Todos aqueles medianamente familiarizados com a literatura brasileira, já devem ter lido ou, pelo menos, ouvido falar – inclusive por causa de um filme realizado muitos anos atrás – do romance meio humorístico, meio trágico, de Lima Barreto sobre o major Policarpo Quaresma, um militar idealista e ultranacionalista que tinha grandes projetos para o Brasil, todos extremamente bem intencionados e, em sua essência, humanistas, mas que, se aplicados, invariavelmente trariam mais problemas do que soluções à jovem República positivista. Não preciso falar aqui do “triste fim” do major Quaresma, tanto porque não estou prevendo o mesmo final infeliz para nossos bravos antiglobalizadores e suas propostas surrealistas. Por certo não vamos fazer como o Marechal Floriano, que dizia que receberia seus inimigos a bala, inclusive porque não considero essa tribo de sonhadores como meus inimigos intelectuais; se tanto, eles são um pequeno bando de idealistas equivocados, apenas os mais jovens, porém; não, obviamente, os velhacos de má-fé que tentam ludibriá-los.
Algumas dessas propostas são verdadeiramente inocentes, ingênuas segundo os menos pacientes com esse tipo de brincadeira, em todo caso inócuas, em sua cândida inconsequência. Outras, em contrapartida, seriam essencialmente prejudiciais, ou até mesmo perigosas, se o tal de “outro mundo possível” desses altermundialistas servisse de critério para a formulação e implementação de políticas públicas. A julgar, todavia, pelo apoio que todos eles deram a um outro militar, bem menos pacífico que o nosso Policarpo, aquele coronel que lidera uma fazenda petrolífera ao norte do continente, pode-se imaginar que eles pretendam aplicar aqui, e em todo o mundo, as geniais lições de economia política que vem sendo aplicadas com tanto afinco naquela nova “fazenda dos animais” (apud Orwell). Creio que todos podem imaginar o que aconteceria se o novo e mais agressivo coronel estendesse suas práticas bizarras de política econômica a todo o mundo possível ao alcance de suas propostas alopradas.
Independentemente da aplicabilidade, ou não, das lições econômicas desses novos personagens de comédia, pode-se perguntar qual o balanço a ser feito do último convescote do Fórum Social Mundial, que prometia comemorar dez anos de eventos e dele retirar ideias concretas para construir um outro mundo possível. Confesso que li atentamente todos os resumos generosamente preparados pelos organizadores sobre cada um dos painéis de discussão, e deles retirei não mais do que algumas frases geniais, dessas que poderiam servir para compor mais uma brilhante coletânea dessas “pérolas de vestibular” que professores mal intencionados recolhem de alunos distraídos para incitar gargalhadas na galera. Em todo caso, vejamos as geniais contribuições que emergiram do “encontro síntese” do FSM, em seu último dia.
Todas as minhas citações foram retiradas do resumo relativo ao dia 29 de janeiro, quando, segundo os responsáveis, “os participantes foram convidados a dar as suas impressões sobre o evento e fazer propostas tanto para os próximos fóruns como para a construção de um outro mundo possível” (ver: “Sistematização das Grandes Questões e Contribuição para o Processo Fórum Social Mundial”; disponível neste link: http://seminario10anosdepois.wordpress.com/2010/01/30/resumo-29-01-sistematizacao-das-grandes-questoes-e-contribuicao-para-o-processo-forum-social-mundial/). Meu esforço neste resumo do resumo, consiste apenas em reordenar as sugestões apresentadas e sobre elas formular meus comentários à la Lima Barreto.
A maior parte das propostas pode ser incluída na categoria de “inócuas”, das quais cito apenas algumas, justamente pela absoluta inconsequência dessas sugestões. Sugeriu-se, por exemplo, a “formação de uma rede colaborativa de movimentos sociais para estimular a troca de experiência e permitir organizações que trabalham pela mesma causa, em diferentes locais, se articularem em torno de uma determinada luta”. Parece incrível essa sugestão: se não é isso que as organizações e movimentos sociais estavam fazendo nesses dez anos, onde eles estiveram então?: jogando bridge?
