Irã e América do Sul: comércio, energia e segurança, por Anaís Medeiro Passos, Camilla Corá & Raquel Tebaldi

A visita ao Brasil do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad em novembro de 2009 é a primeira visita de um chefe de estado iraniano ao país em 50 anos, e deve cumprir a promessa desfeita em março desse ano, quando o líder cancelou uma visita marcada ao país com poucos dias de antecedência e sem esclarecer totalmente os motivos de tal atitude. A visita faz parte de um roteiro pela América Latina, o qual inclui também Bolívia e Venezuela. De acordo com o embaixador do Irã, Mohsen Shaterzadeh, o encontro deve privilegiar acordos comerciais como, por exemplo, a compra de terras brasileiras por empresários iranianos, que estariam interessados em cultivar milho e soja para produção de etanol. Porém, Shaterzadeh também indicou interesses políticos por trás da visita, afirmando que o Brasil é uma das grandes potências econômicas do mundo, e que o governo iraniano acredita que a parceria facilitará a execução de reformas reais nas instituições internacionais, como a ONU (G1, 10/11/09).

As relações do país islâmico com a América do Sul, e em especial com países como Brasil e Venezuela, têm se intensificado com a presidência de Ahmadinejad, no Irã, e com a de líderes considerados de orientação esquerdista nos países sul-americanos, respectivamente, Luís Inácio Lula da Silva no Brasil e Hugo Chávez na Venezuela. Antes da eleição do líder iraniano, porém, as relações entre Brasil e Irã já cresciam, tendo a Petrobras recebido autorização para explorar o Golfo Pérsico em 2003. No ano seguinte, os dois países assinaram um memorando de entendimento que previa intensificação das comunicações e trocas comerciais entre os mesmos. No âmbito energético, o Brasil procura cooperar com o programa nuclear iraniano desde os anos 1990, quando uma venda de equipamentos do programa nuclear brasileiro para Teerã só não ocorreu em função da intervenção contrária norte-americana.

Mais recentemente, o Brasil tem procurado, ainda que parcimoniosamente, apoiar os desenvolvimentos nucleares do Irã, cujo programa possui várias similitudes com o brasileiro. Em visita da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) às instalações do Rio de Janeiro em 2004, o acesso a várias partes do local foi negado, sob pretexto de proteger os avanços tecnológicos brasileiros dos olhos do resto do mundo. Ainda que a situação tenha sido resolvida meses depois, ela deixou a preocupação, para a comunidade internacional, de que a atitude brasileira gere precedentes para que ações similares por parte do Irã sejam também aceitas, afinal, nada sugere o porquê de o Brasil ter o direito de esconder partes do seu programa nuclear, e não o Irã. Em função disso, declarações de autoridades brasileiras reafirmam que o Irã tem o direito de possuir um programa nuclear pacífico, e que a situação deve ser resolvida pela AIEA, e não pelo Conselho de Segurança da ONU, para o qual Brasília, juntamente com outros países em desenvolvimento, relutou em apoiar a indicação do assunto do programa nuclear iraniano em 2006. Além disso, o Brasil não reconhece as sanções unilaterais impostas sobre o Irã e tem comercializado com esse país por intermédio de outros países da região, apesar das sanções comerciais impostas pelo Conselho de Segurança.

A retórica brasileira, contudo, não toca no polêmico aspecto do anti-imperialismo estadunidense advogado pelo líder venezuelano Hugo Chávez em conjunto com Ahmadinejad. Entre os dois países, a retórica de unidade contra a potência ocidental acompanha uma série de acordos de comércio e energia, notadamente no que toca à exploração e produção de petróleo. Assim como Teerã, Caracas tem comercializado equipamentos militares com Rússia e China, sugerindo uma harmonização nas políticas de defesa dos países de Chávez e Ahmadinejad. Além disso, indícios do envolvimento da Venezuela no financiamento de atividades do Hezbollah na América do Sul preocupam agências de inteligência e levaram os Estados Unidos a congelarem os bens de dois nacionais venezuelanos supostamente envolvidos com a organização libanesa em junho de 2008. Essa organização, principal suspeita dos ataques terroristas de Buenos Aires no começo dos anos 90, estaria, segundo alguns analistas, utilizando a América Latina (em especial a área da Tríplice Fronteira) para obter financiamento, podendo inclusive, segundo opiniões mais extremas, estar utilizando a área para treinamento e proteção para possíveis ataques à região no futuro (Logan, 2009).

A visita ocorre num período conturbado para o Irã, que se vê sob pressão internacional quanto ao seu programa nuclear. Nesse contexto, a visita à América Latina é estratégica para o país. Importando cerca de 1/3 do seu consumo interno de gasolina, novas sanções por parte dos EUA poderiam afunilar ainda mais as alternativas econômicas e políticas que Teerã possui. Romper o isolacionismo por meio do estabelecimento de novas relações comerciais é, portanto, uma estratégia central para a própria sobrevivência do país no cenário internacional nos próximos anos.

Por outro lado, ainda que ocorra a aproximação entre alguns países latino-americanos e o Irã, movimento que declaradamente deixa inquietos os Estados Unidos, esse fenômeno possui limites, uma vez que a proximidade geográfica com a maior potência econômica atual torna fortes as amarras políticas e comerciais entre EUA e América Latina. Isso não significa, contudo, que não possam se desenvolver relações entre os países latino-americanos e o Irã. Os tempos da Guerra Fria já se encerraram e o chamado “quintal norte-americano” está cada vez mais autônomo e não-alinhado.

Os países latino-americanos sabem barganhar com os Estados Unidos e dificilmente assinariam acordos totalmente contrários aos interesses da potência, prejudicando o seu comércio com Washington. O recebimento do embaixador iraniano, nesse sentido, mais do que uma abertura de caminho para estabelecer futuras relações comerciais, é uma sinalização de poder nacional frente aos EUA e de que a imposição de sanções econômicas ao Irã poderá ser dificultada, dessa forma, por vias alternativas latino-americanas de comércio. A administração de Barack Obama deve, portanto, acompanhar com atenção e ansiedade a visita iraniana, e possivelmente apresentar mais concretamente indícios para além do discurso de que a América Latina não deve ser esquecida por sua política externa.

Fontes:

Anaís Medeiro Passos, Camilla Corá & Raquel Tebaldi são Graduandas de Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (camillacora@gmail.com).

Uma resposta para “Irã e América do Sul: comércio, energia e segurança, por Anaís Medeiro Passos, Camilla Corá & Raquel Tebaldi”

  1. Excelente artigo. Vale a pena a leitura.

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