Estamos em 2010 ou 2011. Acuado por uma crise na sua popularidade por causa da baixa do preço do petróleo (com o conseqüente colapso do seu sistema populista), o presidente Hugo Chávez, esquecendo-se das lições da ditadura argentina frente à guerra das Malvinas, ordena a invasão da Guiana e a conquista do território há muito disputado com aquele país. Sem grandes forças militares, o pequeno país logo é obrigado a recuar e tropas venezuelanas ocupam a área.
A reação dos países vizinhos não se faz esperar. Equador e Bolívia, enfrentando o mesmo problema interno de Chávez, comemoram a vitória contra a herança imperialista que havia mutilado o território da república irmã e se apressam em reconhecer a anexação. A Argentina, o Chile e o Peru oscilam entre a neutralidade e alguma reação, enquanto a Colômbia se apressa em reforçar a fronteira e a condenar com energia a agressão venezuelana. O Brasil, sem opções militares reais frente ao poder militar, especialmente aéreo, da Venezuela, se limita, como sempre, a pedir o diálogo e a retirada das tropas venezuelanas.
A principal reação vem dos Estados Unidos. Mesmo com o risco de ver interrompido o fluxo do petróleo venezuelano e enfrentando ainda as conseqüências do colapso do capitalismo liberal em 2008, o presidente Barack Obama não podia permitir que a agressão venezuelana ficasse impune, já que seus adversários republicanos o crucificariam e seria uma verdadeira humilhação para os EUA.
Imediatamente, aviões baseados nas bases americanas em Porto Rico e em outras ilhas do Caribe começam um bombardeio sistemático das instalações militares da Venezuela. Logo, navios da Quarta Frota americana se unem à Força Aérea no bombardeio e isolamento da costa venezuelana, enquanto os fuzileiros navais preparam planos para invadir e reconquistar a Guiana. Com seu imenso arsenal comprado da Rússia, a Venezuela resiste, mas sua única esperança de vitória é que o Pentágono decida invadir o seu próprio território nacional, o que lhe permitiria aplicar sua doutrina de “guerra assimétrica”. Os militares americanos, contudo, não parecem dispostos a morder a isca.
Chávez decide apelar à Rússia, que, desejosa de se vingar do apoio americano aos seus inimigos na Geórgia e em outros locais, envia uma frota ao Caribe. A frota russa, agora com bases em Cuba e na Nicarágua, não é páreo para a americana, mas seus submarinos causam grandes danos aos navios da Quarta Frota. Logo, a guerra iniciada por Chávez se desdobra, com os georgianos aproveitando a ocasião para tentar novamente retomar a Abkhásia e a Ossétia do sul. O gênio da guerra saiu da garrafa e ninguém sabe como recolocá-lo lá.
Este cenário é, com certeza, pura abstração e não reflete nenhum pré-requisito ou preconceito, como que o chavismo seja obrigatoriamente agressivo ou algo assim. É um mero cenário especulativo, ao qual poderiam ser agregados muitos outros, como uma guerra entre Colômbia e Venezuela, uma invasão norte-americana à Venezuela ou a outro país da região, etc. Mas é um cenário válido. Afinal, quem ler os jornais da América Latina nos últimos meses pode imaginar, com facilidade, que a história ficcional, descrita acima, é a evolução lógica dos acontecimentos atuais. Reequipamento maciço dos militares venezuelanos, uma aliança de Chávez com a Rússia e a recriação da Quarta Frota dos Estados Unidos seriam os sinais do que estaria por vir.
Parece-me, contudo, que estamos mais no campo dos mitos e da simbologia do que presenciando alterações reais no cenário estratégico na região. Não que não existam interesses e realidades palpáveis se alterando, mas retirar o manto do que “parece ser” pelo “que é” é imperativo.
Já comentei, em outros espaços, como o rearmamento planejado da Venezuela é de difícil implantação e que se configura mais em um ideal do que em realidade. Depois, esse rearmamento não conseguirá mudar uma situação objetiva, ou seja, que quaisquer tentativas venezuelanas de usar a força contra outros países da região causarão um inevitável envolvimento dos EUA, contra os quais a Venezuela tem opções militares limitadas. Parece pouco provável que Chávez se arriscasse a tanto.
Também a presença russa não é tão importante como se sugere e dificilmente seria importante em caso de guerra. Assim como os EUA abandonaram a Geórgia poucos meses atrás, por considerar que a sua defesa militar era muito difícil e geopoliticamente arriscada, Moscou faria o mesmo se Caracas e Washington entrassem em confronto. Uma ação da frota russa no Caribe, tão próximo dos Estados Unidos, já seria difícil na época da Guerra Fria e, hoje, com a força naval russa muito inferiorizada, quase impossível.
