Análise das relações entre Cuba e EUA (1961-2011), por Pedro Ernesto Fagundes


Há cinqüenta anos, mais exatamente em 03 de janeiro de 1961, o governo norte-americano rompeu oficialmente relações com Cuba. Essa medida extrema foi uma resposta a série de mudanças político-econômicas ocorridas na ilha caribenha entre os anos de 1960 e 1961 – como reflexo da radicalização da Revolução Nacionalista de 1959. A ruptura definitiva das relações entre Havana e Washington resultou na aproximação dos grupos políticos liderados pelo advogado e guerrilheiro Fidel Castro com a União Soviética (URSS).


Essa situação foi precedida por uma série de embargos do governo de Washington em relação às medidas de nacionalização das empresas estadunidenses decretada pelo governo de Fidel Castro. Tanto que, em junho de 1960, teve inicio uma política de redução de importação de açúcar produzido em Cuba. Nesse sentido, procurando afetar a economia cubana, em 19 de outubro de 1960, o presidente Dwight D. Eisenhower (1953-1961) impôs um embargo comercial parcial. Medida que na prática significou a redução em terço da importação do açúcar daquele país.

Entretanto, os problemas entre os dois países não ficaram restritos as questões de caráter econômico. A chegada de John F. Kennedy (1961-1963) representou um mais um grave abalo nas estremecidas relações diplomáticas entre os dois vizinhos. Sobretudo, depois do fracasso da tentativa de invasão da “Baía dos Porcos”, em 1961. Esse acontecimento serviu para alertar os norte-americanos de um fato definitivo: a ameaça comunista já havia chegado ao seu “quintal”.

A dificuldade do governo norte-americano em lidar com os novos governantes de Cuba foi outro elemento fundamental para estreitar as relações entre o governo de Castro e a União Soviética (URSS). Tanto que em plena Guerra Fria, os soviéticos instalarem mísseis nucleares na “ilha”. Em 1962, a chamada “Crise dos Mísseis” deixou o planeta a beira de um conflito nuclear entre as duas superpotências e marcou o momento mais crítico na relação contemporânea entre Cuba e EUA.

O definitivo alinhamento do governo cubano com Moscou foi determinante para criar argumentos que justificaram a expulsão de Cuba da Organização dos Estados Americanos (OEA), em 1962. Posteriormente, foi aprovado um bloqueio mais amplo ao país caribenho que também visava atingir sua economia. Agindo no sentido de prevenir que outros movimentos semelhantes acontecessem no continente, o governo dos EUA passou a direcionar sua política externa no sentido de criar obstáculos para atuação de movimentos de caráter socialista, nacionalista e comunista na América Latina.

Nesse período foi resgatada a tese da defesa coletiva que havia sido elaborada durante a administração Eisenhower. Essa proposta estava centrada em duas frentes: a militar e a ajuda humanitária. No terreno militar foram estabelecidas dezenas de acordos entra as forças armadas norte-americanas e os países latinos que visavam aparelhar e treinar as forças de segurança da região para combater possíveis “novas Cubas”.

Por outro lado, também foi estabelecida a chamada “Aliança para o progresso”, que pretendia ser o mais ambicioso projeto de colaboração dos Estados Unidos com a América Latina, desde o fim da Segunda Guerra. Lançada em março de 1961, esse projeto previa ações de incentivo ao desenvolvimento econômico na região. Outro ponto da “Aliança para o progresso” estabelecia a criação de mecanismos de intervenção humanitária, tais como a presença de “missionários” norte-americanos nas áreas mais carentes do continente. A idéia de Washington era dar maior ênfase nas ações sociais e colocar em segundo plano o caráter ideológico do acordo.

O trágico assassinato de Kennedy permitiu que seu vice, Lyndon B. Johnson (1963-1969), tomasse acento na Casa Branca. O governo Johnson deu segmento à “Aliança para o progresso”. Na contenção da ameaça comunista o governo Johnson teve papel decisivo nos golpes militares do Brasil e da República Dominicana. Durante esse período foi estabelecida a “Doutrina Mann”, que consistia em apoiar e oferecer ajuda econômica e militar a qualquer país, independente do regime político “desde que se mantivessem anticomunistas”. (FICO, 2008).

A “Doutrina Mann” continuou norteando as manobras norte-americanas durante a administração de Richard Nixon (1969-1974). Durante o governo de Jimmy Carter (1977-1981), período marcado em linhas gerais pela aproximação com os países em desenvolvimento e de defesa dos direitos humanos, houve certa distensão entre os dois países, inclusive, com o retorno da permissão de viagens e envio de recursos financeiros.

