Todos aqueles medianamente familiarizados com a literatura brasileira, já devem ter lido ou, pelo menos, ouvido falar – inclusive por causa de um filme realizado muitos anos atrás – do romance meio humorístico, meio trágico, de Lima Barreto sobre o major Policarpo Quaresma, um militar idealista e ultranacionalista que tinha grandes projetos para o Brasil, todos extremamente bem intencionados e, em sua essência, humanistas, mas que, se aplicados, invariavelmente trariam mais problemas do que soluções à jovem República positivista. Não preciso falar aqui do “triste fim” do major Quaresma, tanto porque não estou prevendo o mesmo final infeliz para nossos bravos antiglobalizadores e suas propostas surrealistas. Por certo não vamos fazer como o Marechal Floriano, que dizia que receberia seus inimigos a bala, inclusive porque não considero essa tribo de sonhadores como meus inimigos intelectuais; se tanto, eles são um pequeno bando de idealistas equivocados, apenas os mais jovens, porém; não, obviamente, os velhacos de má-fé que tentam ludibriá-los.
Algumas dessas propostas são verdadeiramente inocentes, ingênuas segundo os menos pacientes com esse tipo de brincadeira, em todo caso inócuas, em sua cândida inconsequência. Outras, em contrapartida, seriam essencialmente prejudiciais, ou até mesmo perigosas, se o tal de “outro mundo possível” desses altermundialistas servisse de critério para a formulação e implementação de políticas públicas. A julgar, todavia, pelo apoio que todos eles deram a um outro militar, bem menos pacífico que o nosso Policarpo, aquele coronel que lidera uma fazenda petrolífera ao norte do continente, pode-se imaginar que eles pretendam aplicar aqui, e em todo o mundo, as geniais lições de economia política que vem sendo aplicadas com tanto afinco naquela nova “fazenda dos animais” (apud Orwell). Creio que todos podem imaginar o que aconteceria se o novo e mais agressivo coronel estendesse suas práticas bizarras de política econômica a todo o mundo possível ao alcance de suas propostas alopradas.
Independentemente da aplicabilidade, ou não, das lições econômicas desses novos personagens de comédia, pode-se perguntar qual o balanço a ser feito do último convescote do Fórum Social Mundial, que prometia comemorar dez anos de eventos e dele retirar ideias concretas para construir um outro mundo possível. Confesso que li atentamente todos os resumos generosamente preparados pelos organizadores sobre cada um dos painéis de discussão, e deles retirei não mais do que algumas frases geniais, dessas que poderiam servir para compor mais uma brilhante coletânea dessas “pérolas de vestibular” que professores mal intencionados recolhem de alunos distraídos para incitar gargalhadas na galera. Em todo caso, vejamos as geniais contribuições que emergiram do “encontro síntese” do FSM, em seu último dia.
Todas as minhas citações foram retiradas do resumo relativo ao dia 29 de janeiro, quando, segundo os responsáveis, “os participantes foram convidados a dar as suas impressões sobre o evento e fazer propostas tanto para os próximos fóruns como para a construção de um outro mundo possível” (ver: “Sistematização das Grandes Questões e Contribuição para o Processo Fórum Social Mundial”; disponível neste link: http://seminario10anosdepois.wordpress.com/2010/01/30/resumo-29-01-sistematizacao-das-grandes-questoes-e-contribuicao-para-o-processo-forum-social-mundial/). Meu esforço neste resumo do resumo, consiste apenas em reordenar as sugestões apresentadas e sobre elas formular meus comentários à la Lima Barreto.
A maior parte das propostas pode ser incluída na categoria de “inócuas”, das quais cito apenas algumas, justamente pela absoluta inconsequência dessas sugestões. Sugeriu-se, por exemplo, a “formação de uma rede colaborativa de movimentos sociais para estimular a troca de experiência e permitir organizações que trabalham pela mesma causa, em diferentes locais, se articularem em torno de uma determinada luta”. Parece incrível essa sugestão: se não é isso que as organizações e movimentos sociais estavam fazendo nesses dez anos, onde eles estiveram então?: jogando bridge?
