Uma Possibilidade de Contramedida dos Países Menores Diante das Vantagens Tecnológicas dos Países Maiores: Esconderijos Subterrâneos e a Proteção de Operações Sensíveis de Ataques Aéreos e de Coleta de Informações, por Bernardo Wahl G. de Araújo Jorge


Uma questão interessante, para se pensar no contexto de todas as reflexões que estão sendo produzidas sobre as implicações internacionais do programa nuclear iraniano, é a seguinte: como um país em desenvolvimento, incluindo o próprio Brasil, pode proteger suas operações mais sensíveis da investigação curiosa – ou, para não usar o eufemismo, bisbilhotagem – por parte de outros países mais desenvolvidos? Esse tipo de prática existe, e não pode ser ignorada.

Na hipótese da utilização da força militar, não necessariamente amparada pelo direito internacional, para “atrasar” o progresso do Irã no campo da energia atômica, um assunto central que tem aparecido nos debates, tanto na imprensa quanto em meios mais especializados, é a consideração sobre a dificuldade em destruir, por meio de ataques aéreos, estabelecimentos como a instalação nuclear subterrânea na cidade de Qom, que fica 156km a sudoeste de Teerã. Mas a “problemática” colocada pelas instalações subterrâneas não é uma novidade nas relações internacionais.

Pelo menos é isso que mostram muitos documentos disponibilizados na internet no dia 23 de março deste ano de 2012 pelo Arquivo de Segurança Nacional dos Estados Unidos (The National Security Archive – que será chamado aqui pela sigla “TNSA”). O link para os documentos divulgados pelo “TNSA” está disponível no final deste artigo. Trata-se de um instituto de pesquisa e biblioteca independente sediado na Universidade George Washington, instalada na capital dos Estados Unidos. O “TNSA” seleciona e publica documentos desclassificados obtidos através da lei de liberdade de informação (Freedom of Information Act – FOIA).

Os arquivos mencionados mostram que Qom, no Irã, é apenas a última de um amplo conjunto de instalações subterrâneas que, por décadas, foram um desafio de alta prioridade para os Estados Unidos e países aliados em termos de coleta e análise de inteligência, assim como em termos de planejamento militar. Os documentos divulgados pelo “TNSA” descrevem em detalhes os programas e agências do governo norte-americano para identificar e avaliar estruturas subterrâneas de outros países desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Registros internos dos EUA mostram que há no mundo mais de 10.000 instalações deste tipo, muitas delas em territórios considerados “hostis” por Washington, sendo que muitas destas instalações, presume-se, objetivam esconder ou proteger atividades e equipamento militar letal.

Observando o fenômeno em perspectiva, em agosto de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, os alemães, diante dos ataques aéreos dos aliados, decidiram realocar a produção do foguete V-2 em uma instalação subterrânea perto do distrito de Nordhausen. No final de 1944, a inteligência britânica relatava que a instalação alemã estava produzindo cerca de 30 foguetes por dia. Enquanto isso, o Estado-Maior britânico procurava saber a viabilidade de uma campanha de bombardeamento para cessar ou denificar seriamente a produção do V-2.

Já durante a Guerra Fria, havia basicamente dois tipos de instalações subterrâneas, as quais eram emblemáticas no caso daquela “guerra fria” se tornar uma “guerra quente”: silos de mísseis e “bunkers” para proteção de lideranças. Apesar da Guerra Fria ter se encerrado com a queda do muro de Berlim, em 1989, e com a desintegração da União Soviética, em 1991, a preocupação da comunidade de inteligência dos Estados Unidos em torno de instalações subterrâneas cresceu ao longo das duas últimas décadas (nos anos 1990 e 2000), particularmente quando se trata do que os EUA chamam de “Estados-pária” (Rogue States em inglês), os quais descobriram que ocultar e proteger operações sensíveis, instalando-as abaixo da terra, continua sendo uma resposta efetiva às vantagens tecnológicas, em termos de inteligência e de armas, desfrutadas pelos países mais desenvolvidos [grifo nosso].

Em 1999, uma avaliação sobre as possíveis ameaças dos vinte anos seguintes, feita pela Agência de Inteligência de Defesa (DIA, na sigla em inglês, órgão subordinado ao Pentágono) dos Estados Unidos, afirmou que a proliferação de instalações subtarrâneas naqueles anos emergiu como um dos mais difíceis desafios com os quais se defrontava a comunidade de inteligência dos EUA, sendo que, nos anos vindouros, tornar-se-ia mais do que um problema.

A mais significativa indicação da preocupação estadunidense com instalações subterrâneas foi a criação, em 1997, do Centro de Análise de Instalação Subterrânea (Underground Facility Analysis Center – UFAC), órgão que, embora subordinado à DIA, também conta com funcionários de outras agências de inteligência, como a Agência Central de Inteligência (Central Intelligence Agency – CIA), a Agência de Segurança Nacional (National Security Agency – NSA), o Centro Conjunto de Operações de Inteligência do Comando Estratégico (STRATCOM) dos EUA etc. No início, o UFAC possuia 20 funcionários. Em 2009 este número subiu para 240.

Tais instalações subterrâneas, que geram preocupações nas agências de inteligência dos Estados Unidos, destinam-se a diversos objetivos. Um deles é ocultação e transporte, sendo o exemplo mais proeminente neste caso os túneis construidos sob a zona desmilitarizada entre a Coréia do Norte e a Coréia do Sul, que visam a permitir às tropas norte-coreanas se infiltrarem no Sul. Também há cerca de doze níveis de túneis abaixo da cidade de Moscou, os quais guardam um sistema de metrô reservado para autoridades de alta patente. Além da ocultação e transporte, um segundo tipo de instalação subterrânea é empregada especificamente para o armazenamento de combustível e de comida.

