Estados Unidos: regionalizar a questão afegã, por Virgílio Arraes

Após completar cem dias à frente da Casa Branca, o Presidente Obama destina maior atenção à questão econômica, em vista dos efeitos da crise iniciada no ano passado nos Estados Unidos e com o espraiamento em todo o globo. Nesse sentido, ele esforça-se para enfatizar a importância de um desenlace coordenado de maneira multilateral para o tema, ao incluir na pauta de negociações as vinte maiores economias, o que possibilita a participação com certo destaque do Brasil.

Não obstante as preocupações com uma recessão mundial, a Casa Branca ainda se debruça sobre o Iraque e o Afeganistão, a fim de verificar o melhor encaminhamento para os dois confrontos. No caso do último, o desassossego de Washington vincula-se com a possibilidade de o conflito estender-se definitivamente para o Paquistão, ao ultrapassar o âmbito do estado de Balochistão – o maior do país – situado na fronteira. Embora seja um tradicional aliado norte-americano, o Paquistão está em conturbado processo político, por causa da ascensão de grupos extremistas, o que assombra o governo Obama, tendo em vista que Islamabade é detentor de armas nucleares e de forças armadas com cerca de 600 mil efetivos, sendo uma dos dez maiores do planeta.

Com o objetivo de reprimir de modo mais eficiente a resistência talibã no Afeganistão, o governo norte-americano planeja enviar mais quase 20 mil combatentes para a região. O ponto principal para o estabelecimento de uma data mais precisa para a retirada militar esbarra na desconfiança com o governo de Hamid Karzai, considerado ineficiente e mesmo corrupto. Contudo, a situação aflitiva de Washington não decorre apenas da atual elite política afegã, mas também de acordos políticos internos.

A Casa Branca optou por delegar a execução da política externa à ala do Partido Democrata vinculada ao grupo do ex-Presidente Bill Clinton, sendo a sua própria esposa, ex-senadora por Nova York, a titular do Departamento de Estado. O seu desafio é demonstrar que os Estados Unidos ainda são a ‘nação indispensável’ – conforme expressão empregada por Madeleine Albright no final dos anos 90 quando à frente da diplomacia – e, por conseguinte, a parte mais importante da solução na turbulenta política internacional, não o seu problema.

No Afeganistão, a previsão de permanência militar, sob a ótica democrata, ultrapassaria o mandato de Obama, mesmo sendo ele reeleito: dez anos. Deste modo, o total de efetivos até 2010 chegaria a quase 70 mil – mesmo assim, em casos extremos, as forças armadas continuariam a se valer do emprego do Predator, avião não tripulado, a fim de poupar os seus combatentes.

Com o objetivo de manter a nova estrutura, precisar-se-ia de 30 bilhões de dólares a mais por ano, soma a ser obtida do orçamento originalmente destinado ao conflito no Iraque. Da quantia cogitada, menos de 20% dirigir-se-ia à assistência técnica ou humanitária, o que caracterizaria a reiteração da política republicana aplicada desde a ocupação daquele país.

Os novos contingentes seriam deslocados em sua maioria para o sul e para o leste do território afegão, com o fito de executar missões de caráter contra-insurrecional. A expectativa é contribuir para a estabilização da fronteira com o Paquistão. Quase simultaneamente, o cultivo da papoula deverá ser também reprimido, tendo em vista a necessidade de dificultar o financiamento dos talibãs.

Com a ampliação das tropas, o número de encarceramentos provavelmente subirá, o que exigirá dos Estados Unidos a reformulação de seu papel como agente penitenciário, em face das constantes denúncias de maus-tratos aos prisioneiros. Além do mais, estes seriam julgados por qual ramo do judiciário? Civil ou militar? Além do mais, encaminhar-se-iam os detidos a tribunais de que nacionalidade? De origem norte-americana ou afegã?

Acrescente-se que sem perspectivas de desenvolvimento econômico no país, a juventude torna-se mais sensível a mensagens extremistas, ainda mais se voltadas para a expulsão dos invasores. Não custa registrar que o Afeganistão, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), encontra-se na 173ª posição em termos sociais de um conjunto pesquisado de 178.

Do ponto de vista militar, o posicionamento estadunidense seria envolver a Organização para Cooperação de Xangai que abarca, entre outros, Rússia, China, Tadjiquistão, Usbequistão e o próprio Paquistão, enquanto se afastaria gradativamente a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), visto que o seu fracasso como força-tarefa além-fronteiras é evidente. Ademais, países como Canadá e Holanda demonstram desinteresse em continuar a manter tropas.

Se a intenção é permanecer por mais uma década, seria bem mais proveitoso para os Estados Unidos tentar granjear apoio político e militar de Estados fronteiriços ou próximos do Afeganistão do que suplicar em foros transatlânticos a permanência de efetivos desestimulados – e bastante caros – da OTAN.

Virgílio Arraes é Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – iREL-UnB (arraes@unb.br).

Uma resposta para “Estados Unidos: regionalizar a questão afegã, por Virgílio Arraes”

  1. A intervenção dos EUA no Afeganistão acabou sendo uma faca de dois gumes, pois, ainda que tenha todo esse contexto instável de um país ocupado por tropas militares de outra nação, há ainda, o fato de em um primeiro momento ter sido quase necessária, já que a ascensão do Talibã no Afeganistão foi sinônimo de mais conflitos, imposição e sérias violações de direitos humanos no país, sendo as mulheres as principais vítimas. É lamentável a situação do país, que vem sofrendo desde a Guerra Fria e não há perspectiva de possível estabilidade.

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