Assim, a visita de navios e aviões russos à Venezuela pode inflamar os ânimos nacionalistas e antiimperialistas nos dois países e demonstrar que a Rússia é uma potência de volta ao jogo. Também não é conveniente, provavelmente, nem a Bogotá nem a Brasília (e muito menos a Washington) ver a presença russa por aqui e uma aliança mais firme entre Caracas e Moscou ajudaria a tornar o quadro estratégico da região mais tenso e competitivo. O jogo venezuelano-russo também teve o efeito, relevante, de aproximar o Brasil da França em termos estratégicos, se distanciando de Moscou. Efeitos imediatos e regionais importantes, pois. Ela não muda, contudo, o fato objetivo de que a Rússia está muito longe, e os Estados Unidos, na esquina.
O mesmo poderia ser dito da reativação da Quarta Frota dos Estados Unidos. Em última instância, os mares em volta desse continente são, como quase todo o mundo, um lago americano. O Pentágono sempre teve a capacidade, se quisesse, de bloquear o mar territorial brasileiro, ou de qualquer outro país, tomar as plataformas de petróleo e atacar quase impunemente alvos em terra. Essa realidade objetiva não mudou e a simples alteração na nomenclatura das frotas não significa muito.
Depois, quem imagina os fuzileiros desembarcando nas plataformas em busca de petróleo (ou na Amazônia atrás de água ou outras riquezas minerais) não conhece bem como funciona o imperialismo do século XXI, especialmente o americano. Uma situação limite como esta, de conquista direta de recursos, não é impossível e devemos nos preparar o melhor possível para ela. Mas não é o padrão que os americanos tradicionalmente seguem e mesmo o caso iraquiano é excepcional e só relacionado ao petróleo até certo ponto.
Provavelmente, eles tentariam nos fazer trocar este petróleo ou água dentro das regras de comércio e finanças definidos por eles próprios. Eles nos pagariam em papel – dólares – que depois seriam reciclados de volta ao centro ou esterilizados via formação de reservas. Pressões poderiam ser feitas, claro, para garantir o fluxo e o preço, mas uma ameaça militar só viria em último caso. Se a Arábia Saudita, que depende do poder dos EUA para a sua sobrevivência e tem soldados daquele país no seu solo, consegue manter um wahabismo totalmente avesso ao Ocidente e manipula o preço do petróleo a seu favor, a capacidade do Pentágono em nos influenciar para a venda de recursos a preço mínimo via ameaça da Quarta Frota parece ainda menos evidente.
A reativação da Quarta Frota, portanto, parece ser, no caso da América Latina e em curto prazo, mais simbólica do que outra coisa. Ela recorda, ao continente, que os Estados Unidos são ainda a principal potência da região e que tem a força militar para se impor. Estados pouco simpáticos ou que pensem em vender produtos essenciais para a China ou outras regiões parecem ser os destinatários desse lembrete, que, como dito, não muda, contudo, realidades objetivas anteriores e atuais. A nova frota pode, claro, se converter em arma ofensiva e de conquista, mas essa possibilidade já existe, seja com qual número ela se identifique.
Aliás, a reativação da Quarta Frota pode ter mais a ver com a África do que o Brasil ou a Venezuela. Claro que não sei o que se passou nos corredores do Pentágono, mas é na África ocidental que os EUA irão adquirir, segundo a maioria das projeções, parte substancial do seu petróleo nos próximos anos. Garantir a influência no continente negro e as rotas desse fluxo pode ser tão ou mais importante do que pressionar Chávez, o casal Kirchner ou Lula. A maioria dos analistas parece ter esquecido que o Atlântico sul tem outra margem.
Tudo isto não significa dizer que nenhum tipo de potencial de conflitos existe e que quaisquer alertas sobre o reforço do poder norte-americano na região sejam paranóia. Somos uma reserva potencial de recursos num mundo carente deles e não faria sentido, para uma potência como os EUA, não utilizar todos os instrumentos disponíveis para garantir o seu acesso preferencial a eles. O poder militar, nesse sentido, é uma opção pouco prática, mas perfeitamente válida, pelo que algum tipo de discussão sobre o problema há de ser travada, em algum momento, em Brasília, Buenos Aires ou Caracas.
