Há muito se houve falar da inserção e das repercussões da China no comércio global, visto o peso político-econômico e até mesmo bélico que a China apresenta frente aos demais atores dentro da cadeia global. É perante estas perspectivas que se introduz também o Brasil e questionam-se quais são os efeitos da expansão chinesa em nosso país na atualidade.
A conexão da China à economia mundial tem ocorrido de forma aberta, afetando a composição e o próprio progresso do sistema global de comércio no início do século XXI, refletindo, por conseguinte, nos mais diversos setores, inclusive da economia brasileira. Por centrar suas atividades em exportação de produtos primários (agropecuários e minérios), o Brasil ainda não apresenta peso econômico considerado relevante no mercado global, fazendo com que as relações sino-brasileiras se estabeleçam basicamente em troca de commodities por parte do Brasil, pois os chineses são grandes compradores de soja e ferro o que gera certo alívio para a balança comercial brasileira, por produtos industrializados e tecnológicos originários da China os quais inundam cada vez mais o mercado brasileiro e da região. Se de um lado para a China é interessante essa barganha, por outro essa relação se torna restrita, pois a cesta de produtos oferecidos pelo Brasil não é muito diversificada, não acompanhando a demanda tecnológica chinesa.
Uma característica fundamental para explicar o crescimento chinês é a existência de economias de escala na maior parte das indústrias, com fortes impactos sobre o custo de produção. Alguns exemplos são ilustrativos do tamanho do mercado e da escala de produção. A China é atualmente a maior produtora mundial de televisores, com uma produção anual de aproximadamente 75 milhões de unidades. A produção anual de aço bruto é de cerca de 220 milhões de toneladas, enquanto a do Brasil é de 31 milhões. A China produz atualmente cerca de 1,1 milhão de caminhões por ano, quase dez vezes a produção brasileira. Enquanto o Brasil produz cerca de 40 milhões de toneladas de cimento por ano, a produção anual da China atinge aproximadamente 900 milhões de toneladas. Essas demonstrações mostram que a indústria chinesa está, cada vez mais, agregando valor domesticamente aos insumos importados, produzindo internamente parcelas crescentes dos componentes utilizados em produtos de alto conteúdo tecnológico, denotando ganhos de competitividade na produção desses insumos. Mais uma evidência nesse sentido está relacionada com os padrões regionais de comércio da China. As suas importações, cada vez mais, são oriundas dos países em desenvolvimento, em especial dos seus vizinhos asiáticos.
Assim, pode-se argumentar que a expansão comercial internacional da China está, em grande medida, associada a atividades relacionadas à importação de produtos intermediários e de bens de capital, especialmente de alto conteúdo tecnológico de outros países asiáticos. Esse complemento produtivo vem sendo um dos fatores importantes para a diversificação das exportações chinesas. Em inúmeros casos, a China serve de base de exportação para as economias avançadas da Ásia que, em vez de exportar produtos finais para os mercados americanos e europeus, agora exportam através de suas subsidiárias na China. Esse movimento tem contribuído para um rápido aumento das importações chinesas dos países da região e de suas exportações para a Europa e América do Norte, tornando cada vez mais a China num concorrente sem precedentes para o comércio brasileiro.
Na década de 1980 a expansão do comércio chinês se alastrou por toda a Ásia, posteriormente entrou no mercado norte-americano e África, e agora a China avança com vigor sobre os parceiros comerciais do Brasil também na América Latina. Dentre alguns acordos comerciais com países latino-americanos merecem ênfase as parcerias com Argentina, Chile e certo destaque para o Tratado de Livre Comércio (TLC) entre China e Peru que funcionará como plataforma de exportação para a indústria brasileira. De acordo com o secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento Welber Barral, o Brasil vai sofrer cada vez mais a disputa com os produtos chineses em seus mercados tradicionais.