Um outro gênio da raça propôs que se adotasse uma “metodologia que inclua nos painéis, além de intelectuais, pessoas que estão vivendo os problemas ou as soluções apresentadas”. Inteligente essa, mas pode-se perguntar por que eles confiam tanto nos seus “inteliquituais”, as pessoas menos propensas, justamente, a falar e a ouvir “pessoas comuns”. Não faltou, tampouco, quem recomendasse que se incluísse nos debates do Fórum uma “variedade maior de profissionais, como os de tecnologia”. Incrível mas verdadeiro: como no caso da sugestão anterior, os antiglobalizadores já não sabem o que decidir, se não se cercarem de pessoas comuns e de tecnólogos. Bem, desejo sorte a eles: antes tarde do que nunca. A impressão que se tem, contudo, é a de que os antiglobalizadores não tem a mínima idéia do que pensar (se é verdade que eles já conseguiram chegar a essa conclusão).
Surgiram também propostas que poderíamos chamar de “policarpianas”, que são de natureza idealista, ou ingênua, mas que podem encantar o público leitor. Foram aquelas que prometeram um mundo novo, mas que não se sabe quando e onde elas serão aplicadas, ou sequer se elas tem, realmente, condições de serem implementadas. Entre as mais brilhantes selecionei estas duas, antológicas: “estimular mudanças no comportamento dos indivíduos” (juro que está lá, mas confesso que não sei por onde eles vão começar); “melhorar a infra-estrutura do Fórum com serviços médicos” (será que o pessoal do FSM sofreu com diarréias, picadas de mosquitos, coisas do gênero?).
Uma delas não pode ser classificada nem de proposta, nem de sugestão, ou de qualquer outra coisa, pois ela apenas reflete o estado de confusão mental dos participantes do FSM. Transcrevo literalmente: “Tirar uma posição do Fórum a respeito das mudanças climáticas: queremos um desenvolvimento econômico que inclua a todos e gere trabalho ou vamos defender o crescimento zero para reduzir as emissões?” Bem, não sou eu quem vai ajudá-los a resolver a quadratura do círculo, mas eu diria simplesmente isto. Este nosso mundo possível não vai esperar que eles se resolvam – e aposto com vocês que ainda não teremos uma solução no 20o. encontro do FSM, em 2020, portanto – e vai continuar gerando empregos e distribuindo renda com todas essas tecnologias poluidoras do capitalismo, mas que, paulatinamente, vão se tornar mais e mais consistentes com esse palavrório inútil do ‘desenvolvimento sustentável’ a partir da correta aplicação dos princípios da microeconomia aos processos produtivos (sabem?: aquela coisa da precificação correta, com a escassez relativa dos bens no âmbito de uma economia de mercado com livre circulação de fatores; enfim, isso está nos manuais de economia que eles ainda não leram).
Bem, a proposta “policarpiana” mais incrível que eles formularam está aqui, e eu a transcrevo por inteiro: “Investir para que a infra-estrutura do Fórum reflita minimamente o que está sendo discutido. Para isso, banir a participação de empresas transnacionais no evento e no lugar delas, usar serviços locais e economia solidária. Assim, o Fórum falará não só para seus participantes como para toda a sociedade, apontando alternativas concretas para um outro mundo possível”.
