Um balanço da política externa contemporânea norte-americana para a América Latina, por Pedro Ernesto Fagundes

Apesar das relações externas entre os Estados Unidos e os países da América Latina ser o tema central desse trabalho, é importante salientar que a perseguição aos comunistas também ocorreu em âmbito domestico.Internamente a preocupação em conter a influência do Partido Comunista nos EUA levou a uma verdadeira “caça as bruxas” durante a década de 1950.

O instrumento utilizado foi uma comissão do senado chefiada pelo obscuro senador Joseph McCarthy que investigou e, principalmente, levantou suspeitas sobre a lealdade de inúmeras pessoas aos “verdadeiros valores americanos”. Essa histeria anticomunista teve como saldo final a ruína da carreira de muitos intelectuais, funcionários públicos e artistas dos EUA, além disso, outros menos afortunados acabaram nas prisões. O Macartismo ainda foi o responsável pela execução do casal Julios e Ethel Rosenberg. (KARNAL, 2007).

A caça aos vermelhos não se restringiu a “faxina interna” promovida com o Macartismo. Isso porque, a política externa dos EUA na Europa passou a concentrar seus esforços para neutralizar a possível ampliação de governos pró-União Soviética. Efetivamente, a primeira ação nesse sentido foi a intervenção da política interna da Grécia no sentido de impedir que os comunistas (líderes da resistência) assumissem a direção do país.

No plano econômico, a manobra mais significativa de Washington foi a criação do Plano Marshall. A proposta cumpriria duas finalidades, a primeira seria evitar a falência e desestruturação das bases da economia do Velho continente. Em segundo lugar, criar regimes políticos baseados do liberalismo e, portanto, aliados aos Estados Unidos na luta contra os comunistas.

A preocupação dos americanos acabou sendo ampliada, principalmente, a partir do final da década de 1940, sobretudo, depois da Revolução Chinesa. O movimento revolucionário na China obrigou os EUA a estreitarem seus laços diplomáticos e econômicos com o Japão. Ainda na Ásia a política externa norte-americano sofreu outra baixa com a confirmação do surgimento da Coréia do Norte. Dessa forma, os regimes chineses e coreanos transformaram o anticomunismo em uma “cruzada” de dimensões planetárias, inclusive, na América Latina.

Depois da Segunda Guerra a política externa dos EUA foi orientada pela despreocupação em relação aos países da América Latina. Contudo, sem deixar de monitorar todos os governos da região, no sentido de frear possíveis regimes que promovessem reformas sociais ou mudanças na relação de subserviência aos americanos. (KARNAL, 2007).

Como exemplo dessa fase, podemos citar as intervenções na Guatemala durante o governo do presidente Jacobo Albernz, em 1954, que viu seu projeto de reforma agrária ser utilizado como justificativa para mais um golpe de Estado naquele país. No plano econômico o governo de Dwight Eisenhower (1953-1961) limitou-se a manter alguns programas de ajuda financeira que haviam sido instituídos ainda durante o conflito mundial. O chamado “Programa de ajuda militar” representou um prolongamento das iniciativas que foram criadas na década de 1940. (FICO, 2008).

A chegada de John F. Kennedy (1961-1963) não trouxe mudanças substâncias da relação entre os americanos do norte e seus vizinhos latino-americanos. Contudo, essa posição sofreu uma brusca mudança depois do fracasso da tentativa de invasão da Baía dos Porcos, em 1961. Esse fato serviu para alertar os norte-americanos: a ameaça comunista estava já havia chegado ao seu “quintal”.

Contudo, esses episódios contribuíram para estreitar as relações entre o governo de Castro e a URSS, fato que tornou possível o acordo que prévia a instalação de mísseis nucleares soviéticos na ilha. Em 1962, a chamada “Crise dos Mísseis” deixou o planeta a beira de um conflito nuclear entre as duas superpotências.

O definitivo alinhamento do governo de Havana com Moscou foi determinante para criar argumentos que justificaram a expulsão de Cuba da OEA. Posteriormente, foi aprovado um bloqueio mais amplo ao país caribenho que também visava atingir a economia cubana. Temendo que movimentos semelhantes acontecessem no continente, o governo dos EUA tomou iniciativas estabelecendo obstáculos as organizações comunistas na América Latina.

Nesse período foi resgatada a tese da defesa coletiva que havia sido elaborada durante a administração Eisenhower. Essa proposta estava centrada em duas frentes: a militar e a ajuda humanitária. No terreno militar foram estabelecidas dezenas de acordos entra as forças armadas norte-americanas e os países latinos que visavam aparelhar e treinar as forças de segurança da região para combater possíveis “novas Cubas”. (FICO, 2008)

Por outro lado, também foi estabelecida a chamada “Aliança para o progresso”, que pretendia ser o mais ambicioso projeto de colaboração dos Estados Unidos com a América Latina, desde o fim da Segunda Guerra. Lançada em março de 1961, esse projeto previa ações de incentivo ao desenvolvimento econômico na região. Outro ponto da “Aliança para o progresso” estabelecia a criação de mecanismos de intervenção humanitária, tais como a presença de “missionários” norte-americanos nas áreas mais carentes do continente. A idéia de Washington era dar maior ênfase nas ações sociais e colocar em segundo plano o caráter ideológico do acordo.

