Após dois anos e meio, percorrendo o “Caminho das Índias”, em Mumbai, preparo-me para residir na antiga “Rota das Sedas”, onde, hoje, se situa o Azerbaijão, e serei o primeiro Embaixador do Brasil em sua capital, Baku.
Confirmo, a propósito, o entendimento de que, caso se queira escrever um livro sobre este país, é necessário começar logo no primeiro dia de chegada. A obra pode sempre intitular-se “a Índia hoje, ontem e amanhã”. Nas vinte-quatro horas iniciais, é permitida a arrogância de que se entenderá, prontamente, as relações entre múltiplas culturas que, há séculos, procuram conviver no espaço político que ora definem as fronteiras indianas. Após seis meses aqui, cabe assumir que é difícil, sequer, enviar e mail de duas páginas, pois conclui-se que os descaminhos locais revelam, de forma contínua, novas lacunas de conhecimento e dúvidas sobre o que nos rodeia. Um ano depois, nem cartão postal se envia, por falta de algo crível a ser escrito naquelas três linhas. Passados os referidos dois anos e meio, só me resta recorrer à conhecida frase: “Incredible India”.
Não pretendo repetir o êrro em Baku, adiantando-me, desde já a escrever sobre a “Rota das Sedas”. Esta era o longo e inóspito caminho a ser percorrido, entre a Europa e a Ásia, passando pela região do Cáucaso – onde se situa o Azerbaijão. Apesar de conter, no nome, a idéia de intercâmbio comercial, as principais trocas foram de caráter cultural, sobrepondo diferentes religiões, hábitos e costumes.
Sem dúvida, a mudança de Mumbai, após 30 meses, deverá provocar emoções semelhantes às sofridas na chegada à “Boa Bahia” (antigo nome de Bombaim, hoje Mumbai) procedente da ilha de Formosa, em agosto de 2006. Defrontei-me, então, com o desafio de absorver a verdadeira “reviravolta copernicana que significou sair do hierático universo confuciano e entrar no macunaístico caleidoscópico hindu-muçulmano” (Observação feita por um grande amigo meu e especialista em assuntos asiáticos, quando soube de minha transferência de Taipé para Mumbai.. Isto é, houve mudanças drásticas, ao deixar a esfera de influência cultural chinesa, que vivera em Taiwan, e ingressar no universo das diferentes civilizações que compõem a Índia.
De qualquer forma, pretendo, ao chegar na “Rota das Sedas”, persistir no esforço de evitar a visão apenas mercantilista daquela área, que ora ressurge em importância geo-econômica, pelas razões que analisarei a seguir.
Nessa mesma perspectiva, procurei, tanto nos 20 anos servidos na Ásia Oriental, quanto nos 30 meses em Mumbai, interpretar diferentes aspectos da alardeada emergência atual da China e Índia, com ênfase na dimensão cultural. Isto porque, este processo é muitas vezes analisado apenas com ênfase na crescente inserção econômica internacional desses países, bem como a partir da cobiça quanto ao acesso de centenas de milhões de seus potenciais consumidores à oferta de produtos e serviços estrangeiros.
Sabe-se, a propósito, que a criação de uma economia global e o fortalecimento de novas tecnologias não erodiram culturas e valores locais. Verificou-se, pelo contrário, que, na medida em que as pessoas tiveram acesso a maior informação e melhor educação, suas diferenças culturais se tornaram mais pronunciadas – não menos. Dessa forma, diferentes grupos demonstraram perseguir visões distintas de bem-estar, assim como reagiram de formas agressivas a ameaças perceptíveis a sua dignidade nacional.
Assim, conforme também já exposto em colunas anteriores, as grandes questões deste novo milênio parecem dizer respeito a: como culturas podem ser adaptadas; como capital social e cultural pode alavancar o desenvolvimento das nações; e como o potencial de conflito destrutivo entre culturas pode ser transformado em saudável competição cultural.
Descrição inicial do Azerbaijão – a “Terra do Fogo” – deve ressaltar que se situa na região Sul do Cáucaso, entre a Europa Oriental e a Ásia Ocidental e sempre foi local de trânsito e encontro entre diferentes culturas. Atualmente, faz fronteira, ao Leste, com o Mar Cáspio, ao Norte, com a Rússia, ao Noroeste, com a Georgia, ao Sudoeste, com a Armênia, e ao Sul, com o Iran.
Foi onde nasceu Zaratustra, profeta do Zoroastrismo, cujos locais de prece são conhecidos como templos de fogo. A origem do nome – Azerbaijão – é encontrada em língua pérsia antiga e significa “Protegido pelo fogo”.
O começo da associação ao fogo poderia ser encontrado na mitologia grega, uma vez que, naquela área, Prometeu teria entregue aos humanos a primeira chama, tendo por isso sido castigado por Zeus, em montanha do Cáucaso.
Os assentamentos humanos iniciais, no terrório atual do Azerbaijão, datam da Idade da Pedra. No século VI AC, os persas sob o reinado de Ciro o Grande ocuparam a região que, trezentos anos após viria a ser conquistada pelo macedônio Alexandre, também, o Grande.
No século VII da Era Cristã, povos árabes islamizaram as tribos locais. Nos séculos XVI e XVII, a região era disputada entre o Império Persa e o Império Turco-Otomano.