Parbleu! Eu me pergunto como é que os antiglobalizadores vão fazer sem os seus celulares Nokia, Motorola, Samsung, LG, Sony Ericsson, BlackBerry e iPhone. Como eles vão se comunicar sem Hotmail, Gmail, Yahoo, sem Skype e MSN? Como eles vão buscar suas bobagens sem o Google e a Wikipédia? Como eles vão dispensar os computadores dessas multinacionais perversas?: vão pedir substitutos ao Chávez, ao Raul Castro, ao Ahmadinejad? Acho que não vai dar certo; o FSM simplesmente vai parar de funcionar. Nem mesmo o ultranacionalista major Quaresma poderia se deslocar pelos bairros do Rio de Janeiro sem os bonds da Light, nem conseguiria se comunicar sem os telegramas da Western Union. Bem, não vai acontecer, claro…
Não faltaram, finalmente, propostas que poderiam ser classificadas de “chavistas”, como esta pérola de um antiglobalizador não identificado: “melhorar as conexões com a China e trazer o país de fato para as discussões do Fórum”. Essa é a melhor: o país asiático acaba de brigar com a Google, condenou a dez anos de prisão um advogado de causas políticas que assinou um simples manifesto pedindo liberdade de expressão e de opinião e mantém uma censura férrea sobre a internet, e os anti ainda querem trazê-lo para as discussões do FSM? Bem, pode ser que os chineses de fato concordem: depois de quarenta anos de socialismo delirante, eles começam, modesta mas rapidamente, a construir o seu capitalismo com características chinesas e os altermundialistas teriam muito a aprender com os novos plutocratas.
Mas nem só de sugestões impossíveis viveu o FSM; algumas críticas foram formuladas. Alguém disse que “faltaram análises mais profundas sobre a conjuntura social e os impactos do capitalismo no nosso dia-a-dia”; eu também acho que faltou muita coisa no Fórum, mas peço que me incluam fora dessa parte sobre os impactos do capitalismo no “meu” dia-a-dia. Eu sei exatamente qual é esse impacto, em termos de oferta de bens e serviços, de liberdade de escolha, de diversidade de chances de torrar o meu dinheiro, enfim, tudo aquilo que me vier à cabeça e couber no meu bolso, algo que, infelizmente, nem cubanos, nem venezuelanos, nem talvez outros povos cultuados pelos altermundialistas podem, hoje, fazer livremente, sequer em intenção.
Um outro espírito inquieto reconheceu que as “discussões e o próprio Fórum foram muito fragmentados”; um segundo afirmou que, no Fórum, “continua havendo uma hierarquização de lutas e visões”; um terceiro, muito sincero, confessou ainda que estavam saindo dali “sem uma agenda política clara”, o que eu só posso lamentar. Eu estava justamente esperando que eles emergissem de Porto Alegre com uma agenda política clara, para eu poder criticar, e agora fico sem nenhum insumo para meus escritos provocadores. Não é justo! Quero meu dinheiro de volta!
Essa falta de definições mais precisas sobre o outro mundo possível deixa confusos os estudantes universitários, que, com perdão da expressão, são a principal massa de manobra dos velhacos coordenadores do FSM, aqueles franceses da ATTAC e seus imitadores tupiniquins (não confundir com os tupis-guaranis do major Quaresma; ele não gostaria). Um líder do movimento estudantil – não está dito que se trata de um desses assalariados do PCdoB, com 32 anos – questionou o conteúdo das discussões: “Fiquei preocupado porque em todas as atividades que eu participei era recorrente a pergunta sobre qual caminho devemos seguir. Via de regra, eu desconfio de quem tem muita certeza e de quem diz que sabe como será o socialismo de um século que começou agora”, disse ele. Estou com ele; eu também desconfio, sobretudo porque nem o coronel petrolífero conseguiu explicar direitinho como funcionaria (ou não) o seu socialismo, que aparentemente está fazendo água.
O mesmo estudante discordou da necessidade de um consenso apontada por vários debatedores como o caminho obrigatório para construção do socialismo do século 21: “Uma agenda consensual é impossível. Falar que a gente é a favor da democracia e contra o aquecimento global não nos diferencia de ninguém”, avaliou. Para ele, seria preciso “detalhar essas questões e radicalizar as discussões”. Pois bem, nisso eu acho que ele está redondamente enganado: eles não são, justamente, a favor da democracia, pois do contrário estariam se solidarizando com seus colegas venezuelanos que, naquele mesmo momento, estavam protestando nas ruas a favor da democracia e da liberdade de expressão. Os altermundialistas, os antiglobalizadores e todos os demais representantes daquela fauna variada reunida em Porto Alegre, velhos ou jovens, se diferenciaram justamente de muitos outros estudantes ao redor do mundo pela sua total falta de sensibilidade com respeito à tragédia autoritária em curso na fazenda petrolífera que passa por um experimento de “socialismo do século 21”. Eles não se deram conta, ainda, que sob a aparente roupagem progressista, esquerdista, anti-imperialista ou socialista, sob a qual se esconde o ditador de opereta, encontra-se, na verdade, um discípulo de Mussolini, um fascista da mais pura gema.