O trágico assassinato de Kennedy permitiu que seu vice, Lyndon B. Johnson (1963-1969), tomasse acento na Casa Branca. O governo Johnson deu segmento a “Aliança para o progresso”. Na contenção da ameaça comunista o governo Johnson teve papel decisivo nos golpes militares do Brasil e da República Dominicana. Durante esse período foi estabelecida a “Doutrina Mann”, que consistia em apoiar e oferecer ajuda econômica e militar a qualquer país, independente do regime político “desde que se mantivessem anticomunistas”. (FICO, 2008).

A “Doutrina Mann” continuou norteando as manobras norte-americanas durante a administração de Richard Nixon (1969-1974). Haja vista, que durante a década de 1970 foram realizados golpes militares no Chile (1973), Uruguai (1974) e Argentina (1976), todos com o total apoio do governo norte-americano. O caso exemplar foi a participação decisiva dos EUA na derrubada do socialista Salvador Allende da presidência do Chile.

A partir dos primeiros anos da década de 1980 , durante o mandato ex-ator Ronald Reagan , o governo norte-americano procurou retomar a política de contenção do comunismo na América Latina. A “Doutrina Reagan” teve como finalidade apoiar todas as iniciativas que pretendiam atacar os governos identificados como aliados ou simpatizantes dos comunistas.

As práticas comuns durante as décadas anteriores marcaram essa nova fase da Guerra Fria, haja vista que na América Latina países como Guatemala, El Salvador e a ilha de Granada sofreram as conseqüências da retomada do clima de “caça aos vermelhos”. (KARNAL, 2007).

No caso da Nicarágua a intervenção ocorreu de forma indireta. Através da ação dos “Contras” – guerrilha anticomunista treinada e equipada pelos EUA. O governo da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) foi vítima de uma série de ações de sabotagem, ataques de esquadrões da morte e bloqueio de áreas do país. Os “contras” e a pressão do governo Reagan contribuíram para a derrota da FSNL nas eleições presidenciais de 1990.

O desgaste do período em que estiveram no poder, principalmente, a campanha desenvolvida pelos “Contra” serviu para abalar as bases dos sandinistas. Depois de enfrentar vários problemas internos, a FSLN voltou a ocupar a presidência da república apenas em 2007.

A desintegração da URSS e o fim da Guerra Fria fizeram com que a América Latina voltasse ao segundo plano na visão geopolítica de Washington. A própria vitória nas urnas de lideres alinhados com setores da esquerda, tais como Lula da Silva (Brasil), Tabare Vazquez (Urugaui), Hugo Chavez (Venezuela), Evo Morales e mais recentemente, Daniel Ortega (Nicarágua) indicam que a política externa dos EUA, durante os últimos governos, tem dado pouca atenção as questões relativas a América Latina. Contudo, a recente inércia do governo Obama em relação a crise política em Honduras indica que os norte-americanos continuam conhecendo muito pouco a realidade do continente.

 

REFERÊNCIAS:

  • FICO, CARLOS. O Grande irmão: da Operação Brother Sam aos anos de chumbo. O governo dos Estados Unidos e a ditadura militar brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
  • KARNAL, Leandro et al. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. 2 ed. São Paulo: Contexto, 2007.

 

Pedro Ernesto Fagundes é Professor da Universidade Federal do Espírito Santo – UFES (pefagundes@uol.com.br).

1 Comentário em Um balanço da política externa contemporânea norte-americana para a América Latina, por Pedro Ernesto Fagundes

  1. È assim que funciona um Império, montado em governantes ladros, arrancando governantes sérios, usando a corrupção como arma ou armando grupos servis, não importando a escória que irá comandar aquele povo, contanto que não o contrarie. assim foi e assim será, do sul dos EUA, até o sul das Américas. Ficou tudo dominado e controlado aqui, desde o pós-guerra até o fim da guerra-fria. O Império americano atuava ao mesmo tempo em todo o Orbe, Europa, Ásia e África, e depois que perdeu seu contraponto, a URSS, ficou mais aguerrida. Apartir da criação da ONU, depois de cometer fiascos como na Coréia e no Vietnan, resolveu por uma ponta-de-lança, na figura de Israel, no OM, para vigiar e garantir o contr}ole de energia da região. Nesse entreato meteu-se em mais dois fiascos, Iraque e Afeganistão. O Império começou a balançar. Está como muito esmêro afiando o aprendiz de Imperador, filho dileto, Israel, mais real que o rei, de uma crueldade insana, se acoplando sôbre a Palestina e expurgando maciçamento os palestinos. Com o rótulo de a única Democracia na região, com religião ímpar, êsse corpo extranho ali fincado, um vizinho que alguém jamais deseja, galo de briga PO tá ali cocoricando e será promovido em breve para se meter na primeira guerra de verdade, contra o Irã. Mas que má idéia. O irmão do Norte, para não se expor a mais um fiasco, figurará apenasmente como provedor e torcedor do carijó. Veja-se as alianças previsíveis para o Irã: hamas e Hezbollah, representando o Líbano e com auxílio de Palestinos, mais Síria, possìvelmente a Turquia. Serão benvidas a Rússia e a China, por razões que só lhe dizem respeito. Se acoisa apertar, entram diretamente, contra, EUA, Reino Unido, Canadá, Austrália, França, Índia e mais alguns americanófilos. Outros se agregarão, contra a vontade, de um lado e de outro, e estará montado o palco para a grande finale. Diria Saramago: Dei três pancadas sêcas na porta e deparei com a carapaça da miséria. O destino está chegando, no mêio dessa multidão. A 3ª e última guerra mundial, o apocalipse, a divisão de bodes e ovelhas. Tudo a trôco de uma ganânca(ganhos) desabrida de americanos e israelos. Que não se permitam o uso nuclear de armas. Amém.

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