O investimento externo direto do Brasil na América do Sul: o Brasil no World Investment Report 2010 da UNCTAD, por Rodrigo Maschion Alves


Os primeiros impactos da crise financeira internacional na América Latina (termo usado constantemente pela UNCTAD) já apareceram no relatório sobre os investimentos externos diretos. Segundo o World Investment Report 2010 da UNCTAD, Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, a América Latina sofreu perdas, em 2009, de 36% nos fluxos de investimentos entrantes quando comparados com três anos anteriores de crescimento. Os números _ quantidade em milhões de dólares americanos _ dos fluxos aplicados, ou seja, os recursos investidos pelos países da região na própria América Latina ou em outros espaços geográficos do mundo caíram 42%.

Essa queda deveu-se, principalmente, ao comportamento retraído das transnacionais brasileiras. Apesar dos dados negativos para o ano de 2009, o ano de 2010 já apresenta uma tendência de recuperação promovida pelo cenário de crescimento no Brasil, no México e na Argentina: a recuperação iniciou-se no último quarto de 2009 com fluxos recebidos acrescidos de 24% em relação ao segundo quadrimestre de 2009; o primeiro quadrimestre de 2010 já representou um acréscimo de 19% ante o último quarto de 2009. No entanto, os cinco primeiros meses de 2010 já demonstraram uma inflexão positiva para a aplicação de investimentos externos por parte do Brasil. Segundo o referido documento, os investimentos externos do país já totalizaram 7,9 bilhões de dólares para os cinco primeiros meses do ano; trata-se do maior valor já registrado para esta fase dos anos.

Os dados da UNCTAD direcionados para a América do Sul demonstrará ao pesquisador a crescente importância adquirida pelo Brasil e suas transnacionais desde o ano de 2004 neste espaço. Em outros termos, na região, cada vez mais os dados de cada país sobre os investimentos externos diretos entrantes serão influenciados pelos recursos oriundos da economia brasileira. O documento demonstra, também, que a origem da maior presença de companhias do país no espaço sul-americano deveu-se as privatizações dos anos 90 e ao apoio governamental às empresas com atividades internacionais. Para o último, faz-se importante citar a relevância do papel do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no financiamento de aquisições por empresas brasileiras de grupos em outros países da região. Caso pioneiro foi a compra da empresa argentina Swift pela brasileira JBS Friboi na ordem de US$ 200 milhões em 2005. O relatório demonstra que o BNDES já concedeu créditos de 8 bilhões de dólares para empresas brasileiras intensificarem suas ações internacionais, em especial nos setores de construção civil, energia, mineração, bens de capital e agronegócio.

Nesse sentido, boa parte dos investimentos externos diretos realizados pelo Brasil no espaço da América do Sul deve-se aos esforços de incentivo realizados no âmbito do aparelho estatal brasileiro com foco em políticas industriais e comerciais. Ademais, devemos salientar que, a partir do ano de 2003, com o início do governo Lula da Silva e sua priorização da integração sul-americana, promoveu-se o fortalecimento dos laços integradores de aspecto financeiro, o que resultou na intensificação das relações comerciais do Brasil na região. Dentre os esforços do governo Lula, podemos destacar a elevação do Brasil junto à Corporação Andina de Fomento (CAF) de sócio acionista série C para acionista série A, no ano de 2007. Esse é o mesmo patamar dos Estados fundadores da CAF, que são os países da Comunidade Andina (CAN). Outro instrumento regional de intensificação dos laços financeiros e comerciais em que o Brasil reviu sua atuação e que colaborou com maior presença comercial brasileira nos países da região foi o sistema de pagamentos e créditos recíprocos da ALADI, o chamado Convênio de Pagamentos e Créditos Recíprocos (CCR). Muitas obras de infra-estrutura no subcontinente têm seus créditos e pagamentos cursados por esta caixa de compensação. Porém, cabe frisar que a presença das empresas do Brasil na região depende, na sua maior parte, de recursos e ações das companhias.

O relatório de 2010 da UNCTAD indica que, apesar de alguns impactos negativos nos fluxos de investimentos externos recebidos e aplicados na América do Sul, a região já apresenta condições otimistas de recuperação. Ainda de acordo com o relatório, tal recuperação seguirá a tendência positiva dos países em desenvolvimento. Esse conjunto de Estados tornou-se, na primeira década do século XXI, o maior receptor de investimentos do mundo. Na página 47 do relatório encontramos o diagnóstico de que as presenças comercial e econômica das transnacionais brasileiras na América do Sul continuam a colaborar para a recuperação dos investimentos. Quanto à posição do Brasil nos fluxos de investimentos, pode-se averiguar que no ano de 2010 o total dos investimentos externos recebido foi superado pelo aplicado. O fluxo, até julho de 2010, soma 11,2 bilhões de US$ para os investimentos aplicados pelo Brasil e 10,7 bilhões de dólares para aqueles recebidos pelo país. Quais outros fatores explicariam este fenômeno? A UNCTAD salienta que a valorização do real e a perda de valor das empresas estrangeiras possibilitaram boas oportunidades para o empresário brasileiro em suas atividades internacionais de aquisição de companhias. A instituição ainda destaca que a melhora macroeconômica interna do país possibilitou o acesso privilegiado aos créditos que fomentam a internacionalização da atividade econômica do Brasil. O relatório conclui que as possibilidades comerciais que a região apresenta em termos de mercado consumidor, de custo favorável de mão de obra e de insumos também são fatores pertinentes para a internacionalização das empresas brasileiras no subcontinente.

Em vista dos dados apresentados pelo World Investment Report 2010 da UNCTAD, sinalizamos a conclusão de que é maior a importância das presenças econômica e comercial do Brasil na América do Sul a partir dos anos 2000, presenças essas que impactam diretamente nos fluxos e nos estoques de investimentos direcionados para o subcontinente. Como relação causal direta, o Balanço de Pagamentos dos países receptores do investimento externo direto brasileiro são cada vez mais afetados por esses recursos. Isso sinaliza o crescente impacto que a estrutura produtiva e econômica do Brasil exerce na região. Os dados são, também, suficientes para indicar o crescente peso político do Brasil enquanto ator regional capaz de definir parte dos contornos diplomáticos sul-americanos. Portanto, sinalizamos que a área em destaque converteu-se em importante plataforma de inserção e de expansão internacional para a economia brasileira.

Bibliografia:

  • UNCTAD (2010). World Investment Report: Investing in a low-carbon economy. New York, Genebra: United Nations.

Rodrigo Maschion Alves é pesquisador assistente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA (ro_alves@hotmail.com).

Uma resposta to “O investimento externo direto do Brasil na América do Sul: o Brasil no World Investment Report 2010 da UNCTAD, por Rodrigo Maschion Alves”

  1. Muito boa esta matéria.

    Parabéns.

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