Uma crítica ácida à realidade internacional: esta talvez seja a síntese da trama articulada pelo professor do Departamento de História da Universidade de Brasília, Virgílio Caixeta Arraes, para descrever a configuração da política internacional no século 21. O impacto dos Estados Unidos na conformação da ordem internacional pós-Guerra Fria, o retorno ao jogo de poder pelo uso da força nas relações internacionais, o recurso ao jogo das alianças e do conluio com as grandes potências; a participação do Brasil, normalmente como coadjuvante, neste momento histórico; a força da Igreja Católica como ator internacional, por meio da política externa da Santa Sé; e o reviver de figuras históricas significativas, pela apresentação de notas biográficas. São todos temas que ganham unicidade e coerência quando postos aos olhares atentos do internacionalista que vislumbra neles os delineamentos de uma “ordem perdida na transição” (lost-in-transition-order).
A linha central de pensamento do autor é tal que o desgaste da nova ordem mundial tem relação direta com o desgaste do modelo econômico neoliberal e com o ocaso do protagonismo estadounidense. O embate ideológico é força motriz da história das relações internacionais e a afirmação do binômio neoliberalismo e neoconservadorismo definem a base fundacional da busca contemporânea pelo progresso social e econômico. Dessa forma, o objetivo é o de suscitar inquietações e retirar do leitor as certezas e verdades “comercializadas” no mercado globalizado das idéias. O autor assume uma posição crítica contra a alienação intelectual e a reprodução do discurso hegemonizante de base ocidentalista. Para tanto, divide o livro em cinco capítulos principais que evoluem dos antecedentes de transformação da ordem pós-Guerra Fria até a participação de figuras destacadas na conformação de um “velho-novo-mundo”.
No primeiro capítulo, o autor se dedica a apresentar os aspectos teóricos que explicam a transformação das relações internacionais, como a leitura crítica das teses do fim da história e do choque das civilizações, a noção de guerra preventiva e preemptiva, o nexo entre religião e política exterior, os cânones neoconservadores e o debate sobre o futuro do Estado-nação. Como pano de fundo de A Transformação das relações internacionais – abordagens teóricas, narra o périplo norte-americano, sob a chancela de George W. Bush, para garantir o modus vivendi ocidental pelo estabelecimento, à força, de uma ordem mascaradamente liberal. O desafio seria organizar um mundo fragmentado pela presença de quase-Estados e de zonas supérfluas ou espaços disfuncionais do sistema internacional globalizado, produtores do terrorismo transnacional desfigurado, onipresente e ambíguo. Marcam neste momento, para o autor, o embaraço europeu em assumir uma posição de destaque mediante “hesitação para administrar a ampliação de sua própria autonomia” (p. 20) e a prática da preventividade norte-americana baseada na “clarividência de antecipar sempre os passos futuros de seus eventuais adversários” (p. 26).
O segundo capítulo, O recrudescimento do emprego da força: crises à vista e guerras, fixa o olhar sobre o uso desmedido do hard power pela administração Bush entre 2001 e 2007, tendo como artífices do projeto neoimperialista correligionários como Colin Powel, Condolezza Rice e Paul Wolfowitz. Os fiscalizadores do presente foram responsáveis pela extensão da ação policialesca para outras partes do mundo e outros países, privilegiando o unilateralismo contra o “filoterrorismo fundamentalista e genocida”, que assassinou quase três mil pessoas no 11 de setembro de 2001. Além disso, o autor fala da disposição dos EUA de recompor estados disfuncionais, como o Afeganistão, e trata da criação de imagens externas como a do “eixo do mal”, vanguardas da tirania que definem o novo inimigo a ser combatido. Como alerta Arraes, “o posicionamento norte-americano já não havia sido mais percebido como a materialização do interesse geral da comunidade global” (p. 50).
