Depois de mais de cinco décadas quase ininterruptas no poder, o Partido Liberal Democrata (Jimintô em japonês) é derrotado por votação esmagadora em benefício do Partido Democrático do Japão (Minshutô em japonês). Embora as pesquisas de opinião, como a do Asahi Shimbun – um dos principais jornais do Japão em número de exemplares vendidos – já indicasse essa possibilidade, uma mudança dessa magnitude no quadro político do Japão não teria como deixar de instigar a curiosidade acerca das circunstâncias que a propiciaram.
A história do PLD praticamente se confunde com a história política do Japão do Pós-Guerra. Ascendeu ao poder em 1955, três anos depois de o Japão ter ganhado de volta a soberania, com a missão de reconstruir o país destroçado pela guerra e servir de baluarte do modelo capitalista no Extremo Oriente tendo em vista barrar a expansão do comunismo naquela região. A Guerra da Coreia tornou o Japão um elemento estratégico naquela fase da Guerra Fria, o que lhe garantiu os investimentos estadunidenses para a sua recuperação e uma complacência relativamente duradoura em relação a determinadas práticas neomercantilistas agressivas da política comercial japonesa. Oportunidades das quais os governos do PLD souberam tirar proveito para transformar o país na segunda maior economia do planeta.
O objetivo histórico do Japão, desde a Era Meiji (1868-1912), de ser reconhecido pelo Ocidente como uma potência importante foi alcançado, mesmo que essa grandeza tenha se restringido basicamente à esfera econômica. O Tratado de Paz de São Francisco, assinado pelo Japão e pelos aliados vencedores da Segunda Guerra em 1951, pôs fim às aspirações imperialistas/militaristas do país. Na realidade, o Japão não só aceitou as condições, como abriu mão unilateralmente de qualquer aspiração nuclear, concentrando todos os seus esforços no crescimento econômico. Poucas vozes se levantaram contra a orientação japonesa de centrar-se quase exclusivamente em objetivos econômicos. O caso de aversão mais famoso a essa política foi o harakiri do célebre escritor Yokio Mishima, intelectual que não se conformava com um Japão domado e ocidentalizado, órfão das tradições e do ideal de Império (leia-se a renúncia do Japão ao uso da força e ao militarismo).
De fato, pode se atribuir principalmente ao sucesso econômico a sustentação quinquagenária do Partido Liberal no poder. Os japoneses se orgulhavam de seus índices sócio-econômicos, que figuravam entre os melhores do mundo, tais como renda per capita, expectativa de vida e o pleno emprego, que, para outros países, pareceria utópico. O êxito do modelo toyotista (no qual se entrava como estagiário com expectativas de permanecer até a aposentadoria), assombrou por muito tempo as montadoras americanas. Ademais, o Japão, sob a liderança do Partido Liberal, conseguiu enfrentar com firmeza condições adversas como a desvalorização unilateral do dólar, por parte dos Estados Unidos em 1971 e, mesmo com completa dependência energética, as crises do petróleo de 1973 e 1979. Autores como Gilpin [1990], chegaram a prever a ascensão do Japão à condição de maior potência econômica do mundo. Fato o qual, após duas décadas, demonstra o quão complicado é tentar fazer previsões nas Ciências Humanas.
A partir de meados da década de 80, o Japão não conseguiu mais manter o seu ritmo de crescimento e a década de 90 ficou conhecida como “a década perdida”, em função da estagnação econômica. Tendência a qual se demonstrou persistente na primeira década do século XXI. Enquanto isso, seus vizinhos, notoriamente a China, crescia a taxas altíssimas, fazendo o Japão decrescer em importância relativa na região e no mundo.
Mesmo diante do marasmo das últimas duas décadas, o eleitorado nipônico manteve seu apoio ao PLD. Na realidade, uma das características mais marcantes em cinco décadas de democracia no Japão é o conservadorismo do eleitor japonês. Muitos eleitores se mantinham fiéis aos políticos tradicionais e aos herdeiros políticos desses. Mas dois fatos associados a já mencionada estagnação do Japão pesaram nessa última eleição: a Crise Financeira Internacional e a eleição de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos.
Não houve país que estivesse completamente imune à recente crise financeira internacional. Mas alguns países padeceram mais que os outros. O Japão, que já se encontrava em situação vulnerável, quando a crise chegou, sentiu mais fortemente os seus efeitos devastadores. Foram recordes negativos. A queda do PIB japonês chegou a 10% no ano passado e o desemprego atingiu as taxas mais altas desde a Segunda Guerra Mundial. Para o Brasil, um reflexo mais visível disso pode ser percebido na volta dos dekasseguis, cerca de 50 mil brasileiros (aproximadamente 17% da comunidade brasileira no Japão) retornaram desde o início da crise, um número sem precedentes na história dos fluxos migratórios de brasileiros. O marasmo dos últimos vinte anos foi interrompido por um cataclismo financeiro.