Os jovens idealistas, que ainda não tiveram tempo de ler bons livros a esse respeito, talvez não saibam que a história esteja agora se repetindo como farsa. Os mais velhos, que sabem identificar a natureza do fascismo, mas que preferem ficar calados, por conveniência política ou por oportunismo econômico, são desonestos intelectualmente, e só merecem um qualificativo: são velhacos consumados…
Paulo Roberto de Almeida é Doutor em ciências sociais pela Universidade de Bruxelas (1984); diplomata de carreira do serviço exterior brasileiro desde 1977; professor de Economia Política Internacional no Mestrado em Direito do Centro Universitário de Brasilia – Uniceub; autor de diversos livros de história diplomática e de relações internacionais (pralmeida@mac.com).

02/02/2010


Fico agradecido pela atenção que o sr. disponibilizou ao responder aos pontos levantados pelos comentaristas de seu artigo.
Embora alguns pressupostos sejam comuns na Economia entre a abordagem neoclássica e da economia ecológica, é necessário esclarecer que a Economia Ecológica presta maior atenção ao tripé (1) escala, (2) distribuição e (3) atribuição de forma muito mais acentuada que a microeconomia, por relacionar diretamente a questão da sustentabilidade dos ecossistemas e por ver a economia como parte do ecossistema e não como algo exógeno ou, pior, percebendo o ecossistema como parte da economia e não o contrário; o que resulta, ao se avaliar a forma como determinado modelo econômico (seja prezando o crescimento ou desenvolvimento econômico, mas entendendo-os como elementos diferentes e não necessariamente correlacionados) é vigorante, num verdadeiro modelo de depreciação dos recursos naturais, impactando não apenas a vitalidade do ecossistema, mas também as futuras gerações humanas. Inclusive, neste último ponto, Professor Paulo Roberto de Almeida, considero o grande fracasso do modelo neoclássico econômico na explicação de determinadas externalidades negativas que se desdobram em impasses políticos no processo de tomada de decisão relativo a formulação de políticas ambientais bem como na gestão econômica do meio ambiente.
Então, considero que discutir novos modelos de desenvolvimento de caráter mais sustentável, sim, sem problema com essa terminologia, seja útil. Seja em Davos ou Porto Alegre. O que não concordo e aceito é a aceitação tácita de que “é isso ai”. O Fórum Social é fundamental como espaço de debate e criação de alternativas, com aspectos positivos e negativos. Ou o sr. acredita que em Davos, tudo ocorre de acordo com o padrão neoclássico de “racionalidade e informação perfeita” e por isso um espaço mais maduro e sem imperfeições? Seria inocência, em minha opinião. Até mesmo porque a discussão sobre a maior regulamentação sobre o sistema financeiro parecia um tema batido e “socialista” até alguns anos atrás… e o que vemos hoje? Ironia da vida.
A Venezuela já é uma ditadura? Faça-me o favor! Pode até ser que um dia venha a sê-lo, pode até ser que o Chávez gostaria que assim o fosse e pode até ser (embora nisso eu não creia) que seja ele quem um dia assim a tornará, mas decretar que a Venezuela é hoje uma ditadura, não é coisa de analista político sério. No hipotético caso de que em 5, ou 10, ou 20 anos a Venezuela se tornasse uma ditadura pelas mãos do Chávez não é o suficiente para dizer que há hoje ela assim o é. Menos propaganda, senhor PRA, menos propaganda!