No terceiro, discute Os reflexos do belicismo norte-americano na política externa de aliados e adversários e na política energética mundial e coloca em evidência a confusão entre o paradigma neoliberal conservador democrático e a identidade internacional dos EUA. Trata-se de repensar as bases de conformação de alianças na política internacional, que vinham do reforço do conservadorismo e da confiança excessiva em medidas de força para combater as ameaças da ubiqüidade do novo terrorismo “fruto da desterritorialização emanada da globalização” (p. 98). Além disso, debate a possibilidade de uma nova corrida armamentista entre EUA, China e Rússia, a renuclearização da ordem, levada adiante por norte-coreanos, paquistaneses, indianos e iranianos. Alguns deles aliados, outros inimigos imaginados. De qualquer forma, Arraes sintetiza que “as inúmeras denúncias sistemáticas de tortura e maus-tratos contribuem para o desmerecimento da virtude das instituições norte-americanas” (p. 122).
O capítulo quatro redireciona a bússola de interesse para visualizar a participação do Brasil nas grandes questões internacionais ao tempo das empreitadas norte-americanas descritas anteriormente. O mundo e o Brasil: notas sobre as opções político-econômicas retrata a frustração latino-americana com o projeto regional norte-americano e as dúvidas quanto ao modelo sócio-econômico a determinar sua inserção internacional. Arraes critica a tentativa de humanização do neoliberalismo que parece estar “envergonhado após o balanço social e desenvolvimentista negativo no século passado sob a sua rubrica” (p. 133). Da mesma forma, descreve as aventuras do Brasil no Haiti, em busca de um “utópico” assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas, como exemplo de modificação da pauta de política externa proposta pelo Partido dos Trabalhadores, durante as eleições, e aquela implementada com o governo Lula. O autor aponta uma modificação de cunho ideológico, do socialismo para o conservadorismo, que levaram a gestão Lula a realizar programas sociais simples e limitados. Destoou, neste caso, a tentativa de implementação do Fome Zero Mundial, proposta relativamente bem aceita internacionalmente, mas originária de um programa interno deficiente.
A política externa da Santa Sé, tema do quinto capítulo, marca a aproximação entre o Vaticano e o governo nos Estados Unidos e os primeiros passos do pontificado de Bento XVI. O sexto e último capítulo, A guerra fria: notas biográficas é um interessante e peculiar esforço de incluir o estudo de personalidades históricas, objetivando dimensionar o papel do indivíduo na determinação dos rumos das relações interacionais.
Este livro de Virgilio Arraes colabora com o desenvolvimento do campo de estudo das Relações Internacionais ao disseminar uma visão de mundo contrária ao pensamento único que marcou as Ciências Humanas no Brasil e em outras partes do mundo nas últimas duas décadas. Contudo, por ser uma compilação de vários textos escritos entre abril de 2004 e março de 2007, sofre com duas debilidades: a descontinuidade da argumentação, interrompida e retomada a cada fragmento de texto; e a fluidez da narrativa histórica, que não encontra abrigo na linguagem da história do presente.
Independentemente disso, Arraes circunstancia de forma criteriosa o paradoxo do poder americano pela contraposição das ações excessivamente militaristas e as conseqüências essencialmente antiliberais e violentamente contrárias aos direitos humanos. Ademais, vislumbra um complexo quebra-cabeça, ainda sem solução para os internacionalistas: a saída dos EUA do Iraque. Neste caso, uma importante inflexão, ou mesmo uma ruptura na política internacional, pode ocorrer nos próximos anos, quando da definição do futuro dos EUA no Oriente Médio. Além disso, a fadiga do poderio militar dos EUA faz do “país indispensável” um fardo de ambição desmedida e desordem, levando a reflexão sobre o seu papel no futuro das relações internacionais.
Enfim, como lembra Thomas Kuhn, a evolução do conhecimento científico nasce de uma tensão essencial entre inovação e tradicionalismo, entre pensamento crítico e consensual. Virgílio Arraes está definitivamente no espectro da inovação e do pensamento crítico, contribuindo para o progresso da ciência das Relações Internacionais.
ARRAES, Virgílio. Relações Internacionais: o desgaste da nova ordem mundial. Brasília: Universa, 2008. 218p. ISBN: 978-85-60485-28-4.
Thiago Gehre Galvão é Professor de História das Relações Internacionais do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Roraima – UFRR e doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (thiago.gehre@gmail.com).

01/09/2009


Penso que o livro vale a pena a leitura, tendo em vista a descrição detalhada e instigadora da resenha.