
O analista de inteligência Bradley E. Manning, primeiro-sargento do Exército dos Estados Unidos, teria sido o responsável pelo vazamento de documentos classificados do governo dos EUA ao portal WikiLeaks. Entre diversas outras informações publicadas (de governos a empresas), em julho deste ano foram divulgados documentos sobre a guerra no Afeganistão; depois, em outubro, foram publicados arquivos sobre a guerra no Iraque. Finalmente, em novembro, foram compartilhadas mensagens do corpo diplomático norte-americano.
O WikiLeaks, conforme diz seu portal na internet, acredita que a transparência nas atividades governamentais pode levar a uma redução da corrupção, melhor governança e democracias mais sólidas. Mas não podemos deixar de fazer a pergunta: além de um mal-estar diplomático, o que o vazamento (via WikiLeaks) de arquivos classificados pode significar?Acreditamos que o fenômeno WikiLeaks pode ser mais bem entendido se observado dentro do quadro da chamada Sociedade em Rede.
Mais ou menos em 1970, nos Estados Unidos, surgiu um novo paradigma tecnológico, organizado com base na tecnologia da informação, concretizando um novo estilo de produção, comunicação, gerenciamento e vida. Este progresso pode ser associado à cultura da liberdade, inovação individual e iniciativa da cultura dos campi norte-americanos da década de sessenta. Meio que inconscientemente, a revolução da tecnologia da informação difundiu o espírito libertário dos movimentos dos anos 1960 (CASTELLS, 1999). É nesse contexto que emerge o chamado espaço cibernético.
A palavra “ciberespaço” foi inventada por William Gibson no romance de ficção científica Neuromancer (1984). No livro esse termo designa o universo das chamadas redes digitais, descrito como um campo de batalha entre as empresas multinacionais, assim como um palco de conflitos mundiais e uma nova fronteira econômica e cultural. Segundo Pierre Lévy (1999), o ciberespaço é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica não apenas a infra-estrutura material de comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações.
Já a cibercultura é o conjunto de técnicas, práticas, atitudes, modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço. Lévy pensa a cibercultura, a qual se encontra no ciberespaço, que é criação de ferramentas tecnológicas, as quais, por sua vez, vêm da técnica. Por trás das técnicas agem e reagem idéias, projetos sociais, utopias, interesses econômicos e estratégias de poder, quer dizer, toda a gama dos jogos dos homens em sociedade. A inteligência coletiva é um dos principais motores da cibercultura.
Apesar de Neuromancer ter criado o termo “ciberespaço”, nenhuma ficção previu a cibercultura – cuja essência é a universalidade desprovida de um significado central. A cibercultura, que não é controlável (lembrar da cultura dos campi norte-americanos nos anos 1960 – citada na introdução deste texto), coloca em questão muitos dos valores já estabelecidos em nossa sociedade. E é neste momento que adentramos no terreno das relações internacionais: há uma oposição entre o Estado e o Ciberespaço.
Segundo Weber (1999), o Estado moderno é um agrupamento de dominação que apresenta caráter institucional e que procurou monopolizar, nos limites de um território, a violência física legítima como instrumento de domínio e que, tendo esse objetivo, reuniu nas mãos dos dirigentes os meios materiais de gestão.
O Estado-nação moderno se baseia na noção de território, enquanto que o ciberespaço é desterritorializante. O Estado perde controle sobre uma parte cada vez mais importante dos fluxos econômicos e informacionais transfronteiriços.
Phil Zimmermann, cidadão americano que tinha convicções anarquistas (sempre é importante lembrar o clima dos EUA nos anos 1960), desenvolveu o programa de criptografia PGP (Pretty Good Privacy). Este programa coloca nas mãos de qualquer pessoa um tipo de poder (no caso, o segredo absoluto de comunicação) que antes era privilégio exclusivo das forças armadas mais poderosas. Os Estados vêem na “democratização” de poderosos instrumentos de criptografia um atentado à sua soberania e segurança. O PGP, de certa forma, simboliza o o cidadão libertado do poder dos Estados.
É interessante observar o fenômeno WikiLeaks dentro do quadro delineado acima. Julian Assenge, hacker ativista australiano, fundador do WikiLeaks (em dezembro de 2006), de certa forma, resgata a cultura hacker de liberdade de informação e, porque não, o nascimento da ciência da política internacional.
Segundo Edward Carr, no clássico Vinte Anos de Crise: 1919-1939 (2001), até 1914 a condução das relações internacionais era preocupação das pessoas profissionalmente engajadas nelas, isto é, soldados e diplomatas. Ninguém tinha controle sobre as “misteriosas operações das chancelarias”. Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a campanha pela popularização da política internacional começou sob a forma de uma agitação contra tratados secretos.
