A guerra civil na Síria e o envolvimento das grandes potências: uma nova Guerra Fria? por Arnaldo José da Luz


Na década de 1970 a União Soviética estabeleceu um acordo com a Síria para ter uma base marítima no porto Tartus. A intenção dos soviéticos era não precisar se preocupar caso entrassem em qualquer conflito bélico com um país da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Nos anos 1980, por meio de um tratado de cooperação, a União Soviética nomeia a Síria como representante do país no Oriente Médio. Essa aliança permitiu ao governo sírio receber sofisticado armamento soviético e uma forte oposição às tropas estadunidenses na região.

No ano 2000 Bashar al-Assad, de orientação socialista, assume o poder na Síria, após a morte do pai, Hafez al-Assad, que ficou no poder por 29 anos. Em 2002 os EUA incluem a Síria no chamado “eixo do mal”, acusando o país árabe de estar tentando obter armas de destruição em massa. Dois anos mais tarde vieram às sanções econômicas impostas pelos EUA e aliados acusando a Síria de apoio ao terrorismo.

Como vários outros países do oriente médio, a Síria sofria com retrações econômicas e altos índices de desemprego que chegava a um quarto da população. A situação socioeconômica, como a deterioração do padrão de vida, a redução do apoio do governo aos pobres como consequência da adaptação da economia para um mercado aberto, a erosão dos subsídios para bens e agricultura, sem uma indústria estável e índices de desemprego altos entre jovens instigaram o insatisfação pública.

A conjuntura dos direitos humanos na Síria também era considerada lamentosa, conquistando diversas críticas de organizações estrangeiras. O país ficou sob estado de exceção de 1963 até 2011, o que dava as forças de segurança a autoridade de prender qualquer um que quisessem sem declarar um motivo.

Movimentos pró-democracia liderados, na maioria das vezes, pela Irmandade Muçulmana, foram mal recepcionados pelo governo de Assad que refreava qualquer manifestação de oposição. Todos os partidos políticos foram banidos da Síria, fazendo do partido do governo o único a concorrer nas eleições.

Então, impulsionados pela onda de manifestações no mundo árabe, a população síria também foi às ruas pedir a saída de seu líder, Bashar al-Assad. Não muito diferente dos outros países, aonde ocorreu à chamada Primavera Árabe, na Síria as revoltas foram iniciadas como uma mobilização social e midiática, exigindo maior liberdade de imprensa, direitos humanos e uma nova legislação.

Desde o início de 2011, já se vão um ano e meio dos conflitos que levaram a Síria a uma guerra civil, aonde os rebeldes enfrentam as forças de Assad. As estimativas apontam para cerca de dezenove mil mortos até então.

Se, de um lado, os EUA e países da Europa Ocidental sugerem a intervenção no país, de outro, Rússia e China vetam na ONU tal interferência.

Enquanto os conflitos se acirram na Síria, os países ficam divididos: a Turquia, Catar e Arábia Saudita são acusados de armar os oposicionistas de Assad e o Irã e a Rússia de apoiar o governo sírio. Nos últimos dias, a Turquia foi acusada de enviar mais de trinta e dois milhões de dólares para auxiliar os rebeldes.

A Grã-Bretanha, França, Alemanha e os EUA propuseram na resolução vetada àimplementação do plano de paz do enviado da ONU à Síria, Kofi Annan. O plano autoriza o conselho a tomar ações que vão desde as sanções econômicas e diplomáticas até a intervenção militar.

Por mais de uma vez, a Rússia e a China usaram o veto para bloquear uma resolução do Conselho de Segurança contra o governo sírio. Uma agência de notícias síria disse que navios de guerra russos devem chegar a águas territoriais da Síria, indicando ser uma mensagem de Moscou para o Ocidente contra qualquer intervenção. Os países do BRICS e o IBSA (incluindo o Brasil) estão apoiando a ação. Assad informou que há uma conspiração estrangeira contra seu governo liderada pelos Estados Unidos.

A Rússia é uma das maiores fornecedoras de armas ao governo sírio e mantém importantes investimentos no país. Talvez isso sirva como uma das maiores justificativas para a oposição russa ao veto do Conselho de Segurança da ONU.

Os rebeldes, contrários ao governo, têm obtido respeitáveis avanços nas batalhas. Importantes cidades sírias, como Aleppo, a segunda maior cidade do país, se encontram divididas entre as forças leais a Assad e os insurgentes. A oposição comemora vitória a cada bairro conquistado no país.

Parece ser certa a saída do presidente sírio Bashar al-Assad do poder. A maior inquietação de todos é quanto tempo ainda vai durar a guerra civil no país e quantas vidas mais custarão. O que se sabe é que enquanto as grandes potências ficarem divididas, não muito diferente dos tempos da Guerra Fria, mais demorado será o fim dos conflitos na Síria. Não obstante, dentre os opositores do regime de Assad existem relevantes diferenças políticas e étnico-religiosas.

Mesmo após os términos dos conflitos, e a exemplo de outros países envolvidos nos movimentos da Primavera Árabe, existirá a disputa de qual grupo ficará no poder, uma vez que existem na Síria alguns principais grupos como os sunitas, alauitas, drusos e até mesmo cristãos e judeus.

Referências

“Rússia e China vetam sanções contra Síria na ONU e propõem prorrogar missão no país”. Disponível em: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2012/07/19/russia-e-china-vetam-resolucao-de-sancoes-da-onu-contra-siria.htm

“Egípcios vão às urnas, mas repressão continua na Síria”. Disponível em: http://educacao.uol.com.br/atualidades/primavera-arabe-egipcios-vao-as-urnas-mas-repressao-continua-na-siria.jhtm

 

Arnaldo José da Luz émestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná – UFPR (arnaldo506@gmail.com).

Uma resposta para “A guerra civil na Síria e o envolvimento das grandes potências: uma nova Guerra Fria? por Arnaldo José da Luz”

  1. Pedro menezes 16/10/2012 às 5:56 pm

    ótimo texto!

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