Um outro gênio da raça propôs que se adotasse uma “metodologia que inclua nos painéis, além de intelectuais, pessoas que estão vivendo os problemas ou as soluções apresentadas”. Inteligente essa, mas pode-se perguntar por que eles confiam tanto nos seus “inteliquituais”, as pessoas menos propensas, justamente, a falar e a ouvir “pessoas comuns”. Não faltou, tampouco, quem recomendasse que se incluísse nos debates do Fórum uma “variedade maior de profissionais, como os de tecnologia”. Incrível mas verdadeiro: como no caso da sugestão anterior, os antiglobalizadores já não sabem o que decidir, se não se cercarem de pessoas comuns e de tecnólogos. Bem, desejo sorte a eles: antes tarde do que nunca. A impressão que se tem, contudo, é a de que os antiglobalizadores não tem a mínima idéia do que pensar (se é verdade que eles já conseguiram chegar a essa conclusão).
Surgiram também propostas que poderíamos chamar de “policarpianas”, que são de natureza idealista, ou ingênua, mas que podem encantar o público leitor. Foram aquelas que prometeram um mundo novo, mas que não se sabe quando e onde elas serão aplicadas, ou sequer se elas tem, realmente, condições de serem implementadas. Entre as mais brilhantes selecionei estas duas, antológicas: “estimular mudanças no comportamento dos indivíduos” (juro que está lá, mas confesso que não sei por onde eles vão começar); “melhorar a infra-estrutura do Fórum com serviços médicos” (será que o pessoal do FSM sofreu com diarréias, picadas de mosquitos, coisas do gênero?).
Uma delas não pode ser classificada nem de proposta, nem de sugestão, ou de qualquer outra coisa, pois ela apenas reflete o estado de confusão mental dos participantes do FSM. Transcrevo literalmente: “Tirar uma posição do Fórum a respeito das mudanças climáticas: queremos um desenvolvimento econômico que inclua a todos e gere trabalho ou vamos defender o crescimento zero para reduzir as emissões?” Bem, não sou eu quem vai ajudá-los a resolver a quadratura do círculo, mas eu diria simplesmente isto. Este nosso mundo possível não vai esperar que eles se resolvam – e aposto com vocês que ainda não teremos uma solução no 20o. encontro do FSM, em 2020, portanto – e vai continuar gerando empregos e distribuindo renda com todas essas tecnologias poluidoras do capitalismo, mas que, paulatinamente, vão se tornar mais e mais consistentes com esse palavrório inútil do ‘desenvolvimento sustentável’ a partir da correta aplicação dos princípios da microeconomia aos processos produtivos (sabem?: aquela coisa da precificação correta, com a escassez relativa dos bens no âmbito de uma economia de mercado com livre circulação de fatores; enfim, isso está nos manuais de economia que eles ainda não leram).
Bem, a proposta “policarpiana” mais incrível que eles formularam está aqui, e eu a transcrevo por inteiro: “Investir para que a infra-estrutura do Fórum reflita minimamente o que está sendo discutido. Para isso, banir a participação de empresas transnacionais no evento e no lugar delas, usar serviços locais e economia solidária. Assim, o Fórum falará não só para seus participantes como para toda a sociedade, apontando alternativas concretas para um outro mundo possível”.