Não obstante, o mais curioso sobre esta discussão é que, provavelmente, todas estas preocupações podem muito bem se revelar, em médio prazo, totalmente sem sentido. Com a crise do sistema capitalista atual, os preços do petróleo caíram bastante e isso afetou, acima de tudo, os países exportadores, como Rússia e Venezuela. É duvidoso que, sem os recursos do petróleo, Chávez ou Putin possam manter sua escalada militar, por mais modesta que seja, e a sua política de confronto com os Estados Unidos. Depois, se o motivo central da reconstrução da Quarta Frota foi, como alegado por setores da mídia, a descoberta do petróleo na camada pré-sal na costa brasileira e a exploração deste petróleo só é viável se os preços ficarem num patamar bem elevado, ela já não faz mais sentido.
A maior ironia do momento atual, portanto, é que a grande crise no sistema capitalista mundial, com os Estados Unidos a frente, afetou, mais que tudo, os inimigos dos EUA, como o Irã, a Rússia e a Venezuela. O cenário estratégico sul-americano também foi alterado, com uma situação de confronto potencial sendo rapidamente modificada. Um desdobramento inesperado pouco tempo atrás e que revela as dificuldades em se trabalhar com a história do tempo presente, com a história que ainda está a se construir.
João Fábio Bertonha é Professor da Universidade Estadual de Maringá – UEM (fabiobertonha@hotmail.com).

27/01/2009


Caros colegas,
Concordo, de maneira geral, com os argumentos apresentados: de que o Brasil precisa, sim, reaparelhar nossas forças armadas e de que, como magistralmente colocou o Prof. João Fábio Bertonha, o “Atlântico Sul tem duas margens” e costumamo-nos esquecer da outra margem, o continente africano.
Não creio, contudo, que se deva considerar a possibilidade, a longo prazo, da manuntenção dos atuais baixos preços do petróleo. Tal situação é conseqüência da retração na demanda internacional de petróleo causada pela crise capitalista atual. Resolvendo-se esta, a médio ou longo prazos, a tendência é de que a demanda volte a aumentar, elevando os preços do petróleo, até a casa dos US$ 100. Infelizmente, dada as condições econômicas atuais, ainda não se encontrou um substituo viável, a altura, para o petróleo e todos os seu derivados. Portanto, o mundo ainda continuará “viciado em petróleo”, pelo menos no futuro próximo.
Dou meus parabéns ao Professor Fábio pelo artigo, e reitero a colocação do amigo Ed que o Brasil precisa sim “sair de cima do muro”. Somos o maior país do continente, e não podemos ficar somente pedindo calma nas divergências que ocorrem em nosso continente. Temos a consciência que hoje nossas forças armadas não possuem equipamentos nem preparo suficiente para ingressar em uma disputa bélica, mas precisamos que ocorra esta reestruturação para que países como a Venezuela não se sintam à vontade a chamarem para si a responsabilidade de proteção sul-americana!
Não é pelo simples fato de sermos uma nação pacífica, e de estarmos a mais de 150 sem participarmos de conflitos armados que devemos esquecer de nossa defesa.
Cabe lembrar que o sistema só se mantém estável se ocorrer à balança de poder. Não Falo em uma corrida armamentista na América do Sul mais sim de equilíbrio.
Prezado Fabio.
Foi com muita curiosidade que li seu artigo, especialmente o início, que relata uma possível campanha militar venezuelana na Guiana. Recentemente, alguns colegas voltaram de Isla Margarita e trouxeram um pequeno souvenir com um mapa da Venezuela; peculiaridade: o território em litígio com a Guiana encontrava-se incorporado ao mapa!
De fato, sua análise é, na minha humilde opinião, pertinente no que diz respeito ao rearmamento venezuelano e suas ambições expansionistas a leste. Concordo que a expectativa de longo prazo de redução do preço no petróleo compromete estruturalmente o bolivarianismo de Chávez e pode levá-lo a atitudes extremadas, em uma jogada arriscada determinada pela política interna. Essas atitudes, por sua vez, sem sombra de dúvida, tornará o relacionamento Colômbia-Venezuela ainda pior, o que exigiria uma atuação decisiva do Brasil.
Minha esperança é que, diferentemente do que previu, daqui a 3 ou 4 anos, vejamos revertido o quadro de penúria das Forças Armadas brasileiras. É impensável um país com ambições de projeção de poder regional e sub-regional, como o Brasil, manter o nível atual das nossas defesas.
Igualmente importante foi sua lembrança da “outra margem do Atlântico” como possível foco de interesses estadunidenses. Um recente artigo da Economist (edição da semana passada) apresentava um comentário acerca do novo Plano Nacional de Defesa do ministro Unger; é ressaltado, brevemente, determinado traço de “paranóia” em relação à defesa amazônica no texto do Plano. Seu comentário sobre a fraca possibilidade de intervenção dos EUA no norte brasileiro é pertinente… tal possibilidade, contudo, existe.
Aguardo o próximo artigo. Saudações.