De toda premiação Nobel do ano de 2009, a mais surpreendente se localizou no segmento da paz, ao conceder-se o galardão ao Presidente Barack Obama, precocemente recompensado, tendo em vista o fato de estar ainda nas primícias de seu mandato.
De modo inesperado, o dirigente norte-americano teria sido premiado não por uma vigorosa iniciativa pacifista, mas sim por um retraído posicionamento bélico, ao limitar-se a manter em andamento duas guerras herdadas de seu antecessor, George Bush, por este iniciadas ainda em seu primeiro mandato, entre o final de 2001 e o começo de 2003.
Relembre-se que Barack Obama, enquanto parlamentar, sempre se opôs firmemente à segunda versão da Guerra do Golfo, por causa da precariedade das justificativas invocadas pelo governo Bush e da posterior simploriedade na forma de apresentação à opinião pública internacional, ao valer-se indevidamente do proscênio onusiano.
Embora Obama afirme constantemente a necessidade de encerramento de ambos os conflitos, não houve até o momento a definição de um cronograma exeqüível para tal aspiração. A indeterminação, por seu turno, traz consigo o abatimento moral das tropas, dado que uma permanência mais longa prescindiria de mais efetivos.
O posicionamento da política externa dos democratas atualiza, de certa maneira, o consagrado dizer do historiador da Roma Antiga, Tácito, que afirmou que uma má paz era pior do que uma guerra.
Nesse sentido, os Estados Unidos não conseguem desembaraçar-se politicamente do imbróglio por eles gerado, por temor de reavivar certamente o mesmo sentimento de frustração e de humilhação do período da Guerra do Vietnã, nos anos 70, somente superado com a primeira Guerra do Golfo, década e meia mais tarde.
Destarte, com o ano prestes a findar-se, a gestão democrata encaminha-se para transformar-se em um governo de desistência, visto que a energia dedicada à renovação maior dissipa-se em ritmo acelerado, em face da absorção de tempo em questões administrativas cotidianas e em embates parlamentares – muitas vezes infrutíferos – com os republicanos e com os meios de comunicação mais conservadores.
De maneira tradicional, a concessão de um Nobel é um encargo intricado, por isto provido de polêmica, ao independer menos do futuro galardoado do que de uma determinada conjuntura em que se entrelaçam distintos interesses. Em algumas de suas áreas, como a da paz e a da literatura, a controvérsia apresenta-se constantemente.
Por conseguinte, a destinação de um ao Presidente Obama em 2009 não foi a mais contestável das premiações ao longo do tempo. Para tanto, recorde-se que outros políticos norte-americanos, célebres na história também por outros feitos, receberam a distinção. Citem-se apenas dois outros dirigentes beligerantes para ilustrar a questão: o Presidente Theodore Roosevelt e o titular da Assessoria de Segurança Nacional – posteriormente do Departamento de Estado – Henry Kissinger.
Oficialmente, o fator determinante para a premiação de Roosevelt havia sido o seu envolvimento nas negociações de paz entre Rússia e Japão em 1905, por causa de um conflito em cuja disputa estivera o controle de uma zona portuária na Manchúria.
Destaque-se que, no ano anterior, ele havia sido o executor da atualização da chamada Doutrina Monroe, sob a forma de um corolário assegurador de uma intervenção unilateral, em vista da perspectiva de instabilidade na região centro-americana, e, em 1903, o fomentador da secessão na Colômbia, ao garantir através de um pequeno nascente país, o Panamá, a construção de um canal de quase cem quilômetros viabilizador da conexão entre o Pacífico e o Atlântico.
Ademais, Roosevelt, quando Chefe do Estado-Maior da Marinha, fora um dos maiores entusiastas da guerra com a Espanha em 1898, sob a justificativa de libertação das colônias de Cuba e Porto Rico, a ponto de exonerar-se do cargo para enfrentar as tropas espanholas em solo cubano em um regimento de cavalaria. No fim do conflito, os Estados Unidos estabeleceriam zonas de influência inclusive na Ásia com as Filipinas, formalmente independentes depois do fim da II Guerra Mundial.
Quanto a Kissinger, a sua premiação derivou em 1973 das negociações de paz entre Estados Unidos e Vietnã para encetar um cessar-fogo, logo malogrado. A distinção não impediria o apoio a diversos golpes de Estado na América do Sul, como no Chile em 1973 e na Argentina em 1976, e a invasões como a do Chipre pela Turquia em 1974 e a do Timor Leste pela Indonésia em 1975. Todos eles apoiados na necessidade de conter movimentos nacionalistas ou esquerdistas em uma moldura ideológica dicotômica.
Assim, a premiação no segmento da paz reflete sobremaneira uma visão conjuntural da Comissão Organizadora, o que limita o prestígio da distinção ao tempo de uma peça publicitária, com o conseqüente risco do inevitável esquecimento em alguns anos.
Virgílio Caixeta Arraes é Professor do Departamento de História da Universidade de Brasília (arraes@unb.br).

31/10/2009



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