Parbleu! Eu me pergunto como é que os antiglobalizadores vão fazer sem os seus celulares Nokia, Motorola, Samsung, LG, Sony Ericsson, BlackBerry e iPhone. Como eles vão se comunicar sem Hotmail, Gmail, Yahoo, sem Skype e MSN? Como eles vão buscar suas bobagens sem o Google e a Wikipédia? Como eles vão dispensar os computadores dessas multinacionais perversas?: vão pedir substitutos ao Chávez, ao Raul Castro, ao Ahmadinejad? Acho que não vai dar certo; o FSM simplesmente vai parar de funcionar. Nem mesmo o ultranacionalista major Quaresma poderia se deslocar pelos bairros do Rio de Janeiro sem os bonds da Light, nem conseguiria se comunicar sem os telegramas da Western Union. Bem, não vai acontecer, claro…
Não faltaram, finalmente, propostas que poderiam ser classificadas de “chavistas”, como esta pérola de um antiglobalizador não identificado: “melhorar as conexões com a China e trazer o país de fato para as discussões do Fórum”. Essa é a melhor: o país asiático acaba de brigar com a Google, condenou a dez anos de prisão um advogado de causas políticas que assinou um simples manifesto pedindo liberdade de expressão e de opinião e mantém uma censura férrea sobre a internet, e os anti ainda querem trazê-lo para as discussões do FSM? Bem, pode ser que os chineses de fato concordem: depois de quarenta anos de socialismo delirante, eles começam, modesta mas rapidamente, a construir o seu capitalismo com características chinesas e os altermundialistas teriam muito a aprender com os novos plutocratas.
Mas nem só de sugestões impossíveis viveu o FSM; algumas críticas foram formuladas. Alguém disse que “faltaram análises mais profundas sobre a conjuntura social e os impactos do capitalismo no nosso dia-a-dia”; eu também acho que faltou muita coisa no Fórum, mas peço que me incluam fora dessa parte sobre os impactos do capitalismo no “meu” dia-a-dia. Eu sei exatamente qual é esse impacto, em termos de oferta de bens e serviços, de liberdade de escolha, de diversidade de chances de torrar o meu dinheiro, enfim, tudo aquilo que me vier à cabeça e couber no meu bolso, algo que, infelizmente, nem cubanos, nem venezuelanos, nem talvez outros povos cultuados pelos altermundialistas podem, hoje, fazer livremente, sequer em intenção.
Um outro espírito inquieto reconheceu que as “discussões e o próprio Fórum foram muito fragmentados”; um segundo afirmou que, no Fórum, “continua havendo uma hierarquização de lutas e visões”; um terceiro, muito sincero, confessou ainda que estavam saindo dali “sem uma agenda política clara”, o que eu só posso lamentar. Eu estava justamente esperando que eles emergissem de Porto Alegre com uma agenda política clara, para eu poder criticar, e agora fico sem nenhum insumo para meus escritos provocadores. Não é justo! Quero meu dinheiro de volta!
Essa falta de definições mais precisas sobre o outro mundo possível deixa confusos os estudantes universitários, que, com perdão da expressão, são a principal massa de manobra dos velhacos coordenadores do FSM, aqueles franceses da ATTAC e seus imitadores tupiniquins (não confundir com os tupis-guaranis do major Quaresma; ele não gostaria). Um líder do movimento estudantil – não está dito que se trata de um desses assalariados do PCdoB, com 32 anos – questionou o conteúdo das discussões: “Fiquei preocupado porque em todas as atividades que eu participei era recorrente a pergunta sobre qual caminho devemos seguir. Via de regra, eu desconfio de quem tem muita certeza e de quem diz que sabe como será o socialismo de um século que começou agora”, disse ele. Estou com ele; eu também desconfio, sobretudo porque nem o coronel petrolífero conseguiu explicar direitinho como funcionaria (ou não) o seu socialismo, que aparentemente está fazendo água.
