Blair, Ano 10, por Cristina Soreanu Pecequilo

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p align=”justify”>Quase um ano antes de completar sua primeira década no cargo de Primeiro Ministro do Reino Unido, Tony Blair anunciou antecipadamente que irá deixar seu posto no governo e como líder do Partido Trabalhista neste ano de 2007. Sem definir datas e resistindo às pressões do partido da opinião pública, que pediam sua renúncia imediata, Blair manteve-se no poder, indicando que encerraria seu ciclo sem precipitações. Desde então, administra crises e matiza opções, buscando recuperar parte de seu legado.
Logo que ascendeu ao poder em 1997, Tony Blair foi apontado, ao lado de Bill Clinton e de Fernando Henrique Cardoso (FHC) como um dos líderes de uma nova geração de políticos que buscava a reforma de antigas práticas de poder. Esta reforma, conhecida como Terceira Via, prometia uma atualização da Social Democracia, e das visões de esquerda do socialismo/comunismo que esgotaram-se com a URSS e o fim da Guerra Fria, assim como uma humanização do neoliberalismo de direita remanescente da Era Margaret Thatcher de 1979 a 1990 (que tivera sequência na gestão John Major, de 1990 a 1997).
O objetivo era trazer um caráter social a este neoliberalismo que promovera um processo maciço de privatizações, diminuição do Estado e corte nos programas sociais e um foco mais pragmático às iniciativas de esquerda e centro-esquerda, desprovendo-as de seu assistencialismo. Apesar de seu discurso com ênfase no equilíbrio, a Terceira Via também trazia embutida uma retórica que atribuía a sua agenda o caráter de nova esquerda à luz da desorganização deste campo pós-1989. Externamente, a premissa igualmente era a de superação do passado: ao invés da bipolaridade, apresentava-se um discurso cosmopolita centrado na globalização, que pregava uma mescla de universalização de valores e direitos, com respeito às diferenças de cada sociedade, de reconciliação e, no caso específico da Reino Unido, de identidade renovada, somando as prioridades atlânticas às da União Européia, prometendo-se menos ambiguidade frente à integração.
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p align=”justify”>Por seus elementos paradoxais compartilhados entre direita/esquerda, a Terceira Via passou a ser criticada por cada uma destas visões. Enquanto a direita a acusava de esquerdismo, a esquerda a percebia como discurso para justificar o neoliberalismo, emergindo nesta brecha novos movimentos: um renascimento neoconservador e dos partidos de esquerda na expressão dos Fóruns Sociais Mundiais.
No caso do Reino Unido, Blair foi capaz de 1997 a 2001 de administrar estas oscilações e levar o país a um fase de crescimento e expansão econômica, que se prorroga até hoje, mas sem resolver todos os problemas estruturais e sociais britânicos. Mesmo assim, deu continuidade à Terceira Via com a Stakeholder Society (que poderia ser apresentada como uma sociedade de redistribuição de riqueza), consolidando-a como projeto de longo prazo. Como Clinton e o Partido Democrata (e em menor grau FHC e o PSDB, Lula e o PT), e analisado por Anthony King em artigo para a Revista Newsweek International (disponível em www.msnbc.com), Blair deu uma nova identidade ao Partido Trabalhista, realizando a captura do centro. King denomina esta política pragmática, considerando que a reinvenção consistiu na eliminação dos conceitos de esquerda, direita e centro. Para King, contudo, esta perda de divisões esconde, atrás de um suposto consenso, a ausência de debate. Como resultado, vácuo de pensamento estratégico e planejamento e renovação de extremismos podem ser apontados.
Externamente, neste período, processo similar aconteceu na política externa, dividindo-se com mais intensidade entre o Atlântico e a Europa, ainda que reais avanços no aprofundamento da integração não tenham sido realizados (o país manteve-se distante de mecanismos supranacionais como o euro e teve posições reticentes nas discussões da Constituição, mantendo sua opção pelo alargamento). Mesmo assim, maior disposição pró-Europa pode ser percebida. Blair apoiou a expansão da OTAN em 1999 (e a futura de 2002) e a Guerra do Kosovo, mantendo sua identidade. No campo misto interno/externo, que se relaciona ao intercâmbio da Inglaterra com os demais membros do Reino Unido, a participação de Blair foi essencial na garantia de maior autonomia a países como Irlanda e Escócia, investindo na interdependência e no processo de paz irlandês. Nos organismos multilaterais e fóruns internacionais, predominava o discurso da Terceira Via
