Coréia do Norte: testando seu poder de barganha, por Wilson Tadashi Muraki Junior


Ao mesmo tempo em que os principais líderes mundiais encontravam-se na Europa para discutir soluções para a crise financeira global no âmbito do G-20, a atenção do planeta insistia em virar-se também para o Leste Asiático: afinal, todos queriam saber se a Coréia do Norte realmente faria um lançamento de um satélite ou se aquilo na verdade seria mais um teste com mísseis. Não se pode deixar de lado o fato de que Pyongyang anunciou o lançamento com antecedência, não buscou encobrir suas movimentações e sustenta veementemente a versão de que um satélite estaria neste momento no espaço propagando canções comunistas por todo o planeta. Desse modo, parece o país comunista ter tentado colocar a comunidade internacional em xeque, já que, ao não violar nenhum acordo internacional ou resolução do Conselho de Segurança, teria, assim, transmitido mensagens claras a diferentes atores sob um custo muito baixo.
A nenhuma nação é privado o direito de explorar o espaço. Consciente disso, mas também seguindo o caminho deixado pelo bem-sucedido lançamento do Irã de um satélite construído com tecnologia doméstica em fevereiro deste ano, a Coréia do Norte anunciou há meses que estava prestes a lançar ao espaço um satélite de telecomunicações. Antes disso, no entanto, agências de inteligência da Coréia do Sul, Estados Unidos e Japão já anunciavam movimentações de Pyongyang, que estaria, segundo elas, preparando-se para um novo teste balístico, semelhante aos realizados em 1998 (quando um míssil lançado pelo regime comunista atravessou o espaço aéreo japonês e caiu no Pacífico) e em 2006 (quando um míssil de médio alcance foi lançado, mas caiu no Mar do Japão em menos de um minuto).
Levando-se em conta o fato de a Coréia do Norte ser considerada um país pária perante a comunidade internacional, já tendo realizado testes balísticos anteriormente sob a mesma justificativa de exploração espacial e que, por fim, possui tecnologia suficiente para fazer disparos de mísseis, Japão, Coréia do Sul e Estados Unidos buscaram dissuadir Pyongyang quanto ao prosseguimento do teste, ao passo que China e Rússia demonstraram-se “preocupadas” com relação ao agravamento da tensão na península. De fato, houve mobilização militar por parte das nações envolvidas, piorando ainda mais as relações entre os países, que já se haviam deteriorado desde alguns meses. A Coréia do Norte chegou a ameaçar os vizinhos com guerra total caso o foguete fosse abatido.
Na verdade, o agravamento da relação da Coréia do Norte com seus vizinhos tem se agravado desde que Lee Myung-bak assumiu a presidência da vizinha Coréia do sul há um ano, adotando uma linha dura no trato com Pyongyang; ficou suspensa, assim, toda a ajuda até que o regime comunista adotasse linha de negociação com maior compromisso com real cooperação. Houve fechamento algumas vezes da fronteira entre os dois países, e projetos comuns de desenvolvimento (como o pólo industrial de Kaesong no norte) viram-se ameaçados. Maior tensão foi criada, no entanto, com o treinamento em conjunto de forças militares sul-coreanas e norte-americanas ocorrido há algumas semanas, naquilo que Pyongyang teria interpretado como sendo ‘preparativos de guerra’.
No âmbito de negociações entre as seis partes (China, Coréia do Norte, Coréia do Sul, Estados Unidos, Japão e Rússia), há impasse quanto à verificação do fechamento do reator de Yongbyon. Acredita-se que a derrubada da torre de resfriamento em junho de 2008 seja de pouca credibilidade quanto às reais intenções do governo de cessar o desenvolvimento de armas de destruição em massa. Nesse sentido, países como Estados Unidos, Japão e Coréia do Sul desejam coletar amostras no local, o que não é permitido por Pyongyang. Assim, o fornecimento de ajuda ao país comunista tem sido congelado, e o governo comunista compreende que a falta de suprimentos para a população pode tornar-se um catalisador de manifestações contra o regime. A este último aspecto deve-se incluir o fato de que a Coréia do Norte tem sido assolada por desastres naturais (como enchentes) nos últimos anos, o que acabou gerando quebras sucessivas de safras e fome de forma generalizada.