O mesmo estudante discordou da necessidade de um consenso apontada por vários debatedores como o caminho obrigatório para construção do socialismo do século 21: “Uma agenda consensual é impossível. Falar que a gente é a favor da democracia e contra o aquecimento global não nos diferencia de ninguém”, avaliou. Para ele, seria preciso “detalhar essas questões e radicalizar as discussões”. Pois bem, nisso eu acho que ele está redondamente enganado: eles não são, justamente, a favor da democracia, pois do contrário estariam se solidarizando com seus colegas venezuelanos que, naquele mesmo momento, estavam protestando nas ruas a favor da democracia e da liberdade de expressão. Os altermundialistas, os antiglobalizadores e todos os demais representantes daquela fauna variada reunida em Porto Alegre, velhos ou jovens, se diferenciaram justamente de muitos outros estudantes ao redor do mundo pela sua total falta de sensibilidade com respeito à tragédia autoritária em curso na fazenda petrolífera que passa por um experimento de “socialismo do século 21”. Eles não se deram conta, ainda, que sob a aparente roupagem progressista, esquerdista, anti-imperialista ou socialista, sob a qual se esconde o ditador de opereta, encontra-se, na verdade, um discípulo de Mussolini, um fascista da mais pura gema.
Os jovens idealistas, que ainda não tiveram tempo de ler bons livros a esse respeito, talvez não saibam que a história esteja agora se repetindo como farsa. Os mais velhos, que sabem identificar a natureza do fascismo, mas que preferem ficar calados, por conveniência política ou por oportunismo econômico, são desonestos intelectualmente, e só merecem um qualificativo: são velhacos consumados…
Paulo Roberto de Almeida é Doutor em ciências sociais pela Universidade de Bruxelas (1984); diplomata de carreira do serviço exterior brasileiro desde 1977; professor de Economia Política Internacional no Mestrado em Direito do Centro Universitário de Brasilia – Uniceub; autor de diversos livros de história diplomática e de relações internacionais (pralmeida@mac.com).

02/02/2010


Ben Hazrael ,
Eu nao defendo nem Davos, nem Porto Alegre, e nunca achei que capitalistas fossem seres dotados de racionalidade superior aos academicos, cidadaos bem informados, estudiosos abertos, etc. Eles apenas tem a obrigacao de produzir lucros para si mesmos ou para seus acionistas, apenas isso, e nao sao modelos de sustentabilidade, até que isso represente lucros tambem.
Voce condena a economia neoclassica, nascida no ultimo terco do seculo 19, por algo que ela nao tinha nenhuma capacidade de prever e de incorporar as suas equacoes.
Os capitalistas, economistas e academicos que trabalhavam naquela epoca nao estavam, e nem podiam estar, preocupados com o esgotamento dos recursos naturais e com a poluicao ambiental, algo muito pouco disseminado 140 anos atras, nao havia sequer consciencia desses problemas, numa epoca de demografia galopante e de terras “disponiveis” para serem exploradas.
TODA doutrina economica reflete a sua epoca, e o keynesianismo é tao demodé quanto o marxismo ou a economia neoclassica justamente.
Seria apenas necessario constatar que modelos economicos sao necessariamente limitados e falhos, e que o problema ambiental ja deveria ter sido incorporado as equacoes de equilibrio de mercados, assim como o PIB deveria refletir a “amortizacao” da natureza.
O que eu quis dizer é que essas coisas aparecem, tanto mais rapido que os mercados podem refletir a escassez relativa dos bens atraves dos precos, coisa que Davos faz muito melhor do que Porto Alegre, que acha que um bando de burocratas governamentais podem saber melhor do que os agentes economicos qual a melhor versao da teoria economica aplicar.
Paulo Roberto de Almeida
Cui prodest (Ou, para quem escrevo?)
De vez em quando eu perpetro a ousadia de escrever para o Mundorama. Ou melhor, seus responsáveis é que cometem a ousadia de me publicar, posto que eu não escrevo especialmente para o Mundorama, em todo caso muito raramente, ou quase jamais, escrevo pensando no Mundorama, que é um boletim muito simpático e variado de relações internacionais, animado por esse gigante (stricto et lato sensi) da didática internacionalista que é o professor Antonio Carlos Lessa.
