Honduras e o retorno de Tio Sam, por José Flávio Sombra Saraiva


Honduras, país de importância modesta para os grandes atores do teatro internacional, fez-se centro de crise em 2009. Crise rima com América Central. Nos tempos da Guerra Fria emergiu a crise da Guatemala de 1954. Foi lá o primeiro experimento das cover operations da CIA na América Latina. Um regime político que propunha modernização social foi substituído por um regime de exceção, sob a batuta de Washington. Tio Sam exportava valores e armas para as elites bananeiras e cafeeiras.

Da guerra do futebol entre Honduras e El Salvador às mudanças políticas nos anos 1980, como a elevação da ideologia sandinista, as influências cubanas, entre outros casos, caracterizam a história das relações internacionais da América Central. Mas apesar dos governos mais à esquerda na região nos dias de hoje, a marca histórica da inserção internacional de tais países é a obediência religiosa aos ditames ianques.

Os Estados Unidos, garante da ordem, elegeram o México como o mediador de seus interesses. Tocava aos mexicanos o controle intermediário das potenciais “migrações perigosas” de gente de tais países. Cumpriu bem o México seu papel nos anos 1980 e 1990. Mas perdeu esse papel nos últimos anos.

No vácuo de poder na América Central entraram vários novos atores, como o Brasil e seus empresários, a Venezuela e sua ideologia, e eventualmente o longínquo Irá, com sua ativa embaixada em Manágua. A América Central ficou no vácuo entre uma área de formação de integração na América do Sul e a anexação diplomática e comercial exercida pelos Estados Unidos no México por meio do TLC.

Tio Sam retorna gradualmente a América Central. Obama, cuidadoso em evitar interferências explícitas, já atua fortemente nos bastidores para garantir a tendência de solução da crise que se alastra há várias semanas. Em que consiste a estratégia norte-americana? Primeiro deixaram os embaixadores da OEA desfilarem seus cordões de argumentos a favor de uma solução negociada entre as partes pela boa vontade dos dois presidentes em contenda. Sabia-se que isso não prosperaria dado o grau de entrincheiramento de posições.

Segundo, os diplomatas norte-americanos resolveram trabalhar com o fator tempo, fator essencial na política internacional, sabendo que tudo se dilui no decurso do prazo. Terceiro e último, e o mais importante, iniciou nesses dias a fase das pressões diretas, embora mais discretas que os métodos do tempo do porrete ou das cover operations. Apostam na permanência do governo de fato em Honduras e estão tratando de garantir as eleições que se aproximam. Realizadas as eleições, a feição de Honduras será outra, será o do vencedor do escrutínio, será a nova quadra histórica, sem Zelaya ou Micheletti.

Lição da história: o velho Tio Sam, tido como personagem do passado, vem demonstrando inteligência tática. Exibindo poder demais e bom conhecimento de campo das elites da América Central, propõem os negociadores norte-americanos uma saída pela via do novo tempo, pós-eleitoral, com o candidato escolhido no sufrágio de novembro. Não estamos longe de uma solução oriunda do decurso do prazo.

José Flávio Sombra Saraiva é professor titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq e diretor-geral do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais – IBRI (fsaraiva@unb.br).

Uma resposta para “Honduras e o retorno de Tio Sam, por José Flávio Sombra Saraiva”

  1. Luiz Fernando Gonçalves Porto 30/10/2009 às 1:34 pm

    Penso que nesta história o Brail perdeu uma grande oportunidade de se firmar na região. Historicamente, em situações como esta, nossa diplomacia apresenta uma postura de mediação, não tomando partido em nenhum dos lados. A mudança de comportamento, com a defesa ferrenha de Zelaya, deixou o governo brasileiro em situação estranha. Caso tivéssemos mantido a postura mediadora, talvez não seria preciso chegar ao ponto da entrada dos EUA na contenda.
    Apesar do meu ponto de vista, o artigo fez parecer que a participação dos EUA nesse caso seria inevitável. Isso é fato? Ou o Brasil teria chances reais de resolver a crise caso não tivesse se posicionado, prontamente, ao lado de Zelaya?

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