Logo após o fim da Guerra Fria, o mundo parecia não ter dúvidas de que entraria em uma era de unipolaridade, na qual o cenário internacional seria dominado pela política de potência da então superpotência, os EUA. Contudo, o que se assistiu a partir deste fato foi uma emergência de potências econômicas e políticas que, apesar de não possuir tamanho arsenal bélico para fazer frente aos EUA, conseguiram mostrar suas vontades, influenciar tomada de decisões e mostrar que também são países-chave no meio internacional.
Portanto, a observação que se faz sobre o atual desenrolar das ações no âmbito internacional é que se está vivenciando uma era de multipolaridade, em que existem vários pólos de poder. Por outro lado, existem os que afirmam que se vive em uma era unimultipolar, isto é, que a despeito de haver uma potência que se sobressai em alguns setores importantes, como o militar no caso dos EUA, vários outros centros de poder devem ser considerados para que se tenha uma aproximação mais verossímil da configuração do sistema internacional.
Com essas considerações em mente, a presente análise tem como objetivo discutir evidências de uma nova emergência da Rússia como foco de poder no meio internacional. Para isso, faz uma retrospectiva dos principais fatos, principalmente de 2009, que levaram a tal fato.
Em janeiro de 2009, assistiu-se à que foi considerada a pior crise energética europeia, devido ao não-fornecimento de gás pela empresa estatal russa Gazprom à Ucrânia, país do qual partem gasodutos para várias partes da Europa. Isto aconteceu devido ao não-pagamento de dívidas e à não aceitação, pela Ucrânia, dos novos preços desse combustível estabelecidos por Moscou. O fornecimento do gás foi restabelecido depois de aproximadamente 20 dias, com a assinatura de um contrato entre Ucrânia e Rússia, determinando que até o final deste ano, o primeiro terá descontos no preço do gás. Contudo, no começo de março, um novo impasse se instalou e, durante três dias, a Gazprom cortou pela metade as quantidades enviadas aos gasodutos da Ucrânia em consequência da falta de pagamento de dívidas ucranianas à Rússia, que giram em torno de US$ 400 milhões.
A interpretação do episódio descrito permite concluir que mais do que somente utilizar seu poderio energético como arma política na defesa de seus interesses econômicos, a Rússia também pode fazer dele motivo para gerar tensões políticas em países que, como a Ucrânia, mantêm boas relações com os governos ocidentais, especialmente agora que países tão próximos às suas fronteiras, como a Geórgia e a própria Ucrânia, estão prestes a se tornar membros da OTAN.
A expansão da OTAN é, claramente, um fator de grande preocupação para o governo de Moscou. A possibilidade de possuir tropas da OTAN em regiões vizinhas ao seu território fez com que o presidente russo Dmitry Medvedev declarasse, em meados do mês de março, que, a partir de 2011, a Rússia vai dar início a um plano de rearmamento de suas forças armadas. O Exército e a Marinha serão reequipados, passarão por um processo de reestruturação e se adequarão a um novo sistema de ensino militar, além de passarem a receber uma maior porcentagem de gastos do governo. O presidente afirmou ainda que ademais dos efeitos negativos da crise financeira sobre as receitas governamentais, o Estado russo possui recursos para ser investidos em segurança nacional. O presidente Medvedev disse que “um Exército moderno, bem treinado e equipado com novíssimo armamento é a garantia de nossa segurança, de nossa defesa em qualquer agressão potencial”. Acrescentou também que esta seria uma “condição básica” do desenvolvimento da Rússia, de sua economia e do bem-estar de seu povo.
O plano de rearmamento deve terminar em 2020, quando o país terá renovado sua frota de navios de guerra e seu sistema de defesa aérea e espacial, totalizando um gasto de cerca de US$ 150 bilhões de dólares com a compra de armamentos. Ainda que os gastos sejam baixos se comparados ao que o governo norte-americano destina à segurança nacional – cerca de US$ 600 bilhões anuais – o anúncio da nova estratégia é significativo no cenário internacional para mostrar que a Rússia está disposta a se posicionar contrariamente a ações da OTAN, se estas desacordarem de seus objetivos políticos.
Outro exemplo de não-alinhamento da Rússia com os interesses ocidentais seria a parceria com o Irã na construção e no teste de sua mais nova usina nuclear em Bushehr (sul deste país). Apesar de ser acusado, principalmente pelos EUA, de estar mascarando a construção de armas nucleares com tal usina, o Irã realizou com a Rússia, no final do mês de fevereiro, os primeiros testes de operação da mesma, afirmando que ela será de extrema importância para a geração de energia para o país – e nada mais. A mesma foi inaugurada no início deste mês de abril, sob declarações de Teerã de que o país pretende, com a geração de energia da nova usina, exportar todo o seu petróleo, admitindo ter realizado testes de equipamentos de tecnologia avançada no enriquecimento de urânio.
Assim como o apoio ao Irã, a Coreia do Norte também possui se não um aliado, mas ao menos um suporte contra medidas mais drásticas do Conselho de Segurança da ONU (CSNU) para a península coreana. Após o lançamento do foguete norte-coreano, no dia 05 de abril, anunciado como colocando em órbita um satélite, o Japão convocou uma reunião do CSNU e, devido à oposição de China e Rússia, estratégias de sanção contra o regime de Pyongyang tiveram que ser postergadas. Países como Japão, Coreia do Sul e EUA apontam que esse lançamento poderia servir como teste nuclear de mísseis de longo alcance, que poderiam atingir até mesmo o Alasca.