A “reinvenção” de Blair entrou em um espiral descendente a partir de Setembro de 2001, quando as opções externas então existentes foram substituídas pelo alinhamento quase que incondicional à Guerra ao Terror de George W. Bush. Representante do movimento neoconservador nos EUA, Bush é um dos resultados da perda de identidade de esquerda/direita dos anos 1990, que é a recuperação extrema dos ideais de uma determinada corrente (que pode ser definida, até, como fundamentalista ) para chegar ao poder, e antes de 11/09 já possuía políticas unilaterais e agressivas. Para Bush e seu staff os atentados representaram uma válvula de escape para, sob a roupagem de uma nova guerra, reforçar sua agenda neocon. Cabe indagar o porquê de Blair ter aderido tão fortemente a este caminho. E, aqui, o que mais parece chamar a atenção é o motivo pelo qual um líder, que parecia estar garantindo uma expressão própria, optou pelo alinhamento com uma figura controversa como Bush.
Apesar de recusar o título de parceiro menor de Bush, de aliado automático e subordinado (ou “poodle de Bush”, capa da Newsweek International), a identidade política de Blair e seu legado foram comprometidos por suas escolhas- nas últimas eleições em 2005, Blair levou seu Partido à terceira vitória consecutiva, mas perdeu espaços para os conservadores (hoje liderados por David Cameron) e os liberais (tendo à frente Charles Kennedy). Ainda que continue valorizando seu papel doméstico, a opinião pública é abertamente contrária às iniciativas frente ao terrorismo, ao Afeganistão ao Oriente Médio e à aliança Bush-Blair.
Em particular, é o caso do Iraque e a Guerra de 2003 que causou maiores danos: o encaminhamento do conflito via ONU em choque com o unilateralismo de Bush, a adesão à Coalizão da Vontade como único membro importante (o que leva a compartilhar custos pelo fracasso da invasão e transição), distância da comunidade internacional e, em especial, das potências européias, França, Alemanha e Rússia, as provas descobertas como manipuladas, as tentativas de explicar este “erro”, apontando os “sucessos” da operação (promoção da democracia como Blair sustenta em Foreign Affairs, Jan/Feb 2007).
O porquê de Blair ter assumido este risco pode ser resumido em algumas hipóteses: a) busca de fortalecimento de sua posição e do Reino Unido no núcleo do poder mundial, recuperando a aliança atlântica depois de um relativo distanciamento; b) como resultado do fortalecimento, reposicionamento nas discussões da UE em posição de liderança, colocando em segundo plano França e Alemanha; c) recuperação da posição estratégica na Eurásia, com um simultâneo decréscimo da influência russa (permitindo avanços políticos-militares-diplomáticose nos setores econômicos de exploração de gás, petróleo e demais recursos); d) crença de que EUA e Reino Unido, e seus respectivos líderes, compartilhariam tarefas na administração da Guerra ao Terror, projetando a presença de Blair internacionalmente; e) subestimação dos riscos da invasão no Iraque e da unidade neoconservadora norte-americana que permitiria a divisão de liderança citada no item anterior; f) superestimação da capacidade anglo-americana de conduzir a Guerra ao Terror, gerar estabilidade e implantar novos regimes e valores.
Tais hipóteses são todas válidas para Blair, assim como podem ser adaptadas a Bush. Estas questões referem-se a um debate de longo prazo sobre o perfil da inserção e projeção de poder de hegemonias que decaem (que poderá ser enfrentado pelos EUA) e no Reino Unido é travado desde 1945 pela polarização entre relações atlânticasXeuropéias. Os dois vértices são opções de reposicionamento em busca de um novo papel que possa aumentar o poder na fase pós-liderança.
A opção de Blair, a despeito das inovações domésticas, foi a do atlanticismo alinhado como forma de resolver este dilema, sem sucesso, e atualmente o Primeiro Ministro tenta minimizar suas perdas, de seu partido (e de possíveis sucessores como Gordon Brown) e do país. Dentre estas medidas destacam-se o anúncio de diminuição das tropas britânicas no Iraque, a revisão da posição no Afeganistão (como membro da OTAN), o questionamento das táticas frente ao terror, reaproximação à UE, revalorização das OIGs e fóruns, buscando reativar uma agenda de cooperação e ajuda ao Terceiro Mundo (ver artigo já citado da Foreign Affairs).
Nos discursos de Blair prega-se para o futuro uma agenda que talvez não possa mais ser reconstruída ou atualizada em seus moldes. Não só o mundo mudou, como também o homem que a propôs, e os preços das escolhas políticas são altos: vários acertos nem sempre compensam certos erros. Da Terceira Via à Bagdá, Tony Blair certamente entrará para a história, mas, talvez, não do jeito que gostaria.

Cristina Soreanu Pecequilo é Professora de Relações Internacionais Universidade Estadual Paulista – UNESP (Campus Marília), e Pesquisadora Associada ao Núcleo de Estratégia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (crispece@gmail.com).

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