O presidente e o piloto: a Companhia Aérea Estados Unidos entre a virtú a fortuna, por Antônio Lassance


Na semana que antecedeu a posse do presidente Barack Obama, os   americanos viram e comemoraram a arte do impossível: o pouso do Airbus vôo 1549 sobre o Rio Hudson. Todos se salvaram. Eles estavam a bordo  de um avião da companhia aérea Estados Unidos (US Airways). O evento,  inconscientemente, revela o estado de espírito do povo americano  diante da mais grave crise que sobre ele se abateu desde a de 1929. Ao  encararem o desastre e a iminência de mergulharem na escuridão, eles  aguardam que um piloto de nome Barack Obama, que tem em suas mãos um  avião com sérios problemas, faça o que deve ser feito, mas demonstre  absoluta habilidade para evitar o pior e os conduza sãos e salvos à   saída desse momento crítico.
Embora o estado de espírito seja o mesmo, as diferenças entre ambas as situações são grandes. Primeiro, porque é mais fácil pousar um avião lotado e sem motores sobre o rio Hudson, à noite, do que tirar os  americanos rapidamente, sãos e salvos, da crise em que se encontram.
Chesley Sullenberger, o piloto do Airbus, foi oficialmente convidado para a posse. Tem 57 anos, é mais parecido com o ex-presidente Eisenhower do que com Barack Obama, foi piloto de  caça da Força Aérea e, ante uma situação adversa, foi ajudado por uma  combinação de fatores positivos: havia poucas embarcações próximas,  facilitando que não houvesse uma colisão. A mais próxima delas, por  outro lado, foi essencial para que os sobreviventes não morressem  congelados.
Diferente é a sorte de Obama. Ele é um presidente jovem, um político de carreira meteórica (portanto, de experiência recente) e encontra-se  sob uma combinação de fatores críticos. Se o pior momento da crise  tiver sido mesmo o da quebra do banco Lehmann Brothers, em setembro de  2008, os piores impactos começam a ser sentidos agora, ao atingirem em  cheio a economia real e tornarem mais ampla a ameaça de desemprego.  Agregue-se a isso a escalada da violência no Oriente Médio, que  recoloca a agenda do terror em patamares elevados, mais do que o novo  governo americano esperaria, diante de sua necessidade de  concentrar-se plenamente em debelar a crise econômica.
Tanto a situação com que se defrontou o piloto como a que se defronta Obama trazem de volta a clássica recomendação ao Príncipe, proposta  por Maquiavel, de uma combinação entre virtú e fortuna. A virtú  relaciona-se não com a necessidade de fazer o certo, mas de fazer  certo; não de se fazer o bem, e sim de se fazer bem-feito. A fortuna também é necessária. E não se trata apenas de sorte. É a  oportunidade.  Ela só existe para os que sabem aproveitá-la ou, se  elas não estão dadas, para os que sabem criá-las.
Outra diferença entre Obama e o piloto está justamente aí: o piloto  aproveitou bem uma oportunidade que surgiu diante de si. O trabalho do novo governo dos Estados Unidos é mais complexo: as oportunidades  ainda precisam ser criadas.
Uma das oportunidades de Obama consiste em que a imagem que criou foi  tão eficiente que, além de permitir que ele ganhasse a eleição,  ampliou o espaço democrata no Congresso e tem sido capaz de manter uma  expectativa muito elevada sobre suas boas intenções. Há uma torcida  para que o governo de Obama dê certo, tanto porque se quer sair da  crise o mais rapidamente possível, quanto pelo que ele representa para  a política dos EUA.
Todavia, os primeiros passos do governo Obama, traçados desde sua  transição com Bush, revelam um político pragmático e que tem cumprido  claramente as tarefas de virtú maquiavélica. Seu período de transição encerrou-se cumprindo três objetivos básicos:  1) estabelecer a agenda prioritária; 2) montar a equipe de governo; 3)  registrar e dimensionar a “herança maldita” do governo anterior.
A agenda prioritária tem cinco pontos: revitalizar a economia, dar fim  à guerra no Iraque, prover assistência à saúde para todos, proteger a  América e renovar a liderança global dos Estados Unidos. Eis,  portanto, a lista de oportunidades que se pretende criar. De longe, o  primeiro ponto deve consumir a maior parte do tempo e dos recursos do  novo governo.
A maneira como a agenda tende a ser implementada tem estreita relação  com a equipe escolhida. Obama cercou-se do “pessoal de Washington”,  políticos e burocratas com longa experiência em Governo e Congresso.  Na corrida contra o tempo, em um país que, a cada dois anos, tem  eleições para a Câmara dos Deputados, a aposta de Obama é que a  experiência de seus colaboradores se transforme em rapidez na  aprovação congressual e na implementação de suas políticas. Há também  a expectativa de se contar com o apoio da burocracia sediada em  Washington, que votou em peso em Obama.
O perfil da equipe revela uma opção conservadora (analisada em  detalhes no artigo do jornalista Bernardo Kucinski, “Uma ambiguidade  chamada Obama”, no portal Carta Maior, 8/1/2009). Embora contraste com  os apelos de mudança que fizeram parte do slogan vitorioso, o fato é  que a própria campanha de Obama fez questão de se afastar de posições  mais ousadas em temas como política externa, economia e mesmo direitos  civis.
Como compatibilizar essa aparente ambigüidade? Com mudanças que tenham  como referencial o governo Bush. Aí, torna-se fácil mudar, mas sem que  isso represente transformações de fundo. Espera-se a volta de uma  diplomacia mais multilateral, dado o próprio desgaste da estratégia  isolacionista americana. A proibição do uso dos métodos de tortura  deve se efetivar e o vice-presidente Biden não deve fazer como Dick  Cheney, que defendeu tais métodos com unhas e dentes. Os Estados  Unidos podem retomar a proposta capitaneada por Gore, encaminhada por  Clinton e recusada por Bush de compromissos com a redução das emissões   de gases de efeito estufa. Um dos argumentos usados por Bush para não  assinar o Protocolo de Kyoto, o de que isso afetaria a economia  americana e reduziria o crescimento, já está em curso e facilitaria a  mudança de posição dos EUA. Questões históricas e de forte carga  simbólica, como Guatánamo, também podem ajudar a criar rápidas  sensações de mudança, sobretudo nos primeiros 100 dias.
Assim sendo, a única mudança de peso e inédita seria a montagem de um  sistema de saúde amplo e acessível. Há muita literatura em políticas  públicas explicando o porquê do atraso americano nesta área e há  sérias suspeitas de que é tarde demais para montar um sistema que leva  décadas para ser estruturado. Por melhor que seja a proposta a ser  definida sob o comando do secretário de Saúde Tom Daschle e toda a sua  experiência de ex-senador para fazê-la passar no Congresso, é de se   perguntar de onde sairão os recursos para estruturar o sistema de  forma tão abrangente e acessível como a prometida: reduzindo recursos  do esforço de guerra ou dos pacotes de ajuda para recuperar a  economia? A opção possível parece ser a primeira, mas a permanência de  Robert Gates como secretário de Defesa mostra que a saída do Iraque e  o fim da “missão” no Afeganistão (como se diz no portal da transição,  change.gov) serão lentas, graduais e restritas.
A maneira de contrabalançar as expectativas diante das dificuldades  foi meticulosamente trabalhada por Obama nas duas semanas que  antecederam sua posse. Ele recusou-se a chancelar decisões do  governo atual e traçou um quadro anda mais grave dos problemas a serem  enfrentados. É o que por aqui conhecemos como “herança maldita”.  O  déficit orçamentário previsto 2009 chega a 1,2 trilhão de dólares e a  dívida pública deve chegar aos 10 trilhões, cerca de 10% do PIB  americano, abaixo apenas do recorde de 20% do período de guerra. O   desemprego deve ser o maior desde 1983 e Obama alertou para o risco de  que se ultrapasse os dois dígitos. Com problemas dessa magnitude, o quadro para a presidência de Obama é  grave, mas não desesperador. Para o ano de 2009, a mudança a ser promovida será principalmente o contraste com a administração anterior. Pode ser a oportunidade para uma afirmação dos democratas  similar à que Roosevelt fez em relação ao governo Hoover, a partir de  1933. Porém, o efeito do contraste dificilmente dura mais de um ano.  Em 2010, Obama já será cobrado sobre os efeitos de seu pacote de  recuperação econômica e quanto aos resultados de sua estratégia para o  Iraque, Afeganistão e todo o Oriente Médio. A partir daí, o povo americano estará verdadeiramente interessado em saber se o piloto em  Washington mostrou seu talento sobre o Potomac.

