A despeito de existir uma agenda institucional de regionalização transnacional comprometida com a segurança e defesa por meio da criação de um Conselho de Defesa Sul-Americano, a conjuntura atual aponta para um crescente rearmamento ou modernização dos arsenais dos países em função da compra massiva de armas.
Definida por um componente de defesa nos países sul-americanos que se assenta no reaparelhamento e na reatualização tecnológica das forças armadas, a atual conjuntura armamentista na América do Sul tem sido beneficiada por distintos canais de financiamento.
De um lado, estão petróleo venezuelano, o cobre chileno e os grãos brasileiros que foram responsáveis pelo aumento do nível das reservas internacionais dos respectivos países, em um contexto dinamizado pelas exportações e pela melhora nos términos de intercâmbio com o aumento do preço das commodities no período entre 2001 e 2008.
De outro lado, está a renovada associação militar Colômbia-Estados Unidos, com a difusão de programas de assistência estadunidense pelo Plano Colômbia com o objetivo direto de combater a produção e o tráfico de cocaína e indireto de consolidar uma política de ingerência estadunidense na região.
Em boa medida, o contextual aumento dos gastos militares na região advém do aumento da taxa de crescimento econômico dos países sul-americanos, o que proporcionou um aumento absoluto de recursos alocados aos ministérios de defesa, porém em um aumento relativo no percentual dos PIBs nacionais.
O processo regional de incremento nas compras de arsenal bélico na América do Sul vincula-se com um contexto maior de insegurança compartilhada produzido por novas e tradicionais ameaças e que afeta a distintos países em todas as regiões do globo e que repercutiu no pós 11 de Setembro de 2001 em aumento do armamentismo mundial.
Neste contexto, a América do Sul aumentou de maneira significativa os seus gastos militares em 50% ao longo da última década, seguindo atralada de maneira proporcional à tendência mundial de expansão de gastos, o que resultou, mesmo assim, na manutenção de um dos menores índices de investimento relativo na regionalização dos gastos militares em comparação com o resto do mundo.
Tabela - Regionalização dos gastos militares no mundo
| Região | Participação dos Gastos no mundo | Valor absoluto dos gastos | Variação dos Gastos
(1999-2009) |
| África | 2% | US$ 20.4 bilhões | +40% |
| Ásia e Oceania | 23% | US$ 281 bilhões | +53% |
| Oriente Médio | 6% | US$ 75.6 bilhões | +56% |
| Europa | 26% | US$320 bilhões | +14% |
| Américas | 49% | US$603 bilhões | +64% |
| América do Sul | 2,7% | US$34.1 bilhões | +50% |
| MUNDO | 100% | US$1226 bilhões | +45% |
Fonte: Tabulação própria. Baseada em dados de SIPRI (2009). www.sipri.org
Embora não haja uma corrida armamentista clássica pela busca de um rompimento do equilíbrio de poder na região registra-se que o processo de reaparelhamento e na reatualização tecnológica das forças armadas é conduzido por diferentes lógicas estratratégicas em cada país o que explica um padrão difereciado de gasto para cada país.
No Brasil, a renovação do arsenal advém da recente retomada de um planejamento político estratégico, a partir dos governos FHC e Lula, que busca ajustar a capacidade militar por meio de uma política externa de transferência tecnológica e industrial de áreas estratégicas conjugada a uma política interna de desenvolvimento científico, tecnológico e industrial em defesa, com o objetivo maior de potencializar um papel de relevo ao país no âmbito multilateral com o pleito de ingresso como membro permanente no Conselho de Segurança da ONU, e de liderança no âmbito regional com a criação do Conselho de Defesa Sul-Americano.
No Chile existe um padrão constante de compra de equipamentes militares com alto conteúdo tecnológico advindo de um baixo contingente humano nas forças armadas e do mais alto orçamento de um ministério de defesa na América do Sul, que foi legado constitucionalmente pelo ex presidente Augusto Pinochet por meio da Lei do Cobre que destina 10% das vendas do minério às forças armadas.
No caso do Peru, também negando uma corrida armamentista, existe uma política de reposição de equipamentos militares, com destaque para a aquisição de tanques chineses e aviões tucanos do Brasil, que tem sido feita sob o objetivo de gerar força dissuasiva, embora se balizando por equipamentos que tenham capacidade defensiva frente ao arsenal de países vizinhos, como o Chile, que possui uma sofisticada esquadrilha de caças.
Na Colômbia, a compra de equipamentos militares pouco sofisticados revela que o reaparelhamento colombiano acontece segundo este padrão de baixo conteúdo tecnológico, pois existe uma preocupação focada no emprego sistemático do maior contingente humano (400.000 militares) entre todas as forças armadas da América do Sul para operações contra as guerrilhas em razão do suporte trazido pelo acordo estratégico-militar com os Estados Unidos.
No caso da Venezuela, a compra diversificada de caças, tanques e metralhadoras a partir do governo de Hugo Chávez reflete uma preocupação com o rearmamento das forças armadas após 15 anos de baixos investimentos justamente em um contexto de difusão de um movimento socialista-bolivariano com perfil anti-americanista que teme agressão tanto da potência hegemônica e de seu principal alinhado político no sub-continente, a Colômbia.
