Os Efeitos da Crise no Cenário Político Europeu, por Pedro Henrique de Souza Netto


Em setembro de 2008, com o anúncio da falência do Lehman Brothers, iniciou-se um período de incertezas na economia global. Na esteira de nova crise financeira, e contando com fragilidade econômica prévia, nações da Europa Ocidental passaram a enfrentar instabilidade e incerteza não apenas em seus sistemas financeiros, mas também em suas sociedades.

Em meio às incertezas trazidas pela crise econômica, países como França, Grécia, Reino Unido e Irlanda passaram por períodos eleitorais que levaram à substituição de partidos que há muito os governavam. Notou-se, nesses países, a ascensão ao poder de agremiações de perfil ideológico oposto ao dos partidos recém-saídos do governo. Esses acontecimentos geram inquietação e levam à indagação: estaria a população europeia mudando suas perspectivas ideológicas devido à crise?

Na República da Irlanda, o Fianna Fáil, de centro-esquerda, deu lugar ao direitista Fine Gael, após 14 anos de governo. Em Portugal, Espanha e Reino Unido semelhante movimento foi sentido, com partidos ligados à social-democracia sendo substituídos no poder por agremiações conservadoras. Não se mostra aparente, entretanto, uma marcha à direita em toda a Europa. Na França, onde a direita estava no poder há 17 anos, assistiu-se à relevante vitória de François Hollande, do Partido Socialista, nas eleições presidenciais. A Eslováquia passou por situação semelhante. Há ainda casos excepcionais, como a Itália, onde um gabinete de direita foi substituído por um governo formado por tecnocratas. A Grécia, por sua vez, precisou enfrentar três eleições, sendo uma vencida pela esquerda, uma vencida por pequena maioria da direita e a terceira vencida por coligação da centro-direita e da centro-esquerda.

Em diferente situação encontra-se a Estônia. A república báltica, que tem previsto para 2012 o maior crescimento de PIB de toda a Zona do Euro (1,6%, ante 0,7% da Alemanha e -3,3% de Portugal, segundo a Comissão Europeia), enfrentou eleições legislativas em 2011. Nessas eleições, o primeiro-ministro Andrus Ansip foi reconduzido ao cargo, que ocupa desde 2005. Do outro lado do mar Báltico, a Finlândia, que projeta crescimento de 0,8% para o ano corrente, conduziu nas eleições de 2011 ao cargo de primeiro-ministro seu até então ministro das finanças, mostrando confiança no trabalho econômico desenvolvido e votando pela continuidade de suas políticas financeiras. Na Alemanha, tida por muitos como carro-chefe da economia europeia, o mesmo pôde ser notado. Apesar de ver seu partido derrotado nas recentes eleições regionais da Renânia do Norte-Westfália (historicamente um bastião do oposicionista Partido Social-Democrata), Angela Merkel conta com crescentes índices de popularidade entre o eleitorado alemão como um todo, mantendo-se à frente de líderes oposicionistas. A primeira-ministra, vale lembrar, triunfou nas eleições federais de 2009, quando a Crise Econômica Mundial já mostrava vigor também na Europa.

Os processos eleitorais de diversas nações mantém um ponto em comum: houve a substituição dos governos, independentemente de sua ideologia, sempre que a crise econômica influenciou a vida cotidiana. Itália e Reino Unido enfrentam graves medidas de austeridade. Irlanda, Portugal e Espanha chegaram a pedir auxílio financeiro a agentes internacionais, ferindo o orgulho nacional de suas populações. A França, que conta com melhor situação econômica, passou por greves gerais contra medidas de austeridade defendidas por seu então governo. Por outro lado, Estônia, Alemanha e Finlândia, que mantêm situação econômica estável, sustentam seus governos.

Com isso, torna-se evidente a intrínseca conexão entre a substituição ou manutenção dos gabinetes e as situações econômicas nacionais. Ao perceberem que seus governos não tinham condições de manter a privilegiada situação econômica que experimentavam há anos, as populações europeias não tardaram a, em sua primeira oportunidade, mudar o comando de seus países. Observou-se, portanto, não a mudança do padrão ideológico da população, mas a mudança pragmática de gabinetes, tendo como objetivo principal a melhoria da situação econômica nacional. Essa atitude não é, de forma alguma, um fenômeno unicamente europeu, tendo sido observado também nos Estados Unidos, nas eleições de 1932 e 1980, e no Brasil, nas eleições de 2002. Mesmo nações com regimes ditatoriais (e, portanto, sem alternância legal de poder) viram seus governos caírem graças à situação econômica nacional, como ocorrido no Império Russo, em 1917, nos Estados do Leste Europeu e na Argentina, ao final da década de 1980.

Essa situação exibe, ainda, a grande relevância de temas econômicos nas próximas eleições europeias. Temas sociais, como imigração e legalização da maconha, apesar de ainda repetidos em campanhas eleitorais, não serão capazes de sustentar gabinetes. Os resultados das próximas votações – e o futuro dos governos recém-eleitos – estão fortemente atrelados à evolução das situações econômicas nacionais. Tal realidade já vem ocorrendo na Grécia. Em 2009, com a população já sentindo o peso da crise financeira internacional, o gabinete conservador do Nova Democracia foi substituído pelo liberal PASOK. Menos de três anos depois, com a deterioração da situação econômica, foram necessárias duas eleições, voltando ao poder o mesmo Nova Democracia.

A estabilidade e manutenção dos novos governos, portanto, depende em muito do impacto que a crise desempenhará em seus eleitorados. Considerando as otimistas previsões da Comissão Europeia, já a partir de meados de 2012 haverá alguma recuperação econômica, que ganhará ainda mais vigor em 2013. Caso essa situação venha a se confirmar, os atuais governos europeus apresentam grandes chances de se manterem no poder nos próximos anos, havendo, inclusive, chances de que alguns dos atuais chefes de governo sejam taxados de heróis nacionais. Resta saber, entretanto, se, de fato, as previsões da Comissão estão certas, ou se seriam apenas uma tentativa de acalmar os temerosos mercados financeiros europeus.

Outra opinião é a do Banco Central Holandês, que defende que a Zona do Euro enfrentará ainda longo período de recessão, a exemplo da década perdida japonesa dos anos 1990. Caso essa previsão, defendida também por diversos analistas independentes, venha a se concretizar, difícil situação política se verá na Europa nos próximos anos. Os governos atuais, bem como os anteriores, cairão ao não mostrar uma saída à crise. Como grande parte dos sistemas partidários europeus é controlada por dois grandes partidos de centro (um de centro-direita e outro, de centro-esquerda), essas opções em breve estarão esgotadas. Restará ao eleitorado escolher se dará nova chance aos grandes partidos ou se, a exemplo do que ocorreu na Alemanha nas eleições de 1930 e aconteceu nas últimas eleições presidenciais francesas e legislativas gregas, os partidos extremistas ganharão apoio popular para provar suas políticas.

Pedro Henrique de Souza Netto é graduando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais– PET – IREL/UnB. (pedro.hsnetto@gmail.com)

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