
Para os que pesquisam ou trabalham com a cooperação brasileira para o desenvolvimento internacional, a eleição de Dilma Rousseff para a Presidência da República vem com uma série de expectativas. Expectativas não apenas em relação ao seguimento das iniciativas que tiveram início no governo Lula, mas principalmente em relação a uma maior institucionalização do tema no Brasil.
Neste último ano do atual governo, foi dado um passo importante nesse sentido com o envolvimento do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) na contabilização nacional das atividades da cooperação brasileira (estima-se que o primeiro relatório será concluído e divulgado ainda em 2010). Com efeito, o primeiro passo para a formação de qualquer política nacional está no levantamento dos gastos públicos setoriais, que nos possibilita explorar o perfil e a evolução dos desembolsos, por área e por destino, e traçar objetivos.
Um segundo passo necessário, cuja tramitação ainda não foi concluída, é conferir à Agência Brasileira de Cooperação (ABC) maior autonomia. Hoje, a qualidade e o prosseguimento dos trabalhos da agência, apesar dos grandes avanços nos últimos anos, ainda se veem comprometidos devido à alta rotatividade de seus funcionários (a ABC não conta com um corpo próprio de funcionários especializados).
Em segundo lugar, são necessários debates mais amplos acerca do engajamento crescente do Brasil em iniciativas que vão desde a ajuda humanitária e o perdão de dívidas à prestação de cooperação técnica a países de menor desenvolvimento relativo. Os números levantados recentemente pela “The Economist”, segundo a qual a cooperação para o desenvolvimento prestada pelo Brasil somaria US$ 4 bilhões por ano, começam a ganhar eco na imprensa brasileira, fazendo-se cada vez mais necessária a construção de justificativas para o emprego de recursos públicos na promoção do desenvolvimento de outras nações.
O discurso oficial aponta o caráter solidário, sem fins lucrativos, da cooperação prestada pelo Brasil, o que vem sendo reconhecido pelos chamados “doadores tradicionais” – organizações internacionais e agências de cooperação dos países industrializados – como uma das razões para o prestígio brasileiro na área. Esse caráter solidário é, sem dúvida, relevante, na medida em que vai ao encontro de um amplo consenso internacional, construído desde a década de 70, em torno da obrigação moral dos países mais ricos de abrirem mão dos seus interesses de curto prazo e contribuírem efetivamente para o desenvolvimento internacional.
Não obstante, vale ressaltar que, como nos mostra a experiência dos países que contam com políticas de cooperação internacional, sua sustentabilidade foi garantida, em grande medida, pela vinculação com interesses nacionais, políticos e econômicos. Hoje, vemos uma relação clara entre a cooperação prestada pelo Brasil e o propósito do atual governo de incluir o Brasil entre os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, mas é necessário, também, que sejam elaborados propósitos de Estado, que possam se sustentar independentemente do partido que estiver no poder.
Um possível caminho seria traçar ações de cooperação em conformidade com uma política de apoio à internacionalização das empresas brasileiras. Ao se estabelecerem parcerias, por exemplo, para a instalação de centros de formação profissional em outros países em desenvolvimento, seria importante que se levasse em conta sua localização em regiões de concentração de filiais de empresas brasileiras, cuja expansão é muitas vezes limitada pela falta de mão-de-obra capacitada nos países que recebem seus investimentos.
Em terceiro lugar, é necessário que o Brasil desenvolva uma cultura da cooperação pautada pelo monitoramento e avaliação das iniciativas, de modo que se possa aperfeiçoar sua contribuição para desenvolvimento dos parceiros. O governo brasileiro vem resistindo à chamada “agenda da eficácia da ajuda” sob argumentos puramente defensivos, centrados na soberania brasileira diante de uma agenda estabelecida no âmbito da OCDE. Mas poucos representantes do governo estão tecnicamente qualificados para julgar o conteúdo dessa agenda, o que é natural diante do fato de o ativismo brasileiro na prestação da cooperação internacional para o desenvolvimento ser recente na agenda da política externa do país.
Esse ponto parece apresentar trajetória semelhante à das negociações ambientais, nas quais adotamos, a princípio, uma postura reativa até iniciarmos um processo de construção de instituições nacionais e de capacitação de técnicos e diplomatas – o que nos possibilitou que, três décadas depois Conferência de Estocolmo, chegássemos a Joanesburgo não apenas com avanços importantes em termos de legislação e instituições nacionais, mas também com uma agenda propositiva para o avanço das negociações ambientais.