Outro fator que teve uma influência nas eleições japonesas, embora não explicitamente, foi a recente eleição de Barack H. Obama à presidência dos Estados Unidos. Os japoneses têm uma admiração especial pelos Estados Unidos e isso é perceptível desde a chegada do comodoro Perry na baía de Edo (1853). À época da eleição americana, a maioria dos japoneses se demonstrou simpática à novidade estadunidense. No Japão, suvenires à imagem e semelhança de Obama, juntamente com comemorações de sua vitória, não faltaram. A análise do discurso do candidato do Partido Democrático, Yukio Hatoyama, demonstra a presença de uma série de elementos que inevitavelmente remete à retórica de Obama, tais como “tempo de mudança”, “vencer o medo”, esperança, etc.
Já o candidato à reeleição do PLD, Taro Aso, assumiu a responsabilidade e pediu perdão pela atual situação do país. Interessante notar que na cultura nipônica o “perdão” tradicionalmente não tem o significado nobre e expiatório do mundo ocidental-cristão. Até nos guias de viagem, sugere-se que seja evitado o uso excessivo de desculpas, pois tal ato pode ser interpretado como “infantilidade” ou, no caso da política, como fraqueza. A honra (conceito importante na cultura japonesa), para os tradicionais, não pode ser reconquistada apenas com o mero pedido de desculpas. O resultado da estratégia de Aso foi que 30% dos eleitores tradicionalmente fiéis ao Partido Liberal votaram no Partido Democrático, conforme os dados do Asahi Shimbun.
A mudança ocorrida na última eleição, no entanto, não se resumiu, simplesmente, na derrota do Primeiro Ministro Taro Aso. Os números foram expressivos: o Partido Democrático conseguiu 308 das 480 cadeiras na Câmara Baixa (o bloco oposicionista com um todo conseguiu 340). Além disso, o número de novatos na Câmara Baixa foi recorde, 158 cadeiras. O número de mulheres que concorreram também o foi; elas somaram 229 dos 1374 candidatos. Dessas, 54 conseguiram ser eleitas, a maioria do Partido Democrático, contra 43 eleitas no pleito de 2005.
Os pilares que sustentaram o PLD no poder por tanto tempo foram o reconhecimento das realizações históricas do partido (o status internacional do Japão como segunda potência econômica e o alto padrão de vida dos japoneses) e o próprio conservadorismo do eleitorado japonês. Mas a Crise Financeira Internacional transformou o desânimo frente ao marasmo em uma necessidade de mudar em função da gravidade dos novos desafios surgidos e a eleição de Obama, na memória recente, teve o seu papel de exemplo inspirador. A vitória do Partido Democrático não foi apenas uma mudança, mas um rompimento com quase cinquenta anos de história. Em um país onde a tradição é extremamente valorizada, o ano 2009 torna-se um marco na história política do Japão.
Referências
- GILPIN, Robert. “Where does Japan fit?” In: NEWLAND, Kathleen (org.). The International Relations of Japan. Worcester: Billing and Sons Ltd, 1990.
- Poll: 30% of LDP faithful voted DJP. Asahi Shimbun. Sep. 1, 2009. Disponível em <http://www.asahi.com/english/Herald-asahi/TKY200909010055.html>, acessado em 01/09/2009.
Rogério Makino é mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (makinotga@yahoo.com.br).

02/09/2009


Realmente, em perspectiva histórica, essa eleição é um marco. Mas e em relação ao futuro? Na prática, o que o partido de oposição tem de propostas concretas que difere do governo anterior? Há condições de implementá-las? Há possibilidades de tirar o Japão da estagnação? Há intenção do Japão desempenhar um papel mais importante no meio internacional?
A mudança foi importante para estimular o desejo dos japoneses por mudanças, já que o país está estagnado economicamente.
A relação do tema com os fatos históricos citados e com a distribuição de dados estatísticos ficou excelente! Parabéns!
Análise interessante e esclarecedora frente as mudanças ocorridas no País.
Adorei e pretendo aprofundar meus conhecimentos em relação ao tema.
De fato foi uma mudança considerável no ramo da política japonesa, agora resta saber a quais outros pontos essa mudança se estenderá, principalmente o que concerne a uma maior participação política japonesa no contexto internacional.