Paquistão e OTAN: parceria e desavenças, por Gabriel Moura Queiroz


No pós 11 de setembro, a atuação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na Ásia vem ganhando apoio do governo paquistanês. Este país tornou-se aliado-chave no conflito no vizinho Afeganistão, de modo que a logística da OTAN passou a se beneficiar do ponto de apoio além da fronteira. Em troca, a aliança e seus principais países-membros, como os EUA, prestam ajuda financeira e militar – como o treinamento e capacitação de tropas – ao Paquistão.

A presença da OTAN em território paquistanês data de 2005, quando a organização montou uma operação de assistência em resposta ao terremoto na região fronteiriça do Hindu Kush. O apoio concedido pela organização consistiu no transporte de produtos de primeira necessidade e na concessão de pessoal especializado. A ajuda humanitária pode ser vista como entrada estratégica da organização no país, à medida que a iniciativa de cooperação, posterior à catástrofe natural, ganhou caráter militar. Desde então, o treino de militares paquistaneses e a segurança regional estiveram na pauta de negociação entre o governo do Paquistão e a OTAN.

A predisposição do Paquistão a aliado na guerra contra o terrorismo, devido a sua localização estratégica, é crescentemente explorada pela OTAN. A manutenção de sua atuação no vizinho Afeganistão é beneficiária do apoio paquistanês, já que a logística da organização ganhou um ponto de apoio importante – rotas de fornecimento de materiais passaram a ser traçadas de leste a oeste da fronteira, por exemplo. Ademais, o apoio torna-se mais importante à medida que a região fronteiriça – com destaque ao Waziristão – vem se tornando alvo comum das forças insurgentes. As forças da OTAN ganham, simultaneamente, o apoio de mais um ator que defenda seus interesses no conflito no Afeganistão e o poder de barganha na exigência de ação mais enfática, por parte do governo paquistanês, numa região parcamente controlada como o limite entre os dois países. Tal movimento torna-se importante na medida em que as forças da OTAN prestam apoio ao Paquistão, porém sem intervir diretamente na sua defesa.

O aumento do número de insurgentes na região fronteiriça e em território paquistanês pode ser compreendido como consequência da presença da coalizão da OTAN na região e do alcance parcial de seus objetivos no Afeganistão. A atuação do Taleban após sua derrubada do governo central afegão, em 2001, pautou-se pela busca de brechas na atuação da OTAN. Como a coalizão conseguira restabelecer, por mais que minimamente, a legalidade do governo central e o controle das zonas urbanas, os movimentos de insurgência foram forçados a atuar em áreas mais remotas – em última instância, nas zonas fronteiriças. Nesse aspecto, nota-se o surgimento e o fortalecimento de braços do Taleban em território paquistanês, com destaque ao Tehrik-i-Taleban Paquistão (TTP), criado em 2007. Logo, o pleno restabelecimento do Estado de Direito no Afeganistão passa, dentre outros aspectos, pela segurança das áreas adjacentes ao conflito. Tal constatação vem sendo incorporada na retórica dos dirigentes da OTAN e de seus países-membros sendo que comumente, a busca pela estabilidade regional é tratada como interesse comum da organização, do Afeganistão e do Paquistão.

A despeito da anuência do governo paquistanês para com a presença da OTAN em seu território, alguns elementos complicam a relação estabelecida. Esses têm origem no fato de que tanto a organização quanto os insurgentes veem no Paquistão um ponto importante de suas atuações. Tal fato, o qual decorre do transbordamento do conflito afegão ao país vizinho, resulta na frequente depredação do patrimônio da OTAN antes mesmo de atingirem seu destino em território afegão. Ademais, a presença bélica da organização na região fronteiriça – principalmente para perpetrar ataques aéreos a insurgentes – é reforçada, batendo recorde no mês de setembro de 2010.