Em 1981, assumiu a presidência dos EUA o político republicano e ex-ator Ronald Reagan (1981-1989). Esse presidente marcou sua gestão como um dos períodos mais conservadores da história contemporâneo do país. A chamada “onda conservadora” teve como resultado a vitória norte-americana na Guerra Fria e a derrota do bloco socialista da Europa Oriental e, conseqüentemente, crescimento do isolamento político e econômico cubano.

Para cumprir tal tarefa a “Doutrina Reagan” procurou prestar apoio a todas as iniciativas que pretendiam atacar os governos, partidos e movimentos políticos identificados como aliados ou simpatizantes de Cuba. As práticas comuns durante as décadas anteriores voltaram a pautar essa nova estratégia estadunidense. São exemplos na América Latina países como Guatemala, El Salvador, Nicarágua e a ilha de Granada sofreram as conseqüências da retomada do clima de “caça aos vermelhos”. (KARNAL, 2007).

A desintegração da URSS e o fim da Guerra Fria fizeram com que quase todas as questões ligadas à América Latina passassem a ocupar o segundo plano na agenda geopolítica de Washington durante as décadas de 1990 e 2000: a única exceção continuou sendo Cuba.

Haja vista que os governos de George H. W. Bush (1989-1993), Bill Clinton (1993-2001) e George W.  Bush (2001-2009) mantiveram firmes os embargos e restrições ao livre comércio cubano. Agora com base em argumentos ligados a defesa dos direitos humanos e da democratização das instituições cubanas, o política externa norte-americana procurou isolar o regime de Havana das relações hemisféricas, como exemplo, podemos citar a exclusão de Cuba da “Cúpula das Américas” e a resist~encia em aceitar o retorno de Cuba a OEA, fato que ocorreu somente em 2009.

Mesmo contra todos os princípios do Direito Internacional, o governo dos EUA apoiou a criação de uma ampla legislação interna que tem como finalidade aumentar a pressão e o isolamento comercial de Cuba. Nesse caso podemos citar a chamada Ata para a Democracia Cubana – lei de 1992, também conhecida como Emenda Torricelli – que, entre outras medidas, ampliou as sanções contra empresas norte-americanas, barcos e até mesmo governos estrangeiros que realizem comércio e assistência ao governo cubano.

Em 1996, durante o mandato do presidente Bill Clinton (1993-2001), foi sancionada a Cuban Liberty Act,, também conhecida como Lei Helms-Burton, sua autoria foi dos congressistas Jesse Helms e Dan Burton, parlamentares ligados ao lobby da comunidade cubana anti-castrista dos EUA (AYARBE, 2004). Essa legislação foi mais um ato no sentido de isolar a já combalida economia de Cuba que durante a década de 1990 sentiu os efeitos do fim da ajuda da antiga União Soviética.

Contando com amplo apoio da comunidade cubana nos EUA para sua difícil primeira eleição, sobretudo no estado da Flórida, o presidente George W.  Bush (2001-2009) adotou medidas unilaterais que visavam ampliar o bloqueio econômico em relação à Cuba. Ao mesmo tempo, o governo Bush sinalizou positivamente em relação às ações que incentivassem os exilados cubanos nos Estados Unidos a intensificarem campanhas para derrubar o governo de Fidel Castro, inclusive através de supostos atos de sabotagem e espionagem

Até o momento, o governo de Barack Obama agiu de maneira extremamente tímida em relação a Cuba, limitando-se, depois de muita pressão internacional, a fechar as portas da base-prisão de Guantánamo. Entretanto, temas como o bloqueio econômico, exclusão de Cuba de organismos internacionais, acusações de espionagem e sabotagens, restabelecimento das relações diplomáticas, entre outras questões não sofreram nenhum avanço. Tal situação afeta diretamente a vida de milhões de cubanos, de ambos os países, que ainda sofrem os efeitos da última batalha da Guerra Fria.

 

REFERÊNCIAS:

FICO, CARLOS. O Grande irmão: da Operação Brother Sam aos anos de chumbo. O governo dos Estados Unidos e a ditadura militar brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

KARNAL, Leandro et al. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. 2 ed. São Paulo: Contexto, 2007.

AYERBE, Luis Fernando. A Revolução Cubana. São Paulo: Editora UNESP, 2004. (Coleção Revoluções do Século XX).

Pedro Emesto Fagundes é professor da Universidade Federal do Espírito Santo – UFES (pefagundes@uol.com.br)

 

Uma resposta to “Análise das relações entre Cuba e EUA (1961-2011), por Pedro Ernesto Fagundes”

  1. Muito bom!!! Obrigada pelo texto (:

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