No século XIX, o país foi divido entre a Rússia e o Irã segundo as fronteiras atuais. Em 1917, o domínio russo arrefeceu e o Azerbaijão pode fundar, com o apoio da Turquia, uma república independente, inaugurada em 1918. Dois anos mais tarde (1920), no entanto, o Exército Vermelho invadiu o país e o integrou à União Soviética. Com o fim desta, em 1991, o Azerbaijão reconquistou a soberania política e aderiu à Comunidade de Estados Independentes, juntamente com outras dez antigas repúblicas soviéticas.
Após sua “emergência”, estes países adotaram projetos distintos para garantir sua sobrevivência e prosperidade. Em risco se encontrava, então, a identidade de estados-nações cujos legados político e cultural haviam permanecido sufocados durante os setenta anos de regime comunista imposto por Moscou.
As três menores repúblicas deste grupo, situadas no Cáucaso – Armênia, Azerbaijão e Georgia – foram as mais prejudicadas, em virtude do ressurgimento de tensões étnicas que haviam permanecido adormecidas, durante a existência da URSS.
Assim, Armênia e Azerbaijão entraram em conflito pelo enclave de Nagorno-Karabakh, que os levou à guerra no período de 1992 a 1994. Eclodiu, ademais, uma guerra civil, na Georgia, em razão da disputa pelos territórios da Abkhazia e Ossetia – resultando em guerra com a Rússia, em 2008.
O Azerbaijão conta com um quarto das novas reservas petrolíferas mundiais disponíveis. Tem importância estratégica, tanto por seus recursos energéticos, quanto por ser, hoje, rota indispensável para projeto de redução da dependência energética da Europa de fontes controladas por Moscou.
No momento, apenas o oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan evita o território russo, percorrendo a Georgia e a Turquia. Há, ademais, planos de construção, a partir de 2010, de gasoduto que exportaria o produto originário do Azerbaijão, Kazaquistão e Turcomenistão, para os europeus ocidentais.
Retornando à dimensão cultural, tanto do Azerbaijão, quanto da Rota das Sedas, cabe ressaltar que se situam em local que sempre foi de trânsito e encontro entre diferentes culturas
A população do Azerbaijão é de maioria muçulmana Shiita. Da mesma forma que a Turquia – com quem possui vínculos étnicos e linguísticos – é um dos países muçulmanos mais secularizados, com bem definida separação entre a mesquita e o estado.
Há cerca de 20 milhões de pessoas etnicamente azeris, vivendo no Iran – quase um quarto da população daquele país – culturalmente mais próximas, portanto, de Baku, do que de Teeran. Sua estrutura político-administrativa encontra-se, ainda, profundamente influenciada por normas e práticas soviéticas. O idioma russo continua a ser usado amplamente.
Verifica-se, então, a convergência e interação de culturas importantes, como a turco-otomana, a persa e a russa. Ao contrário, portanto, da Índia e da China, que foram “destinos” de diferentes levas migratórias, o Cáucaso, onde se situa o Azerbaijão, permaneceu como “escala” (local de trânsito e encontro) de diferentes povos.
No que diz respeito à “Rota das Sedas”, situa-se em região que separa a China da Europa e da Ásia Ocidental e é uma das mais inóspitas do mundo. A maior parte é coberta pelo deserto de Takliman, sofre da ausência de chuva e de frequentes tempestades de areia. Apesar de poucas estradas, em péssimas condições, caravanas fizeram seu percurso, durante séculos.
Conforme já mencionado acima, no entanto, o “produto” mais importante intercambiado nesta vasta área não foi a seda. Foi a religião. Assim, o Budismo chegou à China, procedente da Índia. Na rota em questão, diferentes formas de manifestações artísticas refletem sucessivas etapas desta expansão.
O observador em Baku deverá defrontar-se, portanto, com cenário de crescente inserção econômica internacional do Azerbaijão, em virtude da importância estratégica de seus recursos energéticos.
O desafio principal, contudo, poderá ser o de entender como se busca preservar hábitos, práticas e valores locais, diante da criação de uma economia global e o fortalecimento de novas tecnologias de comunicação.
Em suma, não haverá atalhos na mudança do Caminho das Índias para a Rota das Sedas. Trata-se, mais uma vez, de percorrer “mares por mim nunca dantes navegados”.
Paulo Antônio Pereira Pinto é Diplomata de carreira e atualmente exerce a função de Cônsul-Geral do Brasil em Mumbai. As opiniões expressas neste artigo são de sua inteira responsabilidade e não refletem posições do Ministério das Relações Exteriores do Brasil (papinto2006@gmail.com).

22/04/2009



muito interessante o artigo, sempre que se fala de paises como o Azerbaijao se ressalta a insercao economica e/ou importancia geopolitica, mas se esquecem de tratar de questoes de cultura, como o sr. nos contou agora. muito interessante, todos diplomatas deveriam fazer pequenos artigos como esse, ressaltando tambem as diferencas culturais e os aspectos singulares desses lugares.
Entender outras culturas distantes das nossas é fundamental pra quem quer ser um crítico internacional. O Arzebaijão, é uma país interessante, pois legou grandes formas de asimilação cultural para uma parte do oriente.Portanto, se se quer entender o pano de fundo das atuais questões que envolvem a Ásia, começar analisando esse país, é uma boa estratégia.