Muitas ações sociais permitem observar a maneira como a realidade humana é intermediada pela linguagem. Basta pensar em comprar ou vender, por exemplo. O mesmo ocorre ao internacional, que também faz parte da realidade humana. Logo, entender o internacional seria uma questão de entender a linguagem, que por sua vez produz a realidade humana: eis o convite da análise de discurso em Relações Internacionais. É muito fácil realizar caricaturas sobre esta ideia. As mais comuns remetem à autoajuda, onde dizer seria o bastante para poder e conseguir. Outras, também comuns, remetem à retórica dos políticos, cujos dizeres são suspeitos de mascarar a realidade. Provavelmente é a partir destas críticas que se rotula o analista de discurso como “idealista” e “ingênuo”. Mas a verdade é que esta proposta científica surgiu de um profundo ceticismo. Entender isso demanda esclarecimentos que aqui serão feitos menos com citações e mais com ensaio, pela intenção declarada de se realizar um convite a esta abordagem filosófica e científica da realidade internacional.
Comecemos pelo próprio conceito de discurso. Os analistas no geral concordam em defini-lo como linguagem em ação (cf. Fairclough, 2001; Todorov, 1978); a problemática começa ao se pensar a função do discurso sobre a realidade. Qual seria o efeito real de se comunicar algo? Para explicar, recorro ao título do romance de Umberto Eco, “O Nome da Rosa”. É difícil saber o que pretendeu o autor com um título tão enigmático; mas este possui a virtude de fazer pensar a relação entre o nome e a rosa. Afinal, existe algo que se conveniou denominar “rosa”. Esta reúne as propriedades que se atribui ao objeto – cor, forma, textura, função. Surge assim a dúvida: ao mencionar a “rosa”, estamos nos referindo ao que a rosa realmente é? Ou apenas à ideia da rosa, que não teria ligação direta com o objeto, permanecendo no campo das ideias que construímos de forma arbitrária ou social?
Algumas vertentes diriam que o nome da rosa reflete o que a rosa é. Ou seja, a linguagem seria adequada para se descrever a realidade, que poderia ser alcançada através da ciência. Esta é em síntese a proposta das vertentes inspiradas pela doutrina do “positivismo”. Em Relações Internacionais, estas atendem pelo nome de “(neo)realismo”, do qual deriva o “(neo)institucionalismo”. De acordo com o positivismo, seria possível estudar a realidade humana com a mesma objetividade das ciências naturais. Isto poderia ser feito com métodos quantificáveis, como a estatística. No internacional, isto equivale a dizer que o mesmo método usado para estudar a biologia ou a física pode ser aplicado de alguma forma para estudar o comportamento dos Estados, das nações, das culturas, dos povos. Portanto, a rosa das nações seria “concreta”, objetiva, condicionada por uma natureza endógena ou uma estrutura exógena que esquematiza a realidade, determina os resultados e a torna analisável. Neste sentido, estudar o discurso conduziria a distorções, porque daria razão objetiva a uma mera retórica que mascararia, distorceria ou ignoraria a pressão desses fatores.
Já os analistas de discurso afirmam que a vida humana não se compara à natural, existindo antes quase à parte desta. Mencionar a rosa é mencionar a ideia da rosa, não havendo possibilidade de se alcançar ou talvez mesmo de haver uma rosa-em-si. Assim se resume a proposta das vertentes que, pela necessidade de simplificar, serão aqui chamadas pelo rótulo de “pósmodernistas”. Estas partem da premissa básica de que o homem é uma criatura linguística que produz sua realidade através analogias, metáforas e comparações. Somente nestes termos os fenômenos lhe fariam sentido; logo, sua experiência com a realidade será dada sempre em termos linguísticos. Os principais seriam as díades comparadas, tais como bem-mal, alto-baixo, claro-escuro (cf. a gramatologia de Derrida, 1999). Destas surgiriam os principais conceitos das Relações Internacionais – nacional e internacional –, que emergem a partir dos conflitos e das contradições que, uma vez analisadas, permitiriam compreender a realidade.
Em outras palavras, a língua não reflete a realidade, mas é a realidade. O que não equivale a dizer que as palavras são sólidas como as muralhas, os fuzis ou o alimento. Não é simples assim. A realidade seria ainda mais complexa do que sugerem ou pretendem as estatísticas ou as observações empíricas, cujos resultados nada mais seriam do que interpretações condicionadas pelo discurso. Portanto, necessidades, objetivos, percepções, cálculos, interesses – enfim, todos os parâmetros utilizados pelos realistas na busca de objetividade deveriam antes ser investigados em termos de discurso. O mesmo ocorre às noções de escassez, distribuição e cálculo, por mais que insinuem objetividade numérica. O próprio universo numérico, por sinal, deveria ser visto em termos de discurso: há séculos a matemática tem revelado contradições que a torna objeto de suspeita, gerando assim uma crise do conhecimento objetivo que ensejou a teoria do caos (cf. para maiores detalhes Kline, 1980).