Independentemente da retórica dos presidentes sobre a integração sul-americana, este processo de reaparelhamento produz um efeito de fragmentação na regionalização transnacional à medida que produz vetores de desconfiança entre os países vizinhas, com uma conseqüente blindagem militar das fronteiras, justamente em uma região que fora precursora das agendas de desarmamento.
Esta conjuntura de distensão toma relevo quando se observa que nos fóruns regionais, o reaparelhamento das forças armadas não é discutido ou quando se analisa que as mudanças governamentais na América do Sul trouxeram um novo status quo político-ideológico que coloca em extremos opostos países vizinhos.
As maiores ameaças nesta conjuntara, mais importante do que o volume dos gastos ou da capacidade bélica dos países, são justamente as divergentes intenções políticas e estratégicas que se formam fragmentando uma possível integração regional. Destacam-se nesta conjuntura fragmentadora as polarizações engendradas pelas apostas defensivas para derrotar o narcotráfico e as guerrilhas na Colômbia com auxílio externo dos Estados Unidos vis-à-vis às propostas expansivas do movimento socialista-bolivariano impulsionado pela Venezuela.
Elói Martins Senhoras é Professor do Departamento de Relações Internacionais e pesquisador do Núcleo Amazônico de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade Federal de Roraima – UFRR (eloi@dri.ufrr.br).

28/01/2010 

No plano militar, a tendência do mundo todo se armar cada vez mais, ( A indústria bélica agradece efusivamente.) sob meu ponto de vista, é absolutamente irreversível. O que importa daqui para frente é equilibrar e controlar impulsos beligerantes. No caso do Brasil, torna-se nescessário, ao longo do tempo, evidentemente, um segundo porta-aviões, maior, mais moderno. Quanto ao acordo com a França, para a construção de 4 submarinos convencionais e um movido à energia nuclear, vai aumentar considerávelmente nosso poderio e também nosso prestígio. Tenho números contraditórios em relação ao número de aviões de combate, mas acredito que dobrar a quantidade atual nos próximos dez anos estaria de acôrdo com o tamanho geral de nossas Fôrças Armadas. É por demais sabido que uma confrontação com armas nucleares em escala global seria mais ou menos como atear fogo na casa para livrar-se de um rato. Então, um certo número de países nescessitam ampliar e modernizar suas forças armadas, não para se envolverem em conflitos, que via de regra, desde o começo dos tempos só trazem destruição e sofrimento, mas apenas para manter um equilíbrio entre os países. Os Estados Unidos que tem um poderio militar gigantesco, é um caso à parte. Alguns países tem poderio nuclear no que se refere á armas. Outros querem entrar nesse clube. Também acho que seja uma situação mais ou menos, ou então completamente irreversível, se bem que possa ser de algum modo controlada. Enfim, há muito que se analizar daqui prá frente, e aguardemos para que tudo se mantenha equilibrado e controlável. Eu ainda aposto que o mundo todo gosta muito mais da paz, do que ostentar um poderio militar que algumas vezes tem propósitos beligerantes. Tudo isso que digitei partiu de um quase-leigo, portanto, sómente um expert poderia analizar este meu post.
naçôes não tem amizade,tem interesses (escusos ou não)…bons propósitos ficam só na retórica..como dizia Mao Tse Tung “o poder está no cano de um fuzil” e como chorou Lazaro Cardenas presidente mexicano quando disse: Pobre Mexico,tão longe de Deus,tão perto dos Estados Unidos!
O Brasil deve se armar…e se armar bem..
Muito interessante a observação professor Elói. Porém, penso que a nova dinâmica das Relações Internacionais ao redor do mundo e com atenção especial para a América do Sul é fruto de um mundo cada vez mais multipolarizado e híbrido no que tange as reais intenções dos atores em questão.
Segundo a História Geral, as nações ricas de hoje pilharam outras nações através de invasões, saques e o colonialismo, logo a corrida armamentista é mais um reflexo do emaranhado relacionamento de um mundo pós 11 de setembro, e com excasses de recursos naturais fundamentais a vida no planeta e o bem estar das sociedades.
Sou um leigo que um dia pretendo estudar Relações Internacionais e peço-lhe desculpas se meu pensamento não está de acordo com o que se discute no meio acadêmico..
visões de um autodidata…
Ao meu ver, ocorre que os respectivos líderes nacionais mencionados desencadeam sistematicamente mecanismos de defesa progressivos. A impressaõ que dá é de que ostentam nutrir pelo viés da força a estrutura dominante já explicitada. E que se preciso for, prontificados estarão a enfrentar os contrarios a sua linear conjuntura.
Muito Bom o post.
concordo com o que você escreveu.
meu comentário é que os países sul americanos estão primeiramente atualizando seus arsenais ,talvez não visando uma corrida armamentista em primeiro plano mas na pratica é exatamente o que acontece.
A diferença ideológica não seria o mair problema mas junto com a inflexibilidade e autoritarismo de alguns governos é o que me espanta.