PRA, sempre tentando usar sua erudição de doutor para ser o propagandista politicamente incorreto do capitalismo desenfreado, travestido de humorista. O FSM desempenhou um importante papel e pode até ter se esgotado, mas já cumpriu bastante na reativação da esquerda no mundo e especialmente na América Latina. Mas deixa ele continuar enterrando o defunto reiteradas vezes, isso só demonstra a importância do “morto”. Apenas nova versão de artigo já antigo e igualmente lamentável publicado na Revista Espaço Acadêmico.
Agradeço aos meus leitores a gentileza dos comentários, o que evidencia que, mesmo sendo contrários (nao todos), pelo menos tiveram o cuidado de comentar.
Formulo apenas algumas reações a temas e argumentos mais contundentes.
1) Luiz Fernando Barreto Lima
China, Venezuela, Cuba e outros países da mesma estirpe, nao vivem apenas sob uma bandeira social (e se for, está completamente esfarrapada), e sim sob ditaduras. Cuba e Coréia do Norte são totalitarismos, a China é uma plutocracia e hoje é mais capitalista do que o Brasil, mas acho que você nao sabe disso. A Venezuela já é uma ditadura, mas as pessoas pensam que se trata apenas de um coronel de esquerda bem intencionado. Acho que nao leram sobre o Mussolini…
Acho que você deveria ler um pouco mais sobre Cuba, se informar melhor.
Marx tinha um amigo que se chamava Engels. Hengel deve ser algum filosofo de Ipanema, mas sinceramente eu nao conheço…
Meu caro, eu so posso lhe sugerir um pouco mais de leitura e estudo, pois acredito que você tem poucas informações sobre a situação nos países que você cita.
2) Lívia Costa
Bem, você pode considerar se nao teria sido melhor empregar o seu dinheiro comprando livros, pagando pizzas, se divertindo com coisas mais amenas. Mas, sempre é útil conhecer a realidade do besteirol do FSM.
3) Você Amanha
Eu prefiro debater com pessoas que assinam embaixo do que escrevem, como eu por exemplo. Anônimos se permitem certas coisas que eu nao me permito. Por exemplo, assumo responsabilidade pelo que escrevo, penso e falo.
Acho que você deveria fazer o mesmo.
4) Gustavo Mendonça
Creio que você toca no ponto certo. Alguns ingênuos (mas muitos são de ma fé) ainda nao perceberam que Chávez tem o DNA do Mussolini.
5) Ben Hazrael
Concordo com você meu caro; eu deveria ter respeitado os eco-economistas sérios, mas o ponto nao era esse. Ou você acha que os antiglobalizadores ou altermundialista, como queira, leram os eco-economistas? Eles apenas condenam o capitalismo como predatório. As simple as that. A critica deles nao é econômica, é política. Eu apenas provoquei esse bando de ignorantes.
De toda forma, a eco-economia nao desmente nenhum dos pressupostos da microeconomia, mas eu nao estou defendendo nenhuma teoria neoclássica, nem disse que achava o crescimento econômico exponencial. Apenas disse que os mecanismos de mercado conseguem precificar a raridade relativa dos recursos naturais quando inseridos no processo produtivo. Se você quiser me desmentir pode faze-lo, mas sem palavrório inútil e sim com argumentos econômicos, macro ou micro.
Eu o escuto… e pode me escrever diretamente.
Obrigado.
Paulo Roberto de Almeida
Antes de tudo quero pedir desculpas, um milhão delas, mas devo discordar abertamente do autor do texto e, por contingência, de alguns comentaristas aqui. Eis o ponto fundamental: não vi nos comentários do professor Paulo Roberto um tipo refinado de humor, mas apenas uma ironia sarcástica que a meu ver se aproxima, mas muito de passagem, de algum preconceito social. Reitero, talvez tenha sido apenas uma impressão minha.
