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A última batalha da Guerra Fria, por José Flávio Sombra Saraiva


O fim da Guerra Fria está datado na história das relações internacionais. Eclipse da União Soviética, fim da bipolaridade estratégica, associados ao declínio gradual dos modelos de socialismo real, compuseram a conjuntura dos fins dos anos 1980 e início da década dos 1990. Nascia para uns a nova ordem, unipolar, que durou pouco. Emergiu, com a ascensão da Ásia e do Pacífico, uma ordem internacional sincrética e multipolar, associada à elevação da China e de alguns novos atores estatais do Sul. Ela impõe desafios para os cálculos das diplomacias das duas últimas décadas.

Mas, como quase tudo na história, uma nova estrutura não se estabelece por inteiro no tempo inédito. O novo é obrigado a conviver com velhas estruturas que se movem na lentidão do tempo longo. Parece ser esse o enquadramento que permite perceber que elementos da Guerra Fria seguem na nova ordem, embora não operem na mesma dinâmica do tempo anterior.

Há algo de velho e antigo no Oriente Médio. Uma permanência que vem da Guerra Fria é a fratura no sistema de Estado da região, no qual as duas velhas antigas superpotências ainda pesam muito no desenho daquela região. A Síria é o caso dos dias atuais.

Uma capital de 5 mil anos, Damasco, move-se tensa nesses dias de guerra civil. Há um ar de fim de mundo, embora não seja essa a única mensagem de mais uma quadra trágica dos sírios. Será russa ou norte-americana a Damasco no pós-guerra civil? Governada por oligarquias tiranas estáveis, mesmo na decadência, vi Damasco, há mais de uma década. Emergiu a suspeita de que, em seu desatino da maturidade, anunciava-se o crepúsculo. Morre nesses dias a velha Damasco, uma das melhores cozinhas do mundo, para que o mundo renasça. Predominavam nos cafés de Damasco ou de Homs, outra importante aglomeração citadina da Síria, o forte e o cristalino, a recordar que são antigos, bem como altivos, dotados de amor próprio e autonomia decisória. Em Damasco, não há shoppings nem McDonald’s.

Na Síria, vi o quanto temos deles entre nós. Somos todos meio libaneses, meio sírios, na boa confusão que conforma em parte o que queremos ser, nos desejos do Brasil sincrético, latino-americano, africano, ibérico, europeu da rapa e árabe. O Brasil recebeu a todos com o abraço a quem chega.

Sabe-se que hoje temos em nosso país contingente de cerca de 20 milhões de pessoas percebidas como descendentes de sírios e libaneses. Pareceria que a guerra que se trava entre os sírios, a última da Guerra Fria, tocaria corações neste lado do mundo. O silêncio é a resposta. O Brasil é o Brasil, não é a Síria. A diplomacia do Brasil está mais para o afastamento do tema. É difícil se meter nesse vespeiro.

Eles, daquelas províncias antigas de Damasco e Homs, não conversam muito entre si. Há divisões indecifráveis. Há um vale de tomates gigantes, na fronteira do Líbano, com os maiores vermelhos do mundo, esplendorosos, mas disputados à força, sempre divididos entre razões econômicas e políticas. Os sírios são velhos demais para concordar com o triviral, mesmo no que tange à capilaridade política do regime autoritário.

Visitei, ainda nos tardios anos 1990, a paz armada no Vale do Bekaa. Eram os tempos dos controles do Hezbolah no Líbano, bem como do domínio sírio, em tempo curto de outra guerra fratricida. Tudo muito conforme os sentidos das guerras entre primos do Oriente Médio. Era clima de Guerra Fria.

O centro do mundo está no derradeiro capítulo da última batalha da Guerra Fria. Sim, é essa uma batalha tardia e talvez última da Guerra Fria. Os russos, ao aproveitarem a base política de sua última plataforma em região cara para eles, querem Damasco como lugar da conservação do seu poder anacrônico. É essa a instrução de Moscou.

Do outro lado, para os norte-americanos, emerge uma nova oportunidade para que se instalem McDonald’s em Damasco. Poder econômico, político e estratégico juntos, essa já será uma novidade do novo regime que se desenha. Se isso vier a acontecer, desaparece a velha Damasco, mas se eleva uma nova Damasco, encerrando seus 5 mil anos de Síria, para ser mais uma cidade de ketchup! E a Guerra Fria poderá ser finalmente sepultada. Mas ainda não há data marcada para o sepultamento.

José Flávio Sombra Saraiva é PhD pela Universidade de Birmingham, Inglaterra, pesquisador 1 do CNPq e professor titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – UnB (jfsombrasaraiva@gmail.com).

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