Estados Unidos: primeiras impressões da gestão de Obama, por Virgílio Arraes

Ao ser empossado em janeiro, Barack Obama assumiu perante o eleitorado de seu país o compromisso moral de recuperar o prestígio dos Estados Unidos no mundo. Tradicionalmente, a primeira avaliação da gestão de um governante norte-americano ocorre após os cem primeiros dias, considerados como sendo a lua-de-mel política entre o eleito e a população de um modo geral.

Essas primeiras semanas estima-se também serem o tempo necessário para que o presidente e seus principais assessores inteirem-se do funcionamento da estrutura burocrática e passem a organizá-la de acordo com as suas prioridades administrativas. Esta tarefa é mais melindrosa na área da política externa e principalmente na da defesa, ampliada do ponto de vista funcional com o estabelecimento do Departamento de Segurança Interior – Homeland Security – após o atentado de setembro de 2001.

No transcorrer da gestão de Bush Jr., houve choques constantes entre os desígnios do gabinete de seu vice, Richard Cheney, e os da burocracia vinculada à coleta e análise de informação sensível, principalmente no tocante à comprovação da posse de armas de destruição em massa pela ditadura de Saddam Hussein em 2002.Desde o início da Guerra Fria, poucos titulares da Casa Branca haviam tido de fato contato significativo nos dois campos ao longo de suas carreiras. Entre todos eles, apenas três trouxeram consigo experiência bem comprovada: Dwight Eisenhower (1953-61), um dos poucos oficiais-generais da história norte-americana com cinco estrelas e primeiro Comandante-Chefe da Organização do Tratado do Atlântico Norte; Richard Nixon (1969-74), Vice do antecedente; e George Bush Sr., (1981-1989), Diretor da Agência Central de Espionagem (1976-77) no governo Ford e adjunto de Ronald Reagan na Casa Branca (1981-89).

A característica principal do governo Obama tem sido a prudência, demonstrada desde a transição ao confirmar a permanência de nomes da administração Bush na área de defesa e recuperar os do campo econômico da época do duplo quatriênio de Bill Clinton. Na política externa, constatam-se convergências com a gestão antecessora como o reforço militar no Afeganistão, ao decidir a Casa Branca enviar mais 17 mil efetivos para se somarem às tropas da aliança atlântica.

Por outro lado, o governo executou logo nos primeiros dias importantes medidas, a fim de diferenciar-se da administração predecessora: a desativação do presídio da base de Guantánamo, o encerramento das prisões secretas no ultramar e a proibição de técnicas de tortura em interrogatórios de suspeitos de terrorismo.

Paralelamente, há duas situações inquietantes na Casa Branca: a decisão de não mais divulgar ao público imagens de torturas executadas por militares do país nas duas frentes no continente asiático. Uma das razões adviria da necessidade de sustentar o moral das tropas elevado, mesmo sob eventuais excessos de alguns de seus membros.

De acordo com o posicionamento de oficiais superiores, a exposição de fotos ou filmes pelos meios de comunicação reforçaria o ânimo de resistência dos habitantes iraquianos ou afegãos e ampliaria a oposição da população quanto à presença das tropas.

A outra se relaciona com a atuação das corporações de segurança em função de muitos de seus funcionários serem normalmente ex-militares, de preferência oriundos de unidades de elites ou do alto oficialato.

Não é no momento possível avaliar o grau de descontentamento das forças armadas com elas: a formação de um combatente de escol dura anos, porém em vista da atração de salários bem mais compensadores, muitos antecipam a sua ida para a reserva. Nem sempre o Departamento de Defesa pode providenciar a reposição na medida das necessidades cotidianas.

Faz-se oportuno registrar que: relativamente à situação econômica dos Estados Unidos, medidas de largo alcance foram executadas de imediato, como o auxílio governamental maciço ao setor financeiro, sem que, no entanto, houvesse a indicação de uma ampla nacionalização em virtude da origem dos recursos destinados a ele ou a determinação para se investigar profundamente a razão de tamanha incúria gerencial ao longo de tantos anos.

Contudo, Obama reconheceu a necessidade de reformas estruturais na economia, com o fito de que de que não haja, dentro de alguns anos, uma nova bolha oriunda da especulação. Como conseqüência, criticou o estilo de administração de grandes empresas que, não obstante os efeitos deletérios da crise, ainda insistem em premiar com altas bonificações seus diretores.

Na política externa, conquanto haja sinais de valorização da diplomacia como se observa no que concerne ao Irã e à América do Sul, tendo em vista Venezuela, Bolívia, Paraguai e Equador, há, por outro lado, a ampliação da militarização no Afeganistão, acima mencionada, e quiçá mesmo no Paquistão, sob a justificativa de oposição ao terrorismo de extração religiosa.

Em pouco mais de uma centena de dias, mencione-se que não há a possibilidade de obtenção de resultados significativos, ainda mais em tempos de crise, porém de firmamento das principais diretrizes em um horizonte temporal, a princípio, de quatro anos.

Mesmo sendo início de mandato, o desassossego, porém, já bateu à porta da equipe presidencial quando se cotejam os índices de aprovação do governo Obama com os dos dirigentes anteriores: à exceção de Bill Clinton, em sua primeira gestão, a presente administração não conseguiu um bom desempenho, ao mal ultrapassar o percentual de 55% de satisfação popular.

Virgílio Arraes é Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – iREL-UnB (arraes@unb.br).

Uma resposta para “Estados Unidos: primeiras impressões da gestão de Obama, por Virgílio Arraes”

  1. Murillo Gomes Ferrarez 03/06/2009 às 1:07 am

    100 dias não são suficientes para ter uma visão geral da atuação do Presidente Obama. Mas em 100 dias , a nova gestão conseguiu articular, por mais que ligeiramente, assuntos polêmicos como a prisão de Guantanamo, e a retirada dos soldados do Iraque.
    Teria Obama ou algum de seus assessores, lido KANT e entendido que para atingir uma paz perpetua, nenhum Estado em guerra com o outro deve ter em seu curriculo hostilidades como : mercenarios, tortura, desconfiança. Tornando assim impossivel a confiança mutua na paz futura?
    Opinião pessoal, a Casa Branca está sendo bem conduzida.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Gravatar
WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 1.203 other followers