Após reler o texto pude ver que, assim como devem ser improdutivos muitos discursos produzidos no Fórum Social Mundial, igualmente são improdutivos muitos argumentos contrários aos movimentos sociais, logo ao próprio FMS.
Todavia, as atuais rodadas e reuniões promovidas pelos países “desenvolvidos” – vou incluir aqui também a COP-15 – também têm sido improdutivas. Há muito que esses encontros seguem diplomaticamente suas agendas internacionais, mas nada há neles de resoluções produtivas – e para nenhum de todos aqueles países!
Muito útil teria sido, melhor que um desabafo sobre um passeio pouco divertido, uma análise interessante sobre reais motivos do fracasso desses encontros. Bem, esse é o papel de cientistas sociais e diplomatas, a meu ver.
Mas é compreensível que nossa elite letrada pretenda se afinar mais com atitudes de países que se vangloriam como democráticos, mas que dão apoio indireto a golpes militares na América Central, América do Sul e que vendem armas a diversos países orientais – onde aliás chamam civis de “insurgentes” e de “terroristas”. É mais fácil isso do que tentar compreender as motivações que fazem reagir certos movimentos sociais, cujos participantes saíram das mesmas classes sociais marginalizadas como os atuais presidentes Lula e Evo Morales.
Parece ser menos complexo tomar a parte pelo todo, exemplos: Cuba de Fidel, Venezuela de Hugo Chaves e Honduras de Zelaya. A meu ver, além de vício de linguagem, esse também parece ser um vício intelecto-moral. Enfim, a meu ver, o professor nos mostra aqui que seus argumentos são tão frágeis e improdutivos quanto os do FMS, das rodadas, reuniões e etc…
Um ponto que considerei muito curioso da análise do Professor Paulo Roberto de Almeida foi:
“esse palavrório inútil do ‘desenvolvimento sustentável’ a partir da correta aplicação dos princípios da microeconomia aos processos produtivos (sabem?: aquela coisa da precificação correta, com a escassez relativa dos bens no âmbito de uma economia de mercado com livre circulação de fatores; enfim, isso está nos manuais de economia que eles ainda não leram).”
Assim como o autor sugeriu com humor ácido e quase britânico leitura da teoria econômica (enfaticamente a microeconomia ou economia neoclássica, como queira), eu sugiro que o Professor Paulo Roberto de Almeida leia mais sobre Economia Ecológica (coisa que não deve conhecer e se conhece não deve ter lido mais do que nota de rodapé). Porque “palavrório inútil” parece ser este que o autor reproduz com satisfação.
Da forma como foi exposta essa argumentação sobre o “desenvolvimento sustentável” o autor pareceu acreditar, de forma ingênua, que o crescimento econômico é exponencial, para ver mais sugiro ler Herman & Daly, Economia Ecológica. Poderia até me alongar, mas creio ser desnecessário, até porque nem sei se o autor averigua os comentários sobre seus artigos.
Excelente e bem-humorado texto. Ninguém nega que a combinação de capitalismo com democracia tenha seus problemas, notadamente desigualdade social. Não obstante, soluções possíveis e construtivas devem ser buscadas para aperfeiçoar o sistema, não proposições descabidas e impraticáveis. É lamentável que, ainda hoje, muitos no Brasil não percebem o regime de Chávez como o que realmente é: uma autocracia. Chávez suprime as liberdades individuais dos venezuelanos alegando saber, melhor do que eles próprios, quais são suas necessidades. Tal governante, onisciente e benevolente, simplesmente não existe. O caminho para o desenvolvimento passa necessariamente pela defesa das liberdades individuais e pelo fortalecimento do cidadão médio. E nesse aspecto, a combinação de democracia e capitalismo permanece insuperável.