Embora vivamos hoje em um mundo mais multilateral e de diplomacia pública, as informações divulgadas pelo WikiLeaks não deixam de chamar a nossa atenção. Não existem mais os tratados secretos que levaram à Primeira Guerra Mundial, mas existem mundos de informação – além daquelas disponíveis no Google – sobre as quais os cidadãos comuns como nós não têm (no caso, não tinham) idéia. Manuel Castells escreveu um artigo interessante sobre isso (CASTELLS, 2010).
Se, em parte, o onze de setembro de 2001 ocorreu em razão de uma inteligência estatal pouco compartilhada, o fenômeno WikiLeaks pode ter sido resultado do necessário compartilhamento de informações consideradas vitais na condução da guerra dos Estados Unidos contra a al-Qaeda. Se, antes, a comunidade de inteligência falhou por não compartilhar informações, desta vez falhou porque as informações estavam facilmente acessíveis.
Julian Assange afirmou que a geopolítica passaria a ser dividida no antes e no depois do chamado “cablegate” do Wikileaks (em alusão ao caso de Watergate). Para George Friedman (2010), o vazamento de documentos pelo WikiLeaks não muda a estrutura da geopolítica global. Para Friedman, Assange fez um serviço aos EUA, os quais, a partir de agora, aumentarão o controle sobre determinadas informações. Mas, e se observarmos as relações internacionais em lentes outras que as da geopolítica?
Para Calabresi (2010) a prisão de Assange foi uma vitória, e não uma derrota, para a sua organização. Trata-se de uma guerra de informações assimétrica, aonde o campo de batalha é o WikiLeaks. Quanto mais Assange for exposto pelas potências mundiais, mais poderoso se tornará o seu movimento. O efeito de toda a pressão sobre Assange pode ser como cortar a cabeça da mítica Hidra, animal da mitologia grega que tinha um corpo de dragão e nove cabeças de serpente.
É curioso notar que o Pentágono desenvolveu suas capacidades de guerra cibernética nos últimos anos, mas não as está usando contra o WikiLeaks (MICHAELS, 2010). O Departamento de Defesa dos EUA está gastando cerca de 150 milhões de dólares em um novo comando militar que será o responsável pelos esforços de guerra cibernética. Este comando servirá para defender as redes militares de computadores ou atacar as redes do inimigo. Os Estados Unidos possuem fortes capacidades ofensivas no espaço cibernético.
O WikiLeaks pode ser visto como uma organização estrangeira tentando impedir a política de Washington. Especialistas afirmam que o governo dos EUA está trabalhando sobre o desenvolvimento de regras que regulamentem a guerra no ciberespaço, particularmente contra inimigos não-convencionais (que seria o caso do WikiLeaks). O lançamento de um ataque cibernético pode levantar questões de soberania, caso os servidores estejam em um país amigo, por exemplo.
Havia gente que acreditava que a al-Qaeda trabalhava para a inteligência saudita, com o objetivo de desestabilizar regiões da Ásia, de modo a privilegiar o petróleo saudita. Neste texto enfatizamos o caráter mais assimétrico do conflito WikiLeaks. Mas, e se tal organização estiver a serviço de um governo adversário dos EUA? Aí voltamos para o campo da geopolítica, o que nos faz repensar se houve de fato uma mudança, como afirmou Assange, ou não, como falou Friedman.
Referências
- CALABRESI, Massimo (2010). “Why WikiLeaks is Winning Its Info War”. Time, Dec. 08. Disponível em: <http://www.time.com/time/nation/article/0,8599,2035817,00.html>. Acesso em: 18/12/2010.
- CARR, E. H (2001). Vinte Anos de Crise: 1919-1939. Uma Introdução ao Estudo das Relações Internacionais. Brasília: Editora UnB, IPRI, Imprensa Oficial do Estado de SP.
- CASTELLS, Manuel (2010). “La Ciberguerra de Wikileaks”. La Vanguardia, 11/12. Disponível em: <http://www.lavanguardia.es/opinion/articulos/20101211/54086305259/la-ciberguerra-de-wikileaks.html>. Acesso em 18/12/2010.
- CASTELLS, Manuel (1999). Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra.
- FRIEDMAN, George (2010). “Taking Stock of Wikileaks”. Stratfor Geopolitical Weekly, Dec. 14.
- LÉVY, Pierre (1999). Cibercultura. São Paulo: Editora 34.
- MICHAELS, Jim (2010). “WikiLeaks actions: An act of cyberwar?”. USA Today, 14 dec. Disponível em: <http://www.usatoday.com/news/world/2010-12-14-wikileaks14_ST_N.htm>. Acesso em 18/12/2010.
- STEWART, Phil (2010). “Wikileaks may set back U.S. intelligenge sharing”. Reuters, Nov. 29. Disponível em: <http://www.reuters.com/article/idUSTRE6AS67F20101129>. Acesso em 18/12/2010.
- WEBER, Max (1999). Ciência e Política: Duas Vocações. São Paulo: Cultrix.
Bernardo Wahl G. de Araújo Jorge é Professor de Relações Internacionais das Faculdades Metropolitanas Unidas – FMU (bernardowahl@gmail.com).