A construção de “bunkers” subterrâneos para a proteção de lideranças durante a Guerra Fria era parte da estratégia nuclear tanto da União Soviética quanto dos Estados Unidos. Mas a Rússia não é o único país cujas instalações subterrâneas interessavam e interessam à comunidade de inteligência dos EUA. Em junho de 1989, no meio das manifestações na Praça Tiananmen (ou Praça da Paz Celestial, na China), segundo o release do “TNSA” que dá base a este artigo, o jornal The New York Times citou um funcionário da inteligência que afirmara que todas as lideranças chinesas protegeram-se em seus “bunkers” durante os protestos. Em 2003, no contexto da Guerra no Iraque, as forças armadas estadunidenses encontraram vastos complexos subterrâneos em Bagdá, inclusive um complexo de doze quartos construido dentro de uma caverna. A Líbia também mantinha “bunkers” subterrâneos, projetados para proteger sua liderança, mais especificamente a família de Muamar Kadafi.

Além de ter investido bastante em instalações subterrâneas para proteção da sua liderança, a União Soviética, e agora Rússia, também destinou recursos consideráveis para a construção de instalações subterrâneas com outros fins: a preservação de suas competências de comando, controle e comunicações. Cuba, ademais, também construiu “bunkers” para a manutenção de suas capacidades de comando, controle e comunicações.

A prática de construir fábricas subterrâneas para a produção de armas pode ser uma precaução para garantir a produção de armas em tempos de guerra, como a Alemanha fez com a produção do foguete V-2 na Segunda Guerra Mundial. Tal prática também pode ser uma medida adotada em tempos de paz para limitar a coleta de inteligência sobre o que está sendo produzido, como, por exemplo, armas biológicas sendo fabricadas em violação a um tratado internacional. A construção de uma fábrica subterrânea mascara as suas atividades e aumenta suas chances de sobrevivência no caso de ataques militares.

Segundo o “documento 38” divulgado pelo “TNSA”, em março de 2011 o diretor da Agência de Inteligência de Defesa, Tenente-General Ronald Burgess, falou a um comitê do congresso norte-americano que o Irã possui importantes instalações subterrâneas em Qom e em Natanz. No final de 2011, o Irã aparentemente mudou a produção do hexafluoreto de urânio para a Planta de Enriquecimento de Combustível de Fordo, perto de Qom, preparando-se para iniciar operações de enriquecimento. Depois, em janeiro de 2012, diplomatas confirmaram um relatório sobre o Irã ter começado a enriquecer urânio em Fordo: cerca de 348 centrífugas estavam em operação, em duas cascatas.

Além da produção e estoque de armas, instalações subterrâneas também podem ser usadas para a proteção de sítios operacionais de armas – isto é, locais que abrigam aviões, mísseis ou equipamento de comunicação que estão prontos para uso imediato. Não está claro exatamente quantas instalações pelo mundo afora podem ser classificadas em cada uma das categorias mencionadas, pelo menos não em um nível que conta apenas com informações não classificadas. Entretanto, o “documento 23” divulgado pelo “TNSA”, um relatório de 2001 destinado ao Congresso dos Estados Unidos, apontou que a comunidade de inteligência suspeitava que devam existir cerca de 10.000 instalações subterrâneas, e a tendência era que aumentassem na década seguinte.

 Segundo o “TNSA”, está claro que nenhuma outra nação, nem mesmo Israel, pode alcançar as capacidades dos EUA para a coleta e a análise de dados sobre instalações subterrâneas estrangeiras. Também está claro que nenhum outro governo possui uma capacidade equivalente para desenvolver armas para destruir este tipo de instalação. Apesar da relação próxima dos Estados Unidos com Israel na área de inteligência, é improvável que Washington tenha compartilhado com Tel-Aviv toda a inteligência que tem  sobre instalações como Qom.

Os documentos divulgados pelo “TNSA” estão disponíveis neste link:

<http://www.gwu.edu/~nsarchiv/NSAEBB/NSAEBB372/>.

Bernardo Wahl G. de Araújo Jorge é Mestre em Relações Internacionais e Professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP e Faculdades Metropolitanas Unidas  - FMU-SP (bernardowahl@gmail.com)

2 Respostas para “Uma Possibilidade de Contramedida dos Países Menores Diante das Vantagens Tecnológicas dos Países Maiores: Esconderijos Subterrâneos e a Proteção de Operações Sensíveis de Ataques Aéreos e de Coleta de Informações, por Bernardo Wahl G. de Araújo Jorge”

  1. Olá, Laurent.
    Obrigado pelo teu comentário.
    A questão que você apontou é um bom tema para ser investigado.
    Mas vamos examinar um exemplo. A Marinha do Brasil, no Centro Experimental Aramar, desenvolve pesquisa sobre o enriquecimento de urânio. Ate onde eu sei, as instalações em Aramar ficam na superfície (talvez até seja possível você ver com o Google Earth). E podemos nos perguntar: isso significa que o Brasil não protege instalações sensíveis? Não necessariamente. O Brasil pode estar enviando um sinal para a comunidade internacional, de quem não tem nada para esconder, em uma atitude de transferência e construção de confiança.
    Espero outras questões!
    Saudações
    Bernardo

  2. E o Brasil, será que tb conta com esse tipo de refúgio? Se sim, em que medida e com que objetivos?

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