Pois bem, meu último coup pervers foi um post sobre o inacreditável Fórum Social Mundial. Digo inacreditável, pois que nem mesmo seus promotores desonestos acreditam de fato nas bobagens que eles dizem (se o fizessem, além de desonestos, seriam ingênuos, o que talvez seja muito pior). Eles apenas vivem daquilo, de preferência sem trabalhar, com dinheiro público, ou melhor, com o meu, o seu, o nosso dinheiro. Como eu tenho alergia a burrice, mas ojeriza absoluta à desonestidade intelectual (se a palavra se aplica), eu não deixo passar uma oportunidade para cobrar um pouco, só um pouco, de coerência nas ideias (if any), como se isso fosse possível (mas, não custa cobrar, e eles deveriam pelo menos tentar).
Meu último post foi este acima:
http://mundorama.net/2010/02/02/triste-fim-de-policarpo-social-mundial-por-paulo-roberto-de-almeida/“>Triste Fim de Policarpo Social Mundial, por Paulo Roberto de Almeida
2010 fevereiro 2
Recebi, como seria de se esperar sendo tão provocador (confesso que deliberadamente), muitos comentários, alguns sorrindo comigo ante tantas inconsequencias desse bando de malucos que são os antiglobalizadores, outros indagando questões específicas (que respondo quando consigo entender, o que nem sempre é o caso), e um ou dois, finalmente, me criticando, o que é sempre bem-vindo (e agradeço sinceramente, não hipocritamente; tenho vários defeitos, mas não o dom da hipocrisia).
As criticas são de dois gêneros, e já descarto a primeira por inepta, incompetente ou descartável:
1) Eu seria um apologista do capitalismo, do neoliberalismo, seja lá o que for isso, e meus argumentos estariam errados, pois o capitalismo é de fato perverso, etc, etc, etc. Bem, digo que é inepta pois as pessoas que fazem esse tipo de rejeição de minhas críticas às posições dos antiglobalizadores, nunca, NUNCA, dizem em que as propostas dos maluquetes do FSM teriam alguma coerência intrínseca (ou até extrínseca, vá lá). Por outro lado, eu não sei porque ainda ando de carro velho e de baixa potência sendo um defensor tão acirrado do capitalismo: Wall Street certamente ainda não ouviu falar de mim, e ainda não me colocou no seu contracheque. Bem, não quero me estender, mas essas pessoas não distinguem racionalidade econômica e raciocínio lógico da simples peroração ideológica: elas devem estar com o parafuso dos modos de produção um pouco desajustados, e a cada momento de distração, soltam um capitalismo para variar. Elas talvez não saibam a diferença entre capitalismo e economia de mercado, ao que eu diria: minha gente, leiam Max Weber, leiam Fernand Braudel, leiam Albert Hirschmann, Jean Baechler (não confundir com o Jean Ziegler, por favor, pois este é do bando de perfeitos idiotas).
2) A segunda crítica é aparentmente mais “séria”, mas ela se engana totalmente de foco. Diz um desses jovens afoitos que se o FSM não fosse importante, eu não estaria escrevendo tanto sobre ele. Se eu insisto em voltar ao assunto, repetidamente diz ele, é porque suas ideias (sic, tres vezes) sao relevantes.
Bem, esse jovem ainda não percebeu uma coisa: eu escrevo justamente para ele, não para o bando de velhacos desocupados que animam e promovem esses piqueniques anuais sem qualquer relevância para o mundo real.
Repitam comigo: nada do que se diz ou se aprova, unanimemente (comme il faut, quando se trata de pensamento único) nesses encontros regados a slogans vazios tem a mínima importância para o mundo real. Nada, nadica, necas de pitibiribas. Quem quiser me provar o contrário, ou seja, que alguma nova e relevante proposta emergiu desses jamborees, eu posso oferecer um livro ou dois. Precisando: que tenha emergido do FSM, não que já exista nas faculdades de humanidades — que também produzem uma tonelada de ideias inuteis — ou que circule na sociedade como produção, digamos, intelectual.
