Guerra no Iraque: princípio e meio, sem fim, por Gersoney A. Brandão

O ex-presidente Bush tinha absoluta razão quando afirmou que o processo de libertação do Iraque seria longo e difícil (Bush, 2003), mas ele errou no julgamento que ao final do conflito e, conseqüente, queda de Saddam Hussein, o país estaria unido e estável.

Muitas coisas aconteceram entre o anúncio da invasão liderada pelos Estados Unidos, em março de 2003, e a ordem de retirada do exército americano, em dezembro de 2011 (Obama, 2011). Entre a crença em informações infundadas que relatavam a existência de bombas de destruição massiva (Powell, 2011), e o desejo de ter um maior controle sobre reservas de petróleo no Oriente Médio (Palast, 2005), a invasão e posterior ocupação do Iraque foram, desde o princípio, parte de uma operação extremamente controversa que, sequer, contou com o aval do Conselho de Segurança da ONU, causando um grande desgaste para a organização e colocando em dúvida a raison d’être dos organismos multilaterais.

Assim como a invasão não contava com um plano adequado de contingência, capaz de prever ações concretas a serem implementadas no pós-guerra (Bremer, 2006), a falta de um plano de ação levou rapidamente o Iraque à anarquia e a violência que constituiu uma base sólida para, entre outros eventos, o saque do museu nacional (Menendez, 2005) e o ressurgimento da intolerância religiosa – em um país majoritariamente muçulmano, porém, radicalmente separado entre as vertentes sunita e xiita, além da presença histórica de minorias como católicos e mesmo judeus. A propósito, um dos políticos mais próximos de Saddam Hussein, tendo, inclusive, chegado ao posto de vice-presidente, Tariz Aziz, era católico. Isso mostra que, não só a brutalidade, mas, também, a cooptação política era uma das armas do regime.

Analisando a guerra do Iraque desde a ótica dos países membros da coalizão liderada pelos Estados Unidos: A partir do anúncio da invasão feito pelo ex-presidente Bush, a captura e enforcamento de Saddam Hussein, a declaração de independência após as primeiras eleições depois da invasão (BBC, 2004), até  a ordem de retirada das tropas feita pelo presidente Obama, existiu uma sequência lógica nas diferentes etapas desta guerra.

Mas, por outro lado, nas ruas do país, o que se vive e se vê ainda é a incerteza. Quer seja o dilema dos curdos vivendo no norte do país, quanto à autonomia da região ou à frustração daqueles que vivem em Bagdá e seus arredores, ou ainda as prometidas melhorias de acesso a serviços básicos como atendimento médico, água e luz, muito ainda há de ser feito no Iraque.

O Iraque continua sendo para o seu povo, um mar de instabilidade. O país foi marcado em agosto de 2003 pelo ataque contra o escritório da ONU – que vitimou o brasileiro Sérgio Vieira de Mello – e neste mesmo período pela morte do líder xiita Mohamed Al-Hakim. E, a insegurança fez com que mais de três milhões de iraquianos abandonassem suas casas desde o inicio da ocupação (UNHCR, 2011).

Tive a oportunidade de trabalhar no Iraque por alguns meses no ano de 2003 e me recordo, com clareza, das queixas que faziam as pessoas quanto à ocupação. É  bem verdade que os iraquianos não queriam mais viver sob a tirania de Saddam Hussein. No entanto, também deve ser dito que uma força de ocupação estrangeira, com costumes diferentes e, em muitos casos, com pouco respeito às tradições locais, tão pouco, nunca foi bem-vista. Os iraquianos com quem conversava sempre tiveram dúvidas quanto às reais intenções da presença da coalizão. Por exemplo: a segurança, por todas as razões já descritas, e a infra-estrutura sempre estiveram no topo da lista de prioridades do povo. Não foi difícil entender, em um país onde se vive por muitos meses sob uma temperatura média de 50ºC, a importância do fornecimento regular de energia elétrica. No entanto, os constantes apagões de eletricidade que assolavam o país (Al-Maliki, 2010), ainda se fazem sentir. Por outro lado, causou um profundo mal-estar ver que o único prédio púbico protegido pelos militares da coalizão, após a destituição do antigo regime, foi o Ministério do Petróleo, considerado edifício-chave pelos militares americanos por guardar informação sobre poços de petróleo no norte e sul do país (Bremer, 2006).

Além da segurança e infra-estrutura precárias, a Organização Mundial da Saúde reporta como um problema maior, as dificuldades gerenciais ainda encontradas no Ministério da Saúde Iraquiano em coordenar todas as atividades do setor (WHO; 2011), assim confirmando que um dos desafios vitais de fortalecimento das capacidades locais ainda está por ser superado. Dessa forma, é verdade que o tempo fará um julgamento mais preciso da ação americana e das forças da coalizão no Iraque, porém é certo dizer, neste momento, que a missão ainda está longe de ter sido cumprida como afirmou o presidente Barack Obama (Obama, 2011), pois, os objetivos traçados por seu sucessor, “união e estabilidade”, ainda estão por ser atingidos.

Referências

Gersoney A. Brandão  é Mestre em Direitos Humanos e Cooperação Internacional pela Universidade de Strasbourg, ex-Coordenador da ONG Merlin no Iraque (brandaoazevedo@un.org).

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