Sob esta perspectiva, o positivismo e o realismo seriam em verdade os otimistas ingênuos. Estes crêem na possibilidade utópica de a ciência ser um instrumento confiável e isento, capaz de produzir saber universal, objetivo, aistórico e a salvo de distorções ideológicas. As vertentes pósmodernistas contestam esta ideia afirmando que toda a realidade humana – inclusive a científica – é intermediada pela linguagem; logo, todo conhecimento surge a partir de uma interpretação específica, criada em meio aos conflitos ideológicos que marcam a confecção da realidade humana.
Neste sentido, a própria origem de ambas as vertentes pode ser reveladora. O positivismo de Comte fora um subproduto do Iluminismo, movimento intelectual que cria fervorosamente na racionalidade humana. A análise de discurso surgiu nos anos de 1970, onde um conturbado contexto internacional gerava descrenças e suspeitas científicas. A mais perturbadora era a de haver ideologia em todos os aspectos da vida humana, inclusive no internacional, cujo entendimento não estaria isento de uma disputa discursiva pelo poder. Em outras palavras, tão mais fácil e ideal seriam as relações internacionais se aos Estados fosse permitido serem racionais, unitários e soberanos, como pretendiam os realistas; antes, seria mais provável que estivessem sujeitos a uma realidade de cuja confecção e entendimento encontram-se alienados.
Estas proposições exigem compreender o internacional como um discurso, construído com base em um alicerce linguístico e ideológico. Portanto, quem quiser o entender de fato teria de abandonar as estatísticas e apelar às metáforas, analogias, díades e contradições do vocabulário. Este seria o caminho possível para se desvendar o processo de formação das identidades soberanas, que se daria através das díades do Eu e do Outro, surgidas a partir de uma contraposição ideológica. No internacional, portanto, só é possível haver uma rosa porque há algo que não seja uma rosa, o que permite que esta se distinga e se gabe de não ser um cravo ou um dente-de-leão – e até mesmo os deteste, como forma de reforçar a própria identidade. Fora basicamente assim que David Campbell desenvolveu a ideia de que o principal conceito das relações internacionais seria o de segurança, que surge a partir da formação das identidades internacionais. Estas se originam pela contraposição do nacional estável e seguro ao internacional instável e inseguro, na qual o Estado ocupa a função da Igreja de oferecer proteção ao grande mal exterior (Campbell, 1994).
Em muitos sentidos as vertentes pósmodernas não abandonam os pareceres realistas. Admitem que a realidade humana é de fato produzida em termos de estrutura e comportamento; no entanto, negam que estes sejam estáveis ou que estejam fora do universo linguístico. Eis por que dizem oferecer apenas uma outra maneira de contemplar a realidade, costume que possivelmente surgiu da insegurança em desafiar o realismo, que ainda goza de grande prestígio acadêmico. O efeito, no entanto, é o de não oferecer um contraponto ao realismo, impedindo este de se renovar e reforçar a própria identidade. Assim, é possível que esta falta de diálogo gere o esgotamento das vertentes positivistas. A rosa das nações tenderia assim a não mais ser vista como o produto de uma estrutura ou de uma natureza; antes, será investigada a partir de uma “desconstrução” da glosa sob a qual se esconde – exatamente como os monges detetives de Umberto Eco, que consultam os livros para desvendar os crimes, ignorando a distinção arbitrária que se realiza entre realidade e narração da realidade.
BIBLIOGRAFIA
- CAMPBELL, David. Writing Security. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1997.
- DERRIDA, Jacques. Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 1999.
- ECO, Umberto. O Nome da Rosa. Rio de Janeiro: Record, 1994.
- FAIRCLOUGH, Norman. Analysing Discourse: textual analysis for social research. Londres: Routledge, 2003.
- KLINE, Morris. Mathematics: the lost of certainty. Nova Iorque: Oxford University Press, 1980.
- TODOROV, Tzvetan. Simbolismo e Interpretação. Lisboa: Edições 70, 1978.
Marcelo dos Santos Netto é mestrando em Relações Internacionais da Pontifícia Universdade Católica de Minas Gerais – PUC-MInas (msanetto@gmail.com).