Recentemente, a tensão desta relação atingiu níveis inéditos. A cooperação do governo paquistanês teve seus limites provados, quando o governo respondeu com o fechamento da fronteira à morte de dois soldados paquistaneses após ataques aéreos dos EUA em regiões adjacentes à fronteira com o Afeganistão. Deste modo, a OTAN perdeu, momentaneamente, o fornecimento de suprimentos às tropas localizadas nesse país. O desentendimento resultou na vulnerabilidade dos caminhões da OTAN que permaneceram em solo paquistanês, tornando-se alvo fácil aos insurgentes.

Tal acontecimento demonstrou que a atividade da OTAN no Afeganistão  é sustentada, em grande medida, pelo ponto de apoio no Paquistão. A possibilidade de diversificação de rotas de abastecimento, principalmente pela Ásia Central, foi substituída pela aliança geoestratégica com o país vizinho, o que causou certa dependência no fornecimento de suprimentos. Nota-se que em paralelo à logística estabelecida no país, há o esforço diplomático em se tratar o problema da segurança em âmbito reginal. Este é um movimento identificável, principalmente, no plano dos EUA com vistas à região.

A administração Obama consolidou esta estratégia, fruto da constatação da extrema porosidade da fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. A abordagem, apelidada de “AfPak” pelo serviço diplomático dos EUA, passou a ser conjunta, de modo que procura, do lado afegão, fortalecer as instituições recém-criadas, para expandir o controle sobre todo o território, e, do lado paquistanês, dar apoio às forças armadas do país. Com efeito, tal estratégia busca responder aos novos focos de violência advindos de grupos insurgentes. Entretanto, a expansão dos apoios das forças ocidentais na região pode ser vista como estímulo à hostilidade que parte dos insurgentes, principalmente do braço paquistanês do Taliban.

No que concerne ao desentendimento entre Paquistão e OTAN, o desfecho do mesmo só se deu quando do pedido de desculpas pela morte dos dois soldados, feito tanto pelo secretário-geral da aliança, Anders Fogh Rasmussen quanto pela Embaixadora dos EUA em Islamabad, Anne Patterson. Findo o bloqueio, as rotas de fornecimento de materiais da organização rumo ao Afeganistão foram retomadas; o que não significou, no entanto, a diminuição dos ataques de insurgentes antes do cruzamento da fronteira. Como dito anteriormente, tais movimentos são frequentes na região.

Os recentes acontecimentos na fronteira “AfPak” suscitam problemas próprios à tuação extraterritorial da OTAN. Motivada pela concepção de segurança coletiva, isto é, da proteção de seus países-membros, a Organização adentrou em conflito e região com dinâmicas e processos próprios, complicando-os. À medida que atinge parte de seus objetivos, gera também o acréscimo da violência em áreas adjacentes. Assim sendo, paralelamente à expansão de alianças e pontos de apoio na região, há a diversificação da atuação das forças insurgentes. A ingerência militar que extrapola a área de atuação da organização – a saber, o Atlântico Norte –, bem como a utilização de mecanismos como o apoio financeiro de parceiros, dão sinais de esgotamento. Resta saber se a busca por uma solução que seja genuinamente regional, como a atual administração norte-americana traçou em seu plano, buscará a sustentabilidade dos governos locais, ou insistirá em atitudes ofensivas que, em última instância, fomentam o surgimento de novas frentes no conflito que tentam dirimir.


Gabriel Moura Queiroz é Membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI  (gmq402@gmail.com).

 

2 Respostas to “Paquistão e OTAN: parceria e desavenças, por Gabriel Moura Queiroz”

  1. noemi araujo 24/11/2010 at 5:36 pm

    Gabriel,
    Parabéns pelo artigo.
    A foto é muito feliz, não? Ela acabou funcionando como uma janela que nos instiga a olhar aquele mundo pela fresta que seu artigo nos oferece..
    Um abraço.

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  1. Publicações PET REL último LARI « - 28/11/2010

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