No caso do tema do desenvolvimento, o envolvimento do IPEA na contabilização da cooperação prestada pelo Brasil mostra a vontade política do governo de iniciar um processo de racionalização que, uma vez levado adiante, pode desembocar em uma política nacional de cooperação e em uma postura mais proativa do Brasil na arena normativa internacional.
Se o governo atual, e o que o seguirá, realmente considera o engajamento brasileiro na cooperação sul-sul como um objetivo de Estado, é necessário que se tomem as decisões necessárias para garantir sua sustentabilidade no longo prazo. Afinal, somos uma democracia e, mais cedo ou mais tarde, a alternância de partidos no poder virá.
Iara Costa Leite é doutoranda em Ciência Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ e professora substituta do Relações Internacionais da Universidade de Brasília – UnB (ileite@iuperj.br).

03/11/2010 

Prezada Prof. Iara Costa Leite e amigos,
Vejo com bons olhos, e creio que não pode ser diferente, essa contabilização das cooperações brasileiras. Uma vez feita com certeza trará mais dados que irão fortalecer a inserção e sua qualidade.
Também acho importante solidificar uma política nacional de cooperação, independente de quem esteja ocupando o cargo máximo da República, pois isso também ajudará não só na diplomacia brasileira e os países com os quais se tem cooperação, mas na própria formação do corpo diplomático do Brasil.
Ainda gostaria de falar sobre um ponto final. Entendo e apóio a mudança de postura em relação a doadores tradicionais do Brasil. Acho que, no papel, é o ideal a ser feito. Porém isso não pode impedir um maior engajamento brasileiro por maiores parcerias e cooperações, pois se o modelo do Brasil é mais “humano” e justo, isso tem de ser apresentado claramente como uma vantagem a possíveis parceiros, e, nesse ponto, não sei qual está sendo a nossa eficiência. Espero que essa cooperação do MRE e ABC ajude a esclarecer.
Parabéns pelo artigo.
Atenciosamente,
Luiz Barretto
Prezada Prof. Iara Costa Leite,
Tive acesso ao seu artigo intitulado “O Governo Dilma e o futuro da Cooperação Brasileira para o desenvolvimento internacional”. Sobre o assunto, permito-me fazer um esclarecimento e tecer um comentário. O esclarecimento refere-se ao levantamento das modalidades de cooperação brasileira ao exterior. Essa iniciativa partiu de demanda do Sr. Ministro de Estado das Relações Exteriores, Emb. Celso Amorim. Dentro do MRE, a ABC se encarregou de preparar as bases metodológicas para o referido levantamento. Após consulta à Presidência da República, esta última indicou o IPEA para promover, em coordenação com a ABC/MRE, o levantamento em apreço e a preparação daquele que será o primeiro Relatório da Cooperação Brasileira para o Desenvolvimento Internacional (2005-2009). Trata-se, portanto, de um trabalho conjunto entre os dois órgãos. Em termos de política governamental para a cooperação internacional, objeto de comentário no referido artigo, entendo que o MRE (o que inclui a ABC, como sua unidade) tem claro para si o caminho a seguir. Isso não tem impedido, naturalmente, que o MRE mantenha um contato regular com outras áreas setoriais do Governo Federal.
Em termos de comentário, refiro-me ao tema da Declaração de Paris. Caberia observar que o Governo brasileiro não é “contra” iniciativas em prol de uma maior eficácia das ações de cooperação para o desenvolvimento. A posição do Governo brasileiro, na verdade, é de princípio: não aceitamos avaliar a cooperação Sul-Sul do Brasil com base em critérios definidos por países doadores tradicionais que refletem as práticas típicas da cooperação Norte-Sul, marcadas por condicionalidades políticas e por uma visão parcial do que se entende por “transparência”, “apropriação”, etc. O que o Brasil tem defendido em foros internacionais é que uma avaliação sobre o impacto da cooperação Sul-Sul se dê em cima dos ganhos sociais e econômicos dos países beneficiários dessas parcerias, conjugado à uma análise de absorção e sustentabilidade (portanto, sem se pretender avaliar o “bom comportamento” dos países em desenvolvimento em relação a questões externas ao objeto da cooperação propriamente dita).
Atenciosamente,
Márcio L. Corrêa
Coordenador Geral de Cooperaçâo Técnica Multilateral
Agência Brasileira de Cooperação
Ministério das Relações Exteriores