Na teoria de Mearsheimer o objetivo central dos Estados é maximizar sua parcela do poder mundial, é ser o hegemon, a única potência global. Não há potências status quo no sistema internacional, uma vez que raramente as grandes potências estão satisfeitas com a distribuição de poder. Elas usarão a força para alterar o equilíbrio de poder a seu favor se considerarem que isso possa ser feito a um preço razoável. Mas como nenhum Estado é capaz de atingir a hegemonia global, o mundo está condenado à competição perpétua entre as grandes potências. Já para Fiori, o universo está em expansão contínua, onde todos os Estados que lutam pelo poder global – em particular, as grandes potências – estão sempre criando, ao mesmo tempo, ordem e desordem, expansão e crise, paz e guerra.
Por mais de dois séculos o Ocidente, primeiro na forma de Europa e depois de EUA, dominou o mundo. Agora estamos testemunhando uma mudança histórica que, embora ainda na sua infância, está, provavelmente, destinada a transformar o mundo. O mundo desenvolvido está rapidamente sendo reformulado em termos de tamanho econômico pelo mundo em desenvolvimento, sendo a China seu maior e mais importante representante.
Nas últimas três décadas a China lançou um complexo modelo de desenvolvimento que não apenas alterou sua realidade interna, como também teve um grande impacto nas relações econômicas e geopolíticas internacionais. Para muitos, o sucesso da China teria sido o resultado de uma decisiva virada para a economia de mercado no final dos anos 1970 por meio da modernização tecnológica. Outros argumentam que o sucesso chinês dependeu inteiramente do apoio americano arquitetado pela estratégia Nixon-Kissinger nos anos 1970 e reiterado pelo governo Reagan. A abertura ao mercado americano e os investimentos de suas corporações teriam sido a base do desenvolvimento chinês liderado pelo mercado.
Para Fiori, é do leste Asiático que vem a maior parte da pressão competitiva e expansiva que se faz sentir em todos os cantos do mundo nesse início do século XXI. É na Ásia que está em curso a disputa mais explícita pela hegemonia regional, envolvendo as suas velhas potências imperiais, a China, o Japão e a Coreia do Sul, além da Rússia, mas também os EUA e a Índia. A grande incógnita a respeito das relações da Ásia com o resto do mundo segue sendo a expansão do poder político e econômico da China. O expansionismo chinês fora da Ásia tem sido quase estritamente diplomático e econômico mas dentro da Ásia, o projeto chinês já é claramente hegemônico e competitivo, também do ponto de vista militar. Para Mearsheimer, uma China rica será um Estado agressivo e determinado a conquistar uma hegemonia regional porque a melhor maneira para qualquer Estado maximizar as suas perspectivas de sobrevivência é se tornar hegemônico na sua região do mundo. Embora concorde com o autor sobre o desejo da China se transformar em um hegemon regional, para Fiori, Mearsheimer não entende que a China necessita dos EUA e que os EUA também precisam da concorrência chinesa para poder expandir seu próprio poder econômico e militar. Não há possiblidade lógica de que uma potência ganhadora possa seguir acumulando poder e riqueza sem contar com novos competidores e adversários, econômicos e militares. Por isso ela própria promove, sempre que necessário, o desenvolvimento econômico dos seus futuros concorrentes, como aconteceu com a Inglaterra em relação à Alemanha, aos EUA e ao Japão, no século XIX, e voltou a acontecer com os EUA, no século XX, em relação à Alemanha, ao Japão , à Coreia do Sul, à Taiwan e, mais recentemente, com a própria China.
O fato é que vários eventos e gestos diplomáticos duros por parte da China têm colocado sua estratégia de “ascensão pacífica” dos anos 1990 um tanto no passado. Em 2009, cinco navios chineses realizaram manobras muito próximas a um navio desarmado dos EUA, Impeccable – projetado para deter ameaças submarinas à marinha americana – em águas internacionais ao sul da costa da China. No Fórum Regional da ASEAN em Julho de 2010, o Ministro do Exterior da China, Yang Jiechi, advertiu os Estados do sudeste asiático a não se coordenarem com “poderes de fora” no que tangia a questões de conflitos territoriais com Beijing. No mesmo ano, Beijing exigiu pedido de desculpas e compensações de Tóquio depois do Japão deter – e logo em seguida liberar, sob pressão Chinesa – o capitão de um barco de pesca chinês, cujo barco havia colidido com um navio da guarda costeira japonesa. Também em 2010, os oficiais chineses criticaram duas vezes os EUA e a Coreia do Sul por seus exercícios navais em águas internacionais perto da China. O ano de 2010 também foi marcado por tensões bilaterais entre EUA e China como a questão de hacking da internet chinesa ou restrições da media, venda de armas dos EUA para Taiwan e o encontro do Presidente dos EUA Barack Obama com o Dalai Lama.