Neste mundo existem pessoas que gastam centenas de milhares de dólares com bonecas infláveis de luxo e hospedam seus cachorrinhos em hotéis cinco estrelas: já seria um mundo absolutamente ridículo e fracassado ainda que não houvessem as famigeradas criancinhas morrendo de fome quando não encontram aquela coxinha de 1 real para comer. É de surpreender que neste mundo um número considerável de doutores, diplomatas e professores de custosos centros universitários – o senhor Paulo Roberto se enquadra nas três categorias de porta-vozes do establishment – não consigam se manifestar senão como histéricos desprovidos de quaisquer qualidades críticas ou analíticas? E é de surpreender que neste mundo o idealismo e a ingenuidade se tornem uma necessidade elementar e uma virtude?
Adorei o seu texto. Com humor delicioso, você disse tudo sobre o FSM. Participei neste ano e fiquei profundamente decepcionada com a alienação e fachada que tantas pessoas se englobam. Mais uma vez, parabéns.
Caro Doutor Paulo Roberto de Almeida, li com atenção sua análise sobre o Fórum Social Mundial. Creio, assim como o Senhor, que além o FSM sua juventude idealista está realmente perdida em meios a tantos novos problemas oriundos de uma sociedade não social como a qual vivemos.
Porém, alguns pontos de vossa crítica me chamaram a atenção, não pela ironia utilizada em algumas passagens.
Quando o Sr citou China, Venezuela, Cuba e outros países que vivem sob uma bandeira social, e ao mesmo tempo vão contra algumas liberdades básicas conquistadas pela sociedades capitalistas (liberdade de expressão, democracia e outros), me trouxe alguns questionamentos. Alguns poucos países que hoje teoricamente vivem sob regimes sociais, deveriam realmente abrir mão do interesse do Estado para com a sua população por alguns interesses que poderiam ruir o sistema ali implantado? Por exemplo Cuba, que localizada a poucos KM´s dos Estados Unidos e proíbe seus cidadãos de ir e vir está errada em fazer isso? Será que os cubanos, se tivessem essa liberdade, não seriam fatalmente enganados pelo grande ciência do marketing, e acabariam achando que realmente é melhor ter um Big Mac a sua disposição do que viver em um lugar onde não há pobres, (já que não há ricos também).
Será que o Partido Socialista Chinês estava errado em limitar a produção e a liberdade de expressão do seu povo durante 40 anos, a fim de teoricamente garantir as mesmas condições para mais de 1 bilhão de pessoas. Caro Professor, diferente dessa juventude ingênua como o Senhor colocou, tenho total convicção que tanto China e Cuba não são e nem tampouco um dia foram sistemas sociais puritanos que pensou exclusivamente em seus cidadãos. Mas e o sistema capitalista, esse que garante ao Sr gastar seu dinheiro como bem entender garante o que a quem? o Sr. acha correto transformar arroz e feijão em mais um produto? Acha correto comer em restaurante de R$ 50 reais a refeição enquanto milhões de pessoas engordam comendo salgadinho de R$ 1,00 e ainda assim passam fome?
Entendo que o FSM possa ser sim mais uma cópia de um movimento Europeu, assim como é a sua riqueza e a nossa pobreza. Afinal de contar foram eles que nos descobriram (?)! Mas continuo a concordar que realmente estamos perdidos nessa discussão, pois afinal de contas, a linha de pensamento que se contrapõe a sistema atual já existe a mais de 100 anos, junto com Marx e Hengel. Uma época e região em que o problema era apenas no proletariado e do pequeno burgês, diferente daqui, porém, resolvemos importar mais uma solução.
Acredito que seria interessante espalharmos aos idealistas do FSM a última publicação do Le Monde Diplomatique Brasil (informativo também importada), onde é apresentado uma nova solução para os problemas de nossa sociedade, o Eco-socialismo, idéia essa bem tupiniquim, e porque não tupiguarani, pois os meus antepassados (indígenas) viviam em comunidades sociais respeitando a natureza, diferente do sistema capitalista, que lhe permite tantas coisas, mas deixará aos vossos netos tantos outros problemas. Sinceramente, espero que eles sejam tão idealistas quanto essa nossa juventude, pois eles terão que ajudar os meus a limpar o mundo.