Pois eu escrevo justamente para esses jovens idealistas que querem salvar o mundo dele mesmo, ou melhor, salvá-lo do capitalismo globalizador (ou vice-versa), mas que ainda leram pouco, estudaram menos ainda, e aprenderam só um tiquinho (e, no que depender de certos professores, vão aprender menos ainda, no que lhes resta de diversão universitária).
Como eu sou uma pessoa que aprendeu nos livros ou com pessoas mais espertas, considero ser assim meu dever, digamos, espiritual, transmitir um pouco do que aprendi a esses jovens sedentos de sabedoria globalizante, mas que acabam encontrando apenas essas fontes barrentas da pilantragem universitária e das imposturas intelectuais desses velhacos da antiglobalização.
Que posso fazer? Tenho essa vocação didática voluntária — e já vou avisando que não é dela que retiro meu sustento, nem faço desse hobby minha ocupação principal — e por isso fico assim de noite escrevendo para esses moços — como diria o Lupiscínio Rodrigues — que não sabem o que eu sei. Não por qualquer virtude extraordinária, ou inteligência excepcional, longe disso. Eu sou apenas um gajo esforçado, que lê muito, que pensa muito sobre o que leu, observou e retirou de sua experiência de vida, e que coloca essas reflexões à disposição dos mais jovens, posto que eu também já fui jovem e tive professores honestos e outros desonestos (talvez involuntariamente, concedamo-lhes essa dúvida).
Finalizando, meu jovem, você que me acusa de bater em “cachorro morto” (talvez seja bem o caso), não é para o cachorro que estou escrevendo, nem para os “donos” dos cachorros, pois estes já incorporaram o cérebro dos cachorros.
Estou escrevendo para você mesmo, e apenas aconselhando-o a abrir os olhos, ler e se informar um pouco mais, viajar pelo mundo (Davos é uma excelente estação de esqui, mas talvez você ainda não tenha dinheiro para ir lá), enfim aprenderem, de preferência de maneira autodidata, pois sempre se deve desconfiar de professores (inclusive deste que aqui escreve).
Ser cético é um dever, mas deve-se sempre cultivar um ceticismo sadio, ou seja, opor ideias melhores, e mais coerentes, a ideias más, que são estas que não se conformam à realidade empírico, que não seguem os mínimos preceitos da lógica formal, enfim, que ficam no slogan vazio em lugar de ir para a pesquisa e confrontar os números. Ou seja, exatamente essas que estão no centro (e nas bordas também) do FSM.
Eu, na verdade, estou pouco preocupado com os velhacos do FSM, meu objeto próprio são os jovens. Como observo com certa preocupação a marcha da mediocrização na universidade brasileira, e como constato que os jovens que me escrevem cada vez escrevem mais mal, sem uma exposição coerente das ideias, sem se fazer entender direito, eu me sinto, como dizer?, compelido a escrever estas bobagens que escrevo noite adentro, para ver se evito um pouco da mediocrização em curso e contribuo, minimamente que seja, com a tarefa da elevação intelectual de jovens como esse que me escreve me acusando de apologista do capitalismo.
Acho que ele não encontrou argumentos para me rebater, e aí foi logo sacando o capitalismo e o neoliberalismo. Puxa vida, está ficando aborrecido debater assim…
Paulo Roberto de Almeida (18.02.20100)
Gilmara,
Seu post demorou para entrar e eu fiquei lhe devendo uma resposta publica, ainda que tardia.
Voce nao precisa pedir um milhao de desculpas, alias, nem duas, nem nenhuma.
Que escreve publicamente, e provocadoramente, tem mesmo de ser criticado, ou pelo menos se sujeita a ter seus argumentos expostos a debate, execracao publica, denuncia, ridicularizacao, ou simples contestacao. Seja o que for, voce está em seu pleno direito de me criticar, ou aos meus argumentos.
Confesso a voce, porem, que nao consegui encontrar em seu texto tao “desculposo” nenhuma critica direcionada a algum argumento meu em especial.
