Tradicionalmente, após o encerramento da transição presidencial, o grupo ascendente conta, durante os seus primeiros meses no poder, com a lhaneza do silêncio da equipe que se retira, mesmo depois de um pleito bastante disputado. É para os recolhidos um período de reflexão política e para os vitoriosos um de muita movimentação.
Em vários casos, dependendo da herança administrativa, os oponentes, ausentes do proscênio político por ao menos um mandato, desejam estender indefinidamente o pacto oficioso de taciturnidade. O esquecimento temporário aos olhos da opinião pública é uma maneira de recuperação e, por conseguinte, de nova agrupação de partidários – e quiçá de possíveis simpatizantes – do projeto governamental substituído.Assim, como esperado, o ex-Presidente George Bush retirou-se dos olhos do eleitorado, até em função do enorme desgaste por que passou nos últimos meses de mandato, ao ter de distanciar-se publicamente do candidato de seu próprio partido, Senador John McCain, à sua sucessão. No entanto, o seu vice, Dick Cheney, menosprezou o costume e procura-se firmar como o maior crítico da gestão Obama em seus primeiros meses.
A verborragia de Cheney direciona-se bastante para a atual política externa, exatamente uma das áreas de maior corrosão política quando do governo Bush. Observadores da Casa Branca naquele momento não puderam deixar de relembrar os antigos vínculos entre vários servidores de alto escalão, como o próprio vice-presidente, e grandes companhias norte-americanas, como a Halliburton, empregadas na reconstrução dos países ocupados, ainda que não se pudessem comprovar eventuais benefícios financeiros decorrentes deste relacionamento passado.
Eminência parda da administração republicana, o então vice-presidente buscou influenciar diversos segmentos da administração com vistas à adoção de posicionamentos mais conservadores, fossem na área da política externa, fossem na ambiental.
Além do mais, Cheney sempre postulou de modo incansável a diminuição das restrições existentes aos poderes presidenciais – no caso, uma de suas posturas mais polêmicas foi a ardorosa defesa da aplicação de técnicas intensas de interrogatório, como o afogamento, por exemplo, sem que isto fosse considerado tortura ou que se chocasse com o teor da legislação internacional.
Outrossim, não se pode esquecer do seu papel na confabulação desaguada alguns meses mais tarde na Segunda Guerra do Golfo, ao articular-se com deputados republicanos em 2002 para obter o apoio do Congresso, a despeito do posicionamento contrário de muitos parlamentares até em sua própria agremiação partidária. Para estes, um confronto militar somente se teria justificado caso o país fosse atacado, como no atentado terrorista de setembro de 2001.
Com o objetivo de superar a tergiversação entre os muitos congressistas incrédulos acerca da necessidade de uma confrontação no Oriente Médio, o gabinete de Cheney exagerou o poderio militar da combalida ditadura de Saddam Hussein, de modo que o Iraque parecesse ser de fato uma ameaça à população dos Estados Unidos e quiçá à do mundo. Na Organização das Nações Unidas, o Departamento de Estado se prestaria a repercutir o ameaçamento, mas sem o mesmo êxito.
Após setembro de 2001, a equipe do vice-presidente inclinou-se a aceitar a inevitabilidade de que organizações terroristas, para lograr sucesso em suas operações, precisariam inevitavelmente aliar-se a Estados renegados, de sorte que pudessem encontrar, mesmo de maneira temporária, abrigos.
Embora o Iraque tivesse sido o país escolhido, a Casa Branca tinha a consciência de que Paquistão ou Arábia Saudita, aliados antigos, podiam acolher muitos mais extremistas do que o decadente regime de Bagdá. Em nome da estabilidade político-econômica, entrementes, Washington preferiu ser bastante seletivo na divulgação de informações à opinião pública, de modo que a confundisse.
Em tese, de um inusitado congraçamento entre minúsculas agremiações fundamentalistas e ditadores proscritos, poderia irromper, segundo a visão de Cheney, o contrabando constante de armas de destruição em massa. Destarte, os Estados Unidos, como supervisores da nova ordem mundial, deveriam zelosamente impedir a irmanação destes atores.
Se a invasão do Iraque ocasionasse a derrubada de Hussein e, por conseguinte, encerrasse os laços com eventuais terroristas, os demais Estados renegados conteriam as suas terríveis parcerias extremistas. Como constatada, a expulsão do Partido Baath do poder não desencadeou a reforma da sociedade iraquiana, porém um conflito sem saída à vista, com dezenas de milhares de mortos e feridos.
Ao manipular informações e análises dos setores de espionagem, Cheney também se mostrou obstinado em restringir o acesso a documentos do Executivo por congressistas e mesmo por juízes, ao alegar que a exposição pública poderia prejudicar o planejamento dos formuladores da política externa por constrangê-los. Assim, o país seria o maior afetado.
Ao mesmo tempo, o seu grupo foi acusado de expor de maneira injustificada oponentes, mesmo se oriundos do âmbito administrativo, como foi o caso de Valerie Plame, servidora da Central Intelligence Agency e esposa do Embaixador Joseph Wilson IV, crítico da política concernente ao Iraque antes da invasão.
Destarte, o histórico conturbado da gestão Bush, período em que se constata que o vice-presidente posicionou-se acima de suas obrigações administrativas, não o habilita ou legitima a terçar armas politicamente com a presente administração.
Virgílio Caixeta Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília – UnB (arraes@unb.br).

30/06/2009



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