Contudo, mesmo observando-se essa resistência ao Ocidente, o Ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, em reunião com a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, mostrou que a Rússia estaria disposta a cooperar com os EUA na estabilização do Afeganistão, bem como no combate ao terrorismo internacional e na não-proliferação de armas nucleares, com atenção especial ao Irã e à Coreia do Norte. Somando-se a isso, no início do mês de março, as relações entre OTAN e Rússia foram retomadas oficialmente. Estas estavam rompidas desde o último incidente com a Geórgia, em agosto de 2008.
Além de demonstrar concordância com a política norte-americana, a Rússia fez um apelo para que os dois governos assinem um novo acordo de contenção do número de armamentos nucleares, substituindo o START-1, que expira em dezembro de 2009. Pelo START-1, assinado em 1991 pela então União Soviética e pelos EUA, ambos os países se comprometeram a limitar em seis mil o número de ogivas nucleares para cada um dos lados, bem como em mil e seiscentos o número de mísseis e bombardeios. Nunca houve uma fiscalização intensa para que o acordo fosse cumprido, chegando até mesmo a ser substituído pelo START-2, que nem ao menos foi colocado em prática.
Nesse novo acordo a ser assinado entre EUA e Rússia, esta está disposta a limitar não somente ogivas nucleares, “mas [também] veículos de lançamento estratégico, como mísseis balísticos intercontinentais, mísseis balísticos lançados de submarinos e bombardeios pesados”.
Dessa forma, as ações da Rússia no cenário internacional parecem um tanto quanto contraditórias. Seu governo se diz concordar com as tentativas de combate ao fundamentalismo islâmico, mas está receoso quanto à presença norte-americana perto de suas fronteiras. Concomitantemente ao restabelecimento dos diálogos com a OTAN e com os EUA, Moscou freou ações de intervenção nos países da região ou com ideias afins.
Se a intervenção for necessária, que seja feita com sua ajuda, como sugerido no caso do Afeganistão. Manter a estabilidade neste país significa também ter controle sobre suas fronteiras de minoria muçulmana. Sobretudo, é importante que esse ambiente estável seja vigiado de perto por seus oficiais que, se por um lado ofereceram todo o apoio retórico ao governo dos EUA, por outro lado pagaram cerca de US$ 2 bilhões ao Quirguistão por haver fechado, em seu território, uma base de controle norte-americana de combate ao Talibã.
É desse modo ambíguo que a Rússia se mostra importante no jogo político internacional. Mostra-se disposta a defender seus interesses, sejam eles mais próximos ou não do Ocidente. Porém, o que vem ficando claro para especialistas é a determinação russa em garantir suas áreas de influência em sua região, principalmente nos países do Cáucaso e dos Bálcãs. Não parece fazer parte de sua política externa a influência em escala global. Diferentemente da época da Guerra Fria, na qual a União Soviética tinha poderes de superpotência do cenário internacional, atualmente o que se vê é um país voltado para suas regiões fronteiriças, preocupado com sua hegemonia na região.
A política de rearmamento seria uma prova desses interesses regionais, já que o Kremlin tem a OTAN próxima às suas fronteiras como a principal ameaça à sua soberania. O fato de ter assinado acordos de cooperação energética com Venezuela e Bolívia, além de ter realizado testes militares com navios de guerra no Caribe, não mudam tal perspectiva regional, uma vez que esses acontecimentos podem ser vistos como uma forma de o país mostrar aos EUA que também podem estar presentes em sua área de influência. Além disso, esta seria uma maneira prática de se opor à possível instalação do escudo antimísseis norte-americano na Polônia e na República Tcheca, instalação esta considerada pelo governo russo uma ameaça ao seu território e aos seus interesses na região.
As reações do governo dos EUA frente às declarações de rearmamento russo foram as mais neutras possíveis. O presidente Barack Obama expressou que se essa política não ferir os princípios de segurança internacionais, nem interferir na nova fase de diálogo entre os dois governos, então que ela é um direito do país. O que deve chamar atenção não só dos EUA, mas também de Canadá, Dinamarca e Noruega é um documento assinado em setembro de 2008, mas divulgado somente no final desse mês de março, anunciando que a Rússia pretende enviar agentes militares e de seu serviço de segurança civil para o Ártico. Espera-se que essa região se torne, até 2020, sua principal fonte de recursos energéticos como petróleo, gás e metais.
Percebe-se, assim, como a Rússia se projeta com relevância no meio internacional nesse século XXI, e como está disposta a garantir sua hegemonia regional, mesmo que adote, em alguns momentos, uma política expansiva de âmbito global. Resta saber se, apesar de uma era multipolar, existirá qualquer tipo de conflito direto entre as partes interessadas na região da Rússia como área de influência. Há quem diga que os EUA não estão dispostos a colocar os russos como prioridade em sua agenda. Alguns especialistas afirmam que após assinados os acordos esperados com Moscou, os EUA colocarão a Rússia em um segundo plano de sua agenda, o que atrapalha as ambições do Kremlin de se mostrar como potência.
A Rússia acredita no mundo multipolar, como já anunciou em reunião dos BRICs, e quer mostrar que voltou para a disputa de áreas de influência regionais, mesmo que possua políticas de caráter internacional. Numa era de unimultipolaridade, mesmo com os EUA encabeçando as principais ações políticas internacionais, a Rússia vem se mostrando um centro de poder e contestação.
Heloíza Feltrin Bandeira é Membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (helofeltrin@gmail.com).

30/04/2009


Análise interessante sobre a dinâmica atual das relações EUA x Rússia, onde está muito bem definida a questão da unimultipolaridade.
Adorei…