Entrevista coletiva concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na chegada ao hotel Villa Itália, em Portugal – Cascais – Portugal, 29/11/2009

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Olha, o Brasil, no caso de Honduras, eu tive uma conversa com o ministro Celso Amorim, e disse a eles que o Brasil não tem por que repensar a questão de Honduras. É importante ficar claro que a gente precisa, de vez em quando, firmar convicção sobre as coisas, porque isso serve de alerta para outros aventureiros. Eu não sei qual foi o resultado de Honduras ainda, mas o dado concreto de os golpistas não permitirem que o Presidente voltasse para coordenar o processo eleitoral é um sinal muito perigoso, um sinal muito delicado, porque ainda existem muitos países na América Central, sobretudo, com vulnerabilidade política. Ora, se os países que podem dar orientações, se os países que podem fazer gestos que signifiquem dizer “olha, não repitam mais isso”, não o fazem, daqui a pouco a gente não sabe onde pode haver mais um golpe. E aí prevalece o cinismo: eu faço um golpe em nome do quê? Eu faço um golpe porque eu não gostei de uma atitude de um presidente. Ora, quem não gosta de uma atitude de um presidente tem o Congresso Nacional, tem a Justiça local para tomar as decisões. Então, a minha opinião pessoal é que o Brasil não tem que reconhecer e o Brasil precisa manter a posição. Eu acho que os países da América do Sul que tomaram a decisão, certamente alguns poderão manter, outros não manterão, mas o Brasil manterá a posição porque não é possível a gente aceitar um golpe, seja ele militar, seja ele disfarçado de civil como foi o golpe de Honduras. Não é possível…

Jornalista: O presidente Zelaya permanece na Embaixada, Presidente, indefinidamente?

Presidente: Veja, até que o governo de Honduras dê garantias de vida para o Zelaya, ele vai ficar na Embaixada brasileira. Nós não podemos permitir que ele saia sem que haja garantia e segurança para que ele volte para a sua casa, para que ele volte… não sei se depois da eleição vão querer que ele volte para o poder, ou seja, é no mínimo uma piada tudo isso mas, de qualquer forma, faz parte da cultura latino-americana.

Jornalista: Como é que o senhor vê essa divisão dos países latino-americanos em relação à eleição em Honduras: Peru, Colômbia…

Presidente: Veja, eu não vejo divisão. Veja, eu vejo que cada país tem soberania para tomar a sua decisão. Eu, de vez em quando vejo a União Europeia, que já está há 50 anos tentando construir a União Europeia, aprova uma coisa em um país e não aprova outra em outro país, ou seja, eles não tratam isso como divisão, eles tratam como consequência normal do exercício da democracia. Ora, cada país vai tomar decisão em função da sua realidade política, não vai tomar decisão se contrariar as intenções da maioria do povo de cada país.

Jornalista: E o diálogo com o presidente Obama sobre o assunto, Presidente?

Presidente: Veja, o Obama me mandou uma carta. Eu respondi a carta, na sexta-feira, para o Obama. Obviamente que nós temos discordância sobre como foi tratada a questão de Honduras. Mas, também, se entre dois chefes de Estado não tiver nenhuma discordância, não tem graça. Nós temos muitas coisas importantes para discutir com o presidente Obama. Vamos ter Copenhague agora. Copenhague é um outro lugar em que a gente vai aferir quem é que está falando a verdade sobre a questão do clima, quem é que quer contribuir, quem é que quer custear os avanços tecnológicos para os países pobres poderem crescer economicamente e ainda preservarem o meio ambiente. O Brasil tomou a atitude de mostrar qual é a sua posição. Depois da posição do Brasil já tem tido um avanço muito grande, os Estados Unidos já apresentaram a sua proposta, a China apresentou uma proposta. E nós pretendemos trabalhar para ver se até os dias 17 e 18 – quando será o encontro de chefes de Estado – a gente tem uma solução. Eu sempre trabalho com a hipótese de que nas negociações nós deveremos chegar a alguns números, que não sejam tudo o que cada um individualmente quer, mas que sejam tudo o que seja possível construir. É assim que a gente negocia, é assim que a gente faz política, e vamos continuar trabalhando.

Jornalista: Presidente, o senhor viu o filme? O senhor gostou do filme?

Presidente: Olha, sinceramente, eu sou a pessoa mais suspeita para falar do filme, porque o filme é sobre a história da minha mãe. Então, qualquer coisa que eu falar eu estarei sob suspeição, porque é a minha mãe que está em jogo, é a história de um livro que conta um pouco da minha história. Mas eu acho que o filme foi muito realista, é exatamente aquela imagem que eu tenho de minha mãe. Pode ser que alguém fale, que não concorde com a imagem que eu tinha da minha mãe, mas é a imagem que eu tinha dela. Então, eu acho que ela é até mais do que aquilo lá, pelo menos para mim, na minha formação. Eu acho que o restante das coisas que aconteceram, nas greves, foi muito importante. Obviamente que se você coloca dez diretores, cada um vai ter uma noção do filme. Mas a coisa mais importante, para mim, e eu quero agradecer ao Barreto o que ele fez, foi não fazer a questão política. Eu achava que não deveria ter a questão política, nem do PT, nem a questão do governo. Eu achava que era importante parar, e parou exatamente na morte da minha mãe, o que para mim foi muito importante, e eles cumpriram a palavra. Agora, a verdade é essa, é que tem assunto para fazer tantos filmes quantos forem necessários. Quem sabe, se faça outro; quem sabe, se pense em fazer alguma coisa para a frente, já tem gente pensando em minissérie. Mas o dado concreto é o seguinte: eu acho que o filme mostra um pouco a verdade do que aconteceu na vida de uma família Silva. Certamente, deve ter outras dezenas ou milhares de famílias Silva com os mesmos problemas. A diferença básica é que foi o Silva que chegou à Presidência que pôde contar a história de sua mãe na televisão. Eu fiquei emocionado, obviamente, não vou contar para vocês quantas vezes eu chorei. Eu já comecei a chorar quando vi a imagem da minha mãe logo, logo no comecinho, de antes de eu ter vindo para São Paulo. Então é isso, eu espero que vocês assistam e que gostem.

Jornalista: Presidente…

Presidente: Amanhã falaremos, meu filho.

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