada ao Partido Republicano, que apoiam Ron Paul, são essenciais para as eleições gerais – e o eventual candidato terá de adaptar seu discurso para atrair a base libertária contrária às guerras.

A consequência direta da aplicação de um não-intervencionismo à política norte-americana é clara: ela aponta ao progressivo declínio da vontade, na própria população do país e de parte de sua elite política, de manter a altos custos aquilo que se chama de Pax Americana, ou mais especificamente, a disposição de utilizar-se da hegemonia militar e econômica norte-americana para intervir em assuntos envolvendo outros países que não representam uma ameaça direta e inquestionável à segurança nacional dos Estados Unidos.

Apesar de parecer uma ideia distante, a política norte-americana em relação à Líbia representou um sinal bastante concreto nessa direção: o presidente Obama recusou-se veementemente a assumir a dianteira das operações ou a sugestões de envio de tropas. Em junho de 2011 o secretário de defesa Robert Gates afirmou que os EUA não estão mais dispostos a subsidiar o aparato de defesa continental europeu por meio da OTAN. Além disso, a proposta do plano de retirada de tropas do Iraque e Afeganistão foi extremamente popular na campanha presidencial de 2008.  Logo, vê-se que o eleitorado americano, ainda que não na radicalidade proposta por Ron Paul, sinaliza aprovação para direção geral das diretrizes que ele propõe.

O não-intervencionismo como princípio de política externa fica ainda mais em voga em tempos de crise econômica: é fácil imaginar que um grande volume de gastos no exterior cause descontentamento na população, o que leva a demandas de que tais gastos sejam ou cortados ou melhor investidos em reformas para aumentar a eficiência da economia americana. A crise da dívida de julho de 2011, que contribuiu de um modo drástico para a discussão da dívida pública americana, colocou em xeque também a eficácia dos enormes gastos para as forças armadas.

Existem, portanto, dois caminhos a serem seguidos pelos Estados Unidos: o primeiro contradiz a tendência apresentada nesse ensaio. Não é impossível que algum evento na política internacional ou mesmo interna dos Estados Unidos convença a população norte-americana de que ativismo internacional ainda seria importante. Este, porém, é um caso improvável – as consequências do maior ativismo americano após o atentado de onze de setembro, como o PATRIOT Act, duas guerras demasiadamente duradouras, entre outras – são hoje quase universalmente reconhecidas como custosas e como tendo tido poucos resultados.

O outro caminho é o da progressiva internalização, pelos tomadores de decisão americanos, da tendência ao não-intervencionismo da população do país. Nesse caso, não apenas os Estados Unidos se manteriam fora de guerras e outros incidentes conflituosos no meio internacional como também relutariam muito mais a arcarem com a maior parte dos custos – financeiros, logísticos, políticos – de alguns organismos internacionais. Essa nova relação dos Estados Unidos com situações de conflito internacional e com os organismos internacionais deverá necessariamente levar a uma reorganização das distribuições de poder e a uma reinterpretação de normas e costumes políticos, o que pode incluir a pressão por mais responsabilidade por parte dos maiores países emergentes, como Brasil, Índia e China.
Muito provavelmente o deputado Ron Paul se verá frustrado em seu intento de ser presidente dos Estados Unidos e até mesmo em ver uma grande parte das suas ideias norteando a formulação de política norte-americana. Apesar disso, a sua popularidade eleitoral para as eleições de 2012 é manifestação da tomada de um rumo em política externa que certamente conterá algumas de suas principais ideias. O personagem mais importante das eleições presidenciais americanas muito provavelmente sequer participará das eleições.

Bibliografia

Henrique Barbosa é bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET/REL) e bacharelando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília. (henriquefb@gmail.com)

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