21/12/2010


Porque o Pentágono, os EUA, Washington ou que mais nome tanha essa entidade, se a essência é uma só, tanto choraminga, e não reconhece imediatamente um revés, coisa própria do viver. Não se pode ganhar todas, falou-me meu amigo Levi. A um jornalista é próprio a procura da notícia; ao dono da notícia é próprio ocultá-la, como o ladrão faz com o seu produto. Que esse Gigante minguante desenvolva cada vez mais sua ciência de criptotância. O jornalista robusteça os músculos, escale e desça a montanha a procura do seu alvo, não funcionou, cave um túnel, assim se luta limpamente.
Esse assunto, sério, não foge à regra popular, de que quem conta um conto, acrescenta um ponto. Já vi o Manning ser apresentado como cabo, e logo depois, como 1ºsargento, dando três pulos na hierarquia. Se isto não alterar o fundo da história, quero saber quantos pulos na hierarquia da verdade precisa-se apara alterar a seriedade do acontecido.
Naturalmente o cabo ou sargento, preso em Quantico está sendo responsabilizado pelo fato de ser um servidor do Estado, onde, penso eu, não será atenuante as emoções que o levaram ao desvio de comportamento, ver helicópteros abatendo civis em pose de rendidos, no Iraque, com comando dado de terra por interpretes legais, numa arrumação de batalha sofisticada, faltando apenas uma demão moral.
Arremedando essa ação está a firula de arranjos também e de compadrios, nada legais, a aliada Suécia num gesto de neodemocracia e de desvio e conduta, servilmente enrreda o Assange em indiciamento de estupro, recebe o afoito, do Reino Unido e o transfere de domicílio, numa jogada infernal, para Washington, onde ele some em um buraco negro, talvez em uma belonave americana no Atlântico insondável, ou para base entre as centenas, de paises graciosos, ou mesmo Gantánamo.
Pode-se ter apenas uma certeza, é que se assim as coisas acentecerem, o WikiLeak terá sucessores.
Bonito texto!
Ainda sobre o debate, uma reportagem interessante:
http://www.rodrigovianna.com.br/colunas/reflexoes/estados-unidos-e-wikileaks-a-democracia-fugiu-de-controle.html
Una outra questão importante para mim é de deixar de colocar o Wikileaks como um problema de ameaça a “soberania nacional”, se os EUA o qualquer outro governo faz ações horríveis como por exemplo os assassinatos de milhares de pessoas pelo UK com cumplicidade dos EUA no Bangladesh, nos falamos de “soberania” ameaçada por um outro estado que estaria manipulando o Wikilieaks? e se também fosse assim, isto seria um problema secundário, porque o fato principal são os crimes dos EUA e dos estados contra as pessoas, o projeto imperialista dos EUA e não a defesa da soberania destes estados que fazem tudo contra a democracia, a liberdade e a vida do mundo.
As atividades do Wikileaks trazem à tona diversas questões num contexto de cada vez maior democratização da informação e de participação política. Dispor somente da informação produzida pela velha e suja mídia, e dependermos somente de nossos representantes em relação à res publica?
Antes de Cristo, na Grécia, já haviam aqueles que contestaram a necessidade de “pastores para os rebanhos”, a escravidão, ou aqueles que lutavam para a democratização do ensino da retórica e da lógica para além da aristocracia – mas até hoje…
A omissão de Weber em relação à democracia representativa também já foi observada por Habermas, e isso traz consequências para a natureza do Estado, e esse vem adaptando-se a essas novas demandas.
Com essas colocações, só quis contribuir com o debate dizendo que conhecimento é poder e que o poder sempre concentrou-se nas mãos das classes dominantes. Defender interesses específicos ou comprometer-se com a justiça social? Questões impróprias para a área das Relações Internacionais?
Algumas considerações
1) O sistema de segurança dos EUA tinha varias falhas
2) Depois de Wikileaks este sistema terá mais segurança, mas aumentará os gastos dos EUA e da maioria dos outros estados e empresas assustadas com Wikileaks
3) Uma onda de repressão, controle e censura da Internet por parte dos estados vai dificultar a liberdade de expressão
4) Wikileaks mostra o imperialismo dos EUA e o desrespeito pela democracia e pela liberdade de informação
5) Não é verdade que a CIA não atacou Wikileaks, não se sabe quem atacou, (wikileaks teve e tem atacos informaticos continuamente), porque os atacos são secretos.
6) A empresa brasileira (assim como da maioria dos estados) ignora os documentos de wikileaks e não faz analises nem dos documentos do proprio estado.
7) Wikileaks vai mudar as relações internacionais entre estados mas as pessoas do mundo devem fazer a propria parte, senão depois de um reajuste estrutural e de segurança tudo voltará ao normal.
8) não adianta ter um sistema de segurança super caro, a consciência dos homens frente aos horrores dos EUA é mais forte, a rede mundial das pessoas é mais forte que qualquer outra rede.