Voce diz que eu fiz sarcasmo, o que nao tenho nenhum problema em reconhecer.
Eu sou assim: quando acho alguma ideia ridicula, eu tenho a petulancia de dizer publicamente que essa ideia é ridicula.
O FSM, por exemplo, eu acho que é um jamboree de jovens idealistas, manipulados por velhacos mal intencionados, que sao profundamente desonestos (nao intelectualmente, pois o termo nao se aplica a eles) conceitualmente, e que só tem ideias ridiculas para expor.
Quem discordar de mim, pode dizer, mas nao adiante me xingar, ou dizer que estou errado.
PRECISA DIZER, CLARAMENTE, QUAIS IDEAIS (IF ANY) DESSE BANDO DE VELHOS ANTIGLOBALIZADORES RIDICULOS SE SUSTENTA NAS QUATRO PATAS.
Ou seja, precisa provar que alguma ideia faz algum sentido, por minimo que seja. Nao deixo por menos. Quem faz afirmacoes, tem o dever de provar.
Eu, em meus textos, digo porque, como, em que condicoes, as propostas desse bando de frustrados politicos e incompetentes economicos sao absolutamente non sense, surrealistas, coisas de Groucho Marx, ou talvez de dadaistas desvairados.
Voce Gilmara, diz que os argumentos contrarios ao FSM (que seriam supostamente os meus) tb sao improdutivos, mas nao diz em que, como e por que. Sinto muito mas nao consigo saber o que voce quis dizer e portanto nao posso debater.
Se voce afirma algo, tem o dever de expor claramente o que pretende, do contrario nao existe debate.
Por outro lado, concordo com voce sobre a inutilidade completa de muitas reunioes multilaterais, mas sinceramente nao sei do que voce esta falando quando critica as elites da AL: o que, ou quem está em causa aqui?
Voce está falando do Hugo Chaves, do Alvaro Uribe, dos neoliberais, dos bolivarianos, todos eles sao elites, algumas mais esclarecidas do que outras.
Existem pessoas, por exemplo, tao reacionarios que, ao tentar criar uma fantasia do seculo 21, estao na verdade voltando ao seculo 19. Como diria Marx, querem fazer girar para tras a roda da Historia. Nao tem maior reacionarismo do que isso, com a agravante de desmantelar a economia.
Como esse tipo de filme ja foi visto na América Latina, no socialismo real, e atualmente em Cuba, so posso concluir que seus promotores ou sao masoquistas politicos, ou esquizofrenicos economicos, em todo caso, malucos completos.
Politicas economicas, sociais, o que voce quis dizer.
Sinto muito Gilmara, mas nao sei onde voce quer chegar. Acho que voce precisaria aprender a explicar melhor suas posicoes.
Quando voce tiver criticas claras, perguntas precisas a fazer, eu terei prazer em responder…
Paulo Roberto de Almeida (17.02.2010)
Clayton,
Cada palavra tem de vir sustentada nos fatos:
1) Voce poderia dizer aos leitores qual seria o importante papel do FSM, por favor?
2) Quais seriam as politicas publicas, nacionais e internacionais, que ele influenciou?
3) Se o seu papel foi reativar a esquerda, deve cair naquela categoria da repeticao da Historia; voce sabe qual é, nem preciso lembrar…
4) Voce pode indicar de qual artigo na REA este novo artigo foi copiado: tem de provar que foi copiado, comparando textos, fazendo tabelas de correspondencia, etc; se nao conseguir provar, ou você é um mentiroso, ou é um ingenuo, ou é um abusado, talvez os tres ao mesmo tempo…
5) Quanto a Venezuela, creio que voce ainda nao teve tempo de ler sobre as trajetorias de Mussolini e Hitler, e ver quais medidas eles tomaram, o primeiro entre 1924 e 1936, na construcao do Stato totale, o segundo nos primeiros meses de 1933, entre fevereiro e junho. Leia um pouco de História, rapaz, isso ilustra.
Paulo Roberto de Almeida