Estados Unidos: redefinição das bases militares no mundo, por Virgílio Arraes

A crise por que passam os Estados Unidos possibilita à Casa Branca a oportunidade de definir a forma da presença do país na política internacional nos próximos anos. Em vista da necessidade de mudança, Washington tem boas condições para ajustar as engrenagens pelas quais se aplicam simultaneamente a negociação e a força.
Se, no período Bush, o mecanismo da coerção prevaleceu, no governo Obama, há a possibilidade de calibrar a política externa com maior presença da diplomacia em decorrência da conjugação dos seguintes aspectos: o duplo fracasso da guerra como instrumento de prevalência dos desígnios norte-americanos e a crise econômica interna oriunda da especulação financeira.
Quanto à área militar, antes mesmo da emergência da derrocada do setor bancário estadunidense, os democratas anteviram a necessidade de deslocar o seu eixo de atuação: do Iraque para o Afeganistão, local em que estaria o centro original do terrorismo antiamericano, por causa da intermitente atuação do Talibã e da Al-Qaida. Com isto, preservar-se-iam muitas unidades de combate, como as pertencentes à Guarda Nacional, visto que as operações em território afegão são feitas em conjunto com a Organização do Tratado Atlântico Norte (OTAN), e diminuir-se-iam também despesas, o que contribuiria para amenizar de modo importante o déficit orçamentário.
No final da gestão Bush, o traçado republicano foi distinto, ainda que em seu fim o objetivo fosse o mesmo: a diminuição de contingentes em solo iraquiano. Desta maneira, um cronograma acordado com o governo em Bagdá foi estabelecido paralelamente à tentativa de cooptar os líderes da resistência local. Para isto, os Estados Unidos valeram-se da possibilidade de maior abertura política até o auxílio financeiro indefinido temporalmente.
Com tal expediente, os republicanos esperavam, caso permanecessem à frente do poder Executivo por mais quatro anos, menor resistência dos parlamentares democratas nos debates na Comissão das Forças Armadas de ambas as casas e na votação final do orçamento do Departamento de Defesa e de outras organizações a ele próximas.
Contudo, o quadro socioeconômico em 2009 está sendo mais adverso do que haviam previsto muitos analistas, de sorte que novas medidas a fim de estimular a aplicação de mais investimentos e, ao mesmo tempo, equilibrar as finanças públicas urgem. Uma delas estender-se-ia ao campo militar: como preservar de maneira adequada a manutenção de todo o complexo desenvolvido nas últimas décadas pelo Pentágono em todo o globo?
É possível especular que o número de bases, de variadas dimensões, ultrapasse o milhar, sendo maior que na época da Guerra Fria, período crítico da segurança nacional. Os dois maiores derrotados da Segunda Guerra Mundial hospedam quase quatrocentas delas: a Alemanha, mesmo sendo uma parceira inquestionável no âmbito da OTAN, possui pouco mais de duzentos e cinqüenta, sendo uma delas detentora de uma estação de esqui na Bavária – várias das instalações ao redor do mundo chegam à sofisticação de abrigar campos de golfe.
Enquanto isso, o Japão, fiel aliado em vista da proximidade geográfica da China ainda nominalmente comunista, sedia mais de cento e vinte bases. Muito próxima do território nipônico, a Coréia do Sul tem também quase uma centena delas, em decorrência do governo norte-coreano. Iraque e Afeganistão configuram a lista dos cinco maiores, ao acolherem simultaneamente cerca de duzentas.
Em sua baldada tentativa de reforma administrativa quando da titularidade do Departamento de Defesa, Donald Rumsfeld avaliou a possibilidade de encerrar as atividades de pelo menos duzentas unidades, principalmente das localizadas na Europa, o que poderia produzir a economia anual de mais de dez bilhões de dólares e possibilitar o remanejamento de quase cem mil efetivos para áreas mais necessitadas.
Por outro lado, o fechamento delas poderia envolver aspectos políticos, visto que vários governos, como os ditatoriais, sentem-se mais seguros com a presença de tropas norte-americanas. Em muitos casos, por conseguinte, a presença delas desgasta a imagem dos Estados Unidos como defensores da liberdade e dificulta a transição de poder.
Contudo, o impacto econômico negativo em países menores não poderia ser menosprezado, em face do consumo local dos contingentes, mesmo se se consideram os aspectos deletérios vinculados a questões ambientais, como poluição, e a sociais delicadas como a prostituição ou o desrespeito a direitos humanos, por exemplo.
Depois da exoneração de Rumsfeld, o tema não tem sido mais abordado. No entanto, a sua retomada é imprescindível, haja vista que a turbulência econômica dos Estados Unidos poderá em breve atingir o setor militar, o que, por seu turno, reduziria a capacidade do país de negociar acordos de cooperação na área, no momento em que o terrorismo poderá beneficiar-se exatamente por causa dos efeitos da crise.

Virgílio Arraes é Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – iREL-UnB (arraes@unb.br).

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