27/01/2010


A tentativa do autor em fazer uma abordagem da realidade internacional através de postulados científico – filosóficos causará efeitos desconhecidos por parte de quem os lê e para quem pretende efectuar uma crítica sobre o assunto, colocasse à partida numa posição indesejável, por o tema ser actual e polémico e no passado recente muito poucos leitores e cinéfilos terem interpretado correctamente.
Efectivamente, este texto é para mim, não menosprezando os já lidos e alguns comentados pela minha pessoa, é dos que em termos epistemológicos e ponto de partida para interpretações diversificadas mais conseguidos e publicados na vossa revista.
Não querendo ser mal interpretado e concomitantemente cansativo nas afirmações que irei fazer, não tecerei considerações em demasia sobre conceitos académicos relacionados com definições e evolução histórica próprios de análises e abordagens filosóficas e por isso aconselhados a indivíduos mais habilitados do que eu.
O conceito linguagem da acção nas áreas do social e das ciências, aparecem filosóficamente e cientificamente como responsáveis desta análise que se pretende ser da realidade internacional, este discurso difícil de entender, mesmo de defenir é explicado através de um título que em minha opinião, foi do melhor que a comunidade exclarecida pode tomar conhecimento. As várias interpretações que a palavra Rosa pode ter são referenciadas e históricamente está associada há humanidade, mesmo nos aspectos religiosos e filosóficos-científicos e outros de sentido diversos. A palavra parece ter o significado de dialética que a mesma tem em si, o que represente sobre o ponto de vista de contraste e serve para explicar e interpretar a vida monástica algures nos alpes italianos na Idade Média.
Históricamente, sabemos que esta idade na Europa foi um período difícil para o Homem em domínios muito delicados e neste âmbito ligados ao Social-Relifgioso e Científico. Resurgimento de ideias Aristotélicas e de assuntos das ciências que incentivaram o Homem à investigação científica. O confronto e luta entre ideias contrárias foram evidentes entre sectores da Igreja e da mesma com a comunidade científica. Segundo o título de Umberto Eco a investigação nas ciências torna-se tarefa difícil, para mais num espaço destinado em primeiro à oração e auxílio dos mais necessitados. A ideia é evidente na linguagem utilizada. Neste espaço divino praticam-se acções onde o pecado é evidente e combatido por um abade que a todo o custo evita a tomada de conhecimento de títulos existentes algures numa biblioteca no espaço interior do mosteiro e censurada por um inquisidor que se opõe à tentativa de violar o que estava determinado pelo abade. O cemitério. Não querendo que os monges satisfizessem o seu apetite voraz em saber algo mais, o que levaria a humanidade a metas indesejáveis, as vítimas sucedessem e comportam-se como desvios da Santa Madre igreja católica. Em certa medida são seitas que gravitando em torno da igreja, se alimentam e responsáveis por tomadas de conhecimento formadas e consentidas com oposição da igreja mãe.
A dialética existente através do discurso e acções dos elementos da comunidade são o corolário lógico da luta infernal entre duas concepções do Mundo, diferentes e existentes no passado histórico. Esta luta termina sempre por ser benéfica para o Homem, que o refira os homens das descobertas marítimas ou da ciência nos séculos XV e XVI, Renascença ou Iluminismo. A sensação que se tem é que Umberto Eco se serve destes acontecimentos para um aviso de que a breve prazo iriamos assistir a transformações profundas nas teorias de conhecimento, relacionadas com as ciências políticas, alterações que já eram anunciadas e se esperavam vir a causar efeitos no Globo e descobertas científicas impensáveis de se vieram a concretizar a breve prazo. Foi com inteligência que Umberto Eco pegou em forças divinas ligadas a acções do homem na Idade Média, explicou os pecados através da Moral e avisou através de actos e linguagens de personagens, alterações para o anos finais do século XX.
Este novo discurso nas relações internacionais, resultante da luta entre os Monges e o Abade, parece ter sido vencido pelos primeiros. Porém, desconhecemos de que forma a imagem do segundo estará moribunda e dará novo folgo a lutas e discussões dialéticas que resultem para a humanidade.
Excelente análise Marcelo, me deixou curioso para aprofundar meus estudos a respeito de tal assunto.
vou consultar Jacques Derrida, Norman Fairclough e David Campbell.
muito obrigado,
Duas interpretações me defrontam. De um lado, o efeito que o homem sofre no ambate ao “novo” até então desconhecido e que lhe transforma. De outro sua estrutura psiquica, sua capacidade de reconhecer a realidade que o cerca e adapta-la de modo a desenvolve-la. Incontestavel é porem a beleza da descoberta como ilustrada nos monges de o nome da rosa.