Seguindo a lógica do Realismo Ofensivo, podemos afirmar que China tem buscado maximizar seu poder, diminuindo o gap de poder que tem com a Rússia e o Japão na região, de tal forma que nenhum outro Estado possa ameaçá-la. Ela busca a hegemonia regional, a fim de poder ditar o comportamento aceitável a Estados vizinhos, da mesma forma que os EUA fazem nas Américas – talvez uma Doutrina Monroe chinesa? Porém, os EUA estão cientes desses movimentos da China. Aqui também podemos situar a China na teoria fioriana que afirma que toda grande potência está obrigada a seguir expandindo o seu poder, mesmo que seja em períodos de paz, e se possível, até o limite do monopólio absoluto e global. A venda de armas para Taiwan, o estímulo americano ao envolvimento do Japão em assuntos de segurança na Ásia e a expansão do Comando do Pacífico (a Otan asiática) traduzem, no plano militar, a postura americana de contenção da China.
É fato que a China possui uma presença regional e global cada vez mais forte, expressa nos fóruns multilaterais, regimes globais e laços bilaterais. As suas taxas de câmbio desvalorizadas prejudicam economias em todo o mundo e, apesar dos protestos, Beijing continua a fazer o que quer. A recente posição de credora também tem dado à China maior poder no sistema internacional. A Europa em crise se volta para o país asiático na esperança de que Beijing coloque recursos em um fundo de resgate europeu. Se isso acontecer, pode ser que a China venha a ter um pouco mais de influência no mundo das finanças e comércio. Na América Latina a China emerge como uma fonte alternativa de financiamento para o desenvolvimento de países da região em áreas como infraestrutura e energia.
Mas dificilmente China e EUA vão eleger a guerra para dirimir suas diferenças na região. A despeito de questões político-militares, como visto acima, as relações produtivas entre China e EUA são antigas e hoje podem ser consideradas estruturais, de difícil mudança em pouco tempo. O grande fluxo de comércio e a presença de empresas de capital de origem americana produzindo na China demonstram as fortes ligações entre os dois países. Por outro lado, a potência estabelecida, os EUA, não vai permitir que a potência emergente, a China, faça o que bem entender e conquiste a hegemonia regional de forma pacífica e sem contestações. Muito provavelmente assistiremos ainda vários conflitos e crises entre os dois, com os EUA tentando conter a ascensão da China e a China buscando modificar a distribuição de poder atual a seu favor.
Fontes
FIORI, José L (2004). Formação, Expansão e Limites do Poder Global. IN: FIORI, J.L. O Poder Americano. Petrópolis: Editora Vozes Ltda, pp. 11-66.
JACQUES, Martin (2009). When China Rules the World. Nova York: The Penguin Press.
MEARSHEIMER, John J. (2001). The Tragedy of Great Power Politics. Nova York: WW Norton & Company.
MEDEIROS, Carlos A. (2008). Desenvolvimento econômico e ascensão nacional: rupturas e transições na Rússia e na China. IN: FIORI, J.L et all. O Mito do Colapso do Poder Americano. Rio de Janeiro: Editora Record, pp. 173-277.
Maria Rita Vital Paganini Cintra é Mestranda em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. (maria.paganini@uol.com.br)

23/02/2012 

A China transforma seus ganhos econômicos em benefícios para o povo, e esses ganhos são conquistados através da forte presença econômica no mundo todo por meio da bem estudada e trabalhada internacionalização de suas empresas e agressiva concorrência comercial com os EUA principalmente.
Os desafios sociais chineses vão sendo aos poucos solucionados por meio do seu crescimento econômico, e o povo chinês reconhece isso, o que garante uma ordem política estável no país.