Antônio Lassance é Doutorando em Ciência Política pela Universidade de Brasília – UnB (lassance@unb.br).

3 Respostas para “O presidente e o piloto: a Companhia Aérea Estados Unidos entre a virtú a fortuna, por Antônio Lassance”

  1. Daniela Matos 03/02/2009 às 9:51 am

    O que o mundo espera do primeiro negro a governar os Estados Unidos é um milagre; não apenas econômico, mas genérico. Afinal, a grande potência tem perdido força no cenário internarcional. Além disso, o piloto além da popularidade de um democrata, precisará de muito jogo de cintura para arrumar a “Casa Branca”. Parabéns Lassance pelo excelente artigo.

  2. Teodoro Sampaio 30/01/2009 às 9:33 pm

    Um dia desses, vi uma entrevista de um professor falando que o liberalismo não morreu. A esta altura do campeonato, ficar defendendo o liberalismo é o cúmulo da perfumaria. Realmente não morreu, mas enquanto todo mundo está preocupado em se salvar da tragédia, preocupar-se com o liberalismo equivale à madame que, sobre o Rio Hudson, voltou pra procurar a bolsa.

  3. Cristiano Galante 21/01/2009 às 2:10 pm

    Seguindo a esteira de Maquiavel, talvez fosse o momento de Obama, respaldado por uma popularidade extraordinária, tomar as decisões mais difíceis e controversas nesse período inicial. Que ele, assim como o piloto “heroi”, seja o homem certo para o momento de crise.
    Abraço ao meu mestre, Antonio Lassance. Parabéns pelo artigo.

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