Em contrapartida, esta ascensão chinesa pode-se tornar favorável para o Brasil uma vez que podem ser realizados os mais diversos acordos com os chineses, principalmente, em áreas estratégicas como infraestrutura e tecnológica. Essa cooperação técnico-científica também tende a se ampliar, pois o fluxo de delegações chinesas ao Brasil foi intenso em 2009, inclusive com a visita do vice-presidente chinês Xi Jinping em fevereiro, trazendo repercussões positivas em diferentes segmentos industriais, assim como na área de pesquisa. Da mesma forma, o presidente Lula visitou a China em maio de 2009 com o objetivo de aumentar ainda mais as relações bilaterais com aquele país.
Entretanto, fatores macroeconômicos têm prejudicado a balança comercial brasileira com a China, a qual se utilizou por longo tempo como estratégia de desenvolvimento econômico o cambio fixo para o yuan renminbi (moeda chinesa). Como o yuan está desvalorizando frente às principais moedas internacionais (e também ante ao real), o resultado aparece no favorecimento das exportações chinesas. Nos últimos anos, fortes pressões externas pela valorização do yuan fizeram o governo chinês abandonar o regime de câmbio fixo. Na balança comercial do setor industrial o resultado desse desajuste cambial é prejudicial para as exportações brasileiras e excelentes para as importações oriundas daquele país. Contudo, as enormes compras chinesas em commodities têm evitado maiores pressões do governo brasileiro no sentido de corrigir essa discrepância cambial. O efeito China tem se manifestado no aumento na demanda internacional de matérias-primas, o que contribuiu para uma forte expansão nos preços dos produtos agrícolas e minerais. Para o Brasil, a China tem uma importância grandiosa, onde se podem vender quase todos os tipos de produtos e em enormes quantidades. Já para o mercado chinês o interesse é mais político do que comercial. A China quer ser reconhecida mundialmente como uma “economia de mercado” e tendo como aliado o mais importante país da América do Sul vai ao encontro dos interesses chineses. Desde 2004 com a visita do estadista chinês Hu Jintao ao Brasil, o governo brasileiro reconheceu a China como economia de mercado como medida para alavancar o comércio entre esses países.
A China encerrou o ano de 2009 como o maior destino das vendas brasileiras, ultrapassando inclusive os Estados Unidos da América (EUA). De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio (MDIC) as exportações brasileiras enviadas para a China em 2009 foram de US$ 19,9 bilhões de dólares contra US$ 15,9 bilhões de compras oriundas da China fechando o ano com superávit favorável ao Brasil de US$ 4 bilhões de dólares. Essa redução nas vendas brasileiras para os EUA é efeito da crise global, sentida com mais vigor pelos norte-americanos e em menor escala pelos chineses que continuaram comprando os produtos do Brasil mesmo durante a recessão mundial aumentando a importância da China para o mercado brasileiro. Depois da crise financeira a China parou de olhar apenas para o mercado interno e contemplou mais o mercado internacional. A crise criou chances com os incentivos às empresas em diversos países, e a China viu isto como oportunidade de obter vantagens também. O Brasil por sua vez oferece um mercado complementar para a China, com recursos naturais e produtos primários que encontram grande consumo entre os chineses.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- “Brasil reconhece a China como economia de mercado para alavancar comércio”. Disponível em: <http://www.ccibc.com.br> Acessado em 19 de janeiro de 2010.
- “China amplia comércio com a AL e compete com o Brasil”. Folha de São Paulo: domingo, 04 de outubro de 2009. Jornal escrito.
- “China é o principal destino das exportações brasileiras em 2009”. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/economia.htm> Acessado em 16 de janeiro de 2010
- DAI – Divisão de Atos Internacionais. Disponível em: < http://www2.mre.gov.br/dai/... >. Acessado em: 20 nov. 2009.
- Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Secretaria de Comércio Exterior. Disponível em: < http://www.mdic.gov.br/ >. Acessado em: 25 out. 2009.
Arnaldo José da Luz é mestrando em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

22/01/2010



alguem pode me explicar essa manchete? que impactos o brasil sofre?