O que sustenta o crescimento chinês é sua busca por recursos naturais no mundo todo, tanto que o principal objetivo chinês nas relações com o Brasil é o de investir em recursos naturais.
E assim como toda potência em ascensão, ainda não encontramos um meio de crescer economicamente sem poluir o meio ambiente. Mas por meio do crescimento econômico chinês, a China é o país que mais investe em energia limpa, e que aos poucos também vem sanando seus enormes problemas ambientais reconhecidos mundialmente, principalmente, durante as Olimpíadas de Pequim.
Eu não acho que a China caminhe para uma potência global!!! Potência é aquela que é capaz de dar aos seus cidadãos as melhores condições de vida também. Todo o “desenvolvimento” chinês de certo não leva em consideração questões cruciais. Por exemplo, mais de 700 milhões de chineses não tem acesso a água potável, muitas das vezes consomem sem tratamento e com dejetos humanos. Mais de 186 milhões de chineses terão que ser removidos de suas províncias nos próximos anos, pois as mesmas esgotaram sua capacidade de produzir retirando recursos do solo, água e biodiversidade. Já viram as nuvens de fumaça que escondem as cidades chinesas? Aquilo é poluição pessoal!!!
Interessante seus dados Roberto.
Creio que esse século XXI o Ocidente ainda permanecerá hegemônico, mesmo apesar do sucesso chinês.
China pode até chegar a passar os EUA como maior potência econômica, mas acho que ela não permanecerá líder durante todo o século XXI.
Caro Ricardo,
Agradeço seu palpite para minha revisão, e realmente a fiz. Obrigado.
No entanto, minha explanação foi feita com base em estudos dos livros “China: Uma Nova História”, John Fairbank, e “Sobre a China”, Henry Kissinger.
Este último diz (pág. 29) “As conquistas científicas e tecnológicas chinesas se igualaram, e frequentemente sobrepujaram, às dos europeus ocidentais, indianos e árabes. (…) A escala chinesa não era muito superior à dos Estados europeus apenas em população e território; até a Revolução Industrial, a China era muito mais rica. (…) A China foi por séculos a economia mais produtivas do mundo e a região de comércio mais populosa. Na verdade, a China produzia uma parcela maior do PIB mundial totral do que qualquer sociedade ocidental em 18 dos últimos vintes séculos. Ainda em 1820. ela produzia mais de 30% do PIB mundial – quantidade que ultrapassava o PIB da Europa Ocidental, da Europa Oriental e dos Estados Unidos combinados.”
“Devemos nos lembrar sempre que, durante 20 séculos, a China teve o maior PIB mundial e que, muito antes das navegações européias” ?
Acho que tem que rever isso ae.
De acordo com o excelente texto: Por mais de dois séculos o Ocidente, primeiro na forma de Europa e depois de EUA, dominou o mundo.
Mas dificilmente China e EUA vão eleger a guerra para dirimir suas diferenças na região.
Guerra é coisa do passado, foi-se os tempos do realismo político ultrapassado. Na nova atualidade são os Estados, no caso superpotências como EUA, China e possível potência, o Brasil, em que o Estado tem um papel fudamental na economia do país e internacionalmente. Economias orientadas ao mercado global, bem dirigidas administrativamente e reguladas frente as oportunidades e desafios que a abertura comercial gradual possa oferecer ao Estado. Atualmente, a finalidade principal dos Estados é alcançar o status de Estado capaz de moldar a economia mundial de acordo com seus interesses políticos e econômicos, ou se preparar para não ser engolido pelo fenômeno da globalização econômica e financeira.
Devemos nos lembrar sempre que, durante 20 séculos, a China teve o maior PIB mundial e que, muito antes das navegações européias, os chineses já utilizavam este modal para fazer comércio nas regiões adjacentes da Ásia, muito embora tenha sido proíbido pela Dinastia.
Numa visão sinocêntrica, a China começa a demonstrar a sua real posição no sistema internacional, aquela que sempre representou desde os seus aprox. 5.000 anos de história e que foi prejudicada pela política adotada pelos imperadores e pela invasão do ocidente, principalmente dos ingleses.
A China dominou o mundo até os dois últimos séculos, portanto, vejo que a ascenção européia e norte-americana é que foi algo histórico, não o contrário.
interessante aborda do tema hegemonia unipolar