Estados Unidos: a frágil presença no Afeganistão, por Virgílio Caixeta Arraes

Em quase sete anos, os Estados Unidos já despenderam centenas de bilhões de dólares no confronto ainda em curso com a população iraquiana, visto que a defenestração do regime autoritário de Saddam Hussein havia ocorrido poucas semanas após a invasão. Desde então, há uma diversidade de adversários a combater, identificados apenas por meio de uma temporária aliança antiamericana. Uma das razões subjacentes para o envio maciço de tropas multinacionais, mas lideradas basicamente pelos Estados Unidos, foi a necessidade de assegurar o acesso contínuo às fontes energéticas do país – estimadas em mais de 100 bilhões de barris de petróleo – extremamente fartas e de baixo custo de extração. Executar-se-ia a exploração por intermédio de grandes corporações, pondo fim à estatização do setor, aplicada em 1972.

Destarte, garantir-se-ia a estabilidade dos preços petrolíferos por muito tempo, sob a supervisão anglo-americana. Contudo, em função das constantes licitações realizadas pelo Ministério do Petróleo do Iraque desde o final do primeiro semestre de 2009, corporações de várias nacionalidades, sob a forma de consórcios, têm obtido acesso para a exploração local.

Oito das dez maiores empresas privadas do mundo no setor participaram do último evento. Na disputa, estimava-se que 1/3 das reservas de petróleo e de gás do país, isto é, em torno de 40 bilhões de barris, estavam disponíveis em oito áreas.

Assim, China – atual importadora de quatro milhões de barris diários – parece instalar-se de maneira duradoura no território iraquiano, sem naturalmente os custos militares dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha e sem o desprestígio perante a comunidade internacional. A Rússia tenta também beneficiar-se da exploração de recursos energéticos no Iraque.

A produção iraquiana atual é muito reduzida, se comparada ao período da longeva ditadura baathista – menos de dois milhões e meio de barris por dia. Com as licitações, o objetivo é chegar até 2015 aos quatro milhões, mas questões políticas poderão dificultar a meta, tendo em vista a realização de eleições parlamentares no próximo ano, na qual se poderá reforçar ainda mais o prestígio da comunidade xiita, e a execução do cronograma de retirada das tropas anglo-americanas.

O objetivo primordial dos leilões é a obtenção de recursos para a recuperação da infra-estrutura do país. Por conseguinte, providenciar a legitimação do governo que, embora seja considerado, em tese, nacional, restringe-se às áreas em que a coligação amero-britânica atua.

Exemplo maior é a instituição de novos marcos, como o Dia da Soberania Nacional (30 de junho), ainda desconectados do cotidiano da população local. Na celebração da efeméride, havia mais militares que populares.

De início, esta data representaria simbolicamente a retirada gradativa das tropas estrangeiras do país – até agosto de 2010, haveria a maior saída. No final de 2011, restariam pouquíssimos combatentes, de acordo com o planejamento estabelecido no final da gestão Bush.

Contudo, apesar de anunciado, e mesmo desejado, o retorno dos efetivos não tem um cronograma na prática definido até porque a presença dos contingentes está assegurada por legislação local e dependerá claramente do grau de instabilidade política do país. Os permanecidos adquiririam um novo nome para justificar a futura presença: assessores ou instrutores militares.

Outrossim, não obstante o eventual recolhimento das tropas anglo-americanas, as empresas de segurança privadas permanecerão lá, sendo a maior parte delas de origem estadunidense. Assim, de um modo ou de outro, o governo iraquiano continuará a depender de proteção externa, sob um custo significativo.

A fartura de verbas advindas do petróleo pode desaguar na aplicação ineficiente ou mesmo em desvios, conforme relatório da Transparência Internacional de 2009. Dos 180 países avaliados, o Iraque supera apenas Sudão, Mianmar, Afeganistão, também supervisionado pelos Estados Unidos, e Somália – no mesmo documento, o Brasil ocupa a septuagésima quinta posição.

O transcorrer do governo Obama assinala, em seu primeiro ano, a absorção da política externa de seu predecessor, a despeito das críticas lançadas quando de seu início, entre janeiro e fevereiro de 2009. Desta maneira, os democratas assumem infrutiferamente a responsabilidade de dois confrontos, outrora ‘republicanos’.

Virgílio Caixeta Arraes é Professor do Departamento de História da Universidade de Brasília – UnB (arraes@unb.br).

Uma resposta para “Estados Unidos: a frágil presença no Afeganistão, por Virgílio Caixeta Arraes”

  1. A presença norte anericana no Iraque não será exactamente a mesma que o texto pretende ou quer transmitir ao leitor.
    As tentativas em colocar a administração pública em funcionamente e por conseguinte a segurança e principal fonte de receita, o petróleo como motor de reconstrução e pagamento da factura necessária há reconstrução iraquiana, foi tema dos midia após a intervenção de Bush e aliados e continua sendo tema esporádico nas informações. Porém, os acontecimentos posteriores localizados no Paquistão e Afeganistão e ainda a tentativa diplomática de Obama em colocar como mediador e solucionador de uma crise económica na região e no globo a Arábia Sáudita, com implicações nas tomadas de posição de países muito importantes nas regiões do médio e extremo Oriente ou nas Nações Unidas sobre resoluções sensíveis a tomar, não descurando a parte económica, a China e União Indiana e por conseguinte alterações de decisões nos países da OPEP, Rússia ou Europa industrializada. O petróleo servirá novamente como moeda de troca e a velha aliança dos EUA e Arábia sàudita parece funcionar mais uma vez a contendo de interesses económicos e financeiros. A questão Iraquiana é de identidade nacional e os acontecimentos no Afeganistão poderão colocar também essa questão. No primeiro, as decisão deverão ser tomadas em conjunto por sunitas, Xiitas e curdos. Se isso não acontecer e se a predilecção e por conseguinte escolha acentar num único grupo, a questão ficará em aberto e no futuro surgirão questões delicadas como as actuais.
    Este confronto mais perfumado e humano dos Democratas é herança de uma luta em campo que foi a invasão do Iraque e queda do regime de Hussein, traçada pela administração Bush e aliados que lhes trouxeram dissabores em parte condenada pela opinião pública internacional. O trabalho foi executado e a consequência que é a diplomacia como mediadora principal aparece para Obama, que em certa medida colhe os frutos dessa intervenção extremamente didícil de colocar em prática que não beneficiou a imagem de Bush, principalmente na Europa, apesar dos eleitores Demoratas terem sido apoiantes da mesma.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s