Além disso, tem-se especulado muito com relação à real condição do próprio líder máximo do país, Kim Jong-Il, que ficou por meses sem aparecer nos principais eventos e meios de comunicação. Especula-se, portanto, que o lançamento ainda que de um satélite seja uma forma de o governo mostrar-se presente e forte, e não por acidente, pouco tempo depois do acontecimento já se anunciou a reeleição de Kim Jong-Il para o mais alto posto do país.
Além de transmitir à sua população sua capacidade de ação, o governo norte-coreano buscou chamar a atenção da comunidade internacional para o fato de que o país possui alta capacidade de desestabilização do sistema, merecendo, portanto, ser tratado como um poder relevante no Extremo Oriente. Para os vizinhos Coréia do Sul e Japão, que vinham mantendo posições mais rígidas, a mensagem clara é de que a Coréia do Norte possui tecnologia suficiente para lançar mísseis (que, em última instância, poderiam transportar armas nucleares), e, desse modo, possui um poder de barganha que não pode ser desconsiderado.
Para o novo governo de Obama, a Coréia do Norte apresenta-se como um desafio não resolvido pelas administrações anteriores, de tal modo que o último lançamento pode ser interpretado como uma maneira de buscar-se forçar um posicionamento mais claro no início de sua gestão, levando-o posteriormente à mesa de negociação.
Ainda que Pyongyang não admita ter lançado um míssil e divulgue imagens não datadas de um foguete voando em direção ao espaço, a idéia clara que se tem é a de que, em ambas situações, tecnologias muito semelhantes seriam usadas. Desse modo, a Coréia do Norte pôde amedrontar os vizinhos, legitimar seu governo perante a população, fazer demonstrações de poder e forçar as partes a uma nova rodada de negociações sem sofrer com as represálias que o Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) imporia de acordo com resoluções aprovadas no passado. De qualquer forma, o governo de Kim Jong-Il conta com o respaldo de suas aliadas históricas China e Rússia no CSNU para vetar medidas prejudiciais, como sanções.
Parece ser claro que o governo comunista busca transformar seu aparente poderio militar em ganhos econômicos, o que sugere ser improvável uma total abdicação daquilo que pode vir a dar-lhe maior força nas mesas de discussões: armas nucleares com capacidade de ser dispostas em mísseis de médio alcance. Tal cálculo estratégico pode ser uma medida arriscada, já que não se sabe até que ponto China e Rússia seriam capazes de fornecer proteção à rebelde Coréia do Norte. Além disso, pode-se questionar sobre a boa vontade de Estados Unidos, Coréia do Sul e Japão em prosseguir com negociações que geralmente terminam em acordos que não são cumpridos por Pyongyang, criando uma situação de avanço-retrocesso que somente beneficia o governo comunista.
Desse modo, conclui-se que, sendo o projeto bélico norte-coreano aquilo que lhe dá maior poder de barganha, o que já foi demonstrado pelo fato de os maiores benefícios doados pelos países somente terem sido concordados após o primeiro teste nuclear e o admitido teste de mísseis em 2006, o governo norte-coreano utiliza-se mais uma vez de provocação para buscar colher benefícios futuros. No entanto, se se levarem em conta a crescente crise de legitimidade interna e o endurecimento externo nas negociações, entende-se que as opções à disposição do governo comunista parecem ser cada vez mais restritas. Nesse sentido, o lançamento divulgado com antecedência e finalmente levado a cabo não seria, sob tal perspectiva, nada além de uma jogada de um ator que necessita de ajuda externa, buscando desse modo adquirir maior respaldo para sua própria justificação de ser e manutenção no poder.

Wilson Tadashi Muraki Junior é Membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (murakitadashikun@hotmail.com).

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