Afeganistão: qual destino na política externa dos Estados Unidos em 2009?, por Virgílio Arraes
Durante a bipolaridade, coube ao Partido Republicano encerrar duas longas confrontações iniciadas na Ásia pelos democratas, seus opositores: Coréia nos anos 50 e Vietnã, nos 70. Competiria aos democratas, se vitoriosos, o mesmo encargo, de difícil execução. Se houvesse a mudança de posicionamento, cessariam os efeitos colaterais como a existência de prisões secretas fora do território estadunidense ou a aplicação de maus tratos aos detentos.
Todavia, há visões distintas no âmbito do Partido Democrata sobre a participação dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão. À primeira vista, o Irã não seria evocado com vistas a um empreendimento bélico.
Quanto à duração da permanência em território iraquiano, os democratas subscrevem a necessidade de retirarem-se gradativamente as forças armadas do castigado país. Cinco anos e meio de presença auxiliaram a desestabilizá-lo ainda mais e, desta forma, contribuir para o maior empobrecimento da desvalida população.
No tocante à continuidade no Afeganistão, não há consenso sobre o retorno dos efetivos, mesmo após sete anos. Invoca-se o argumento de que lá estaria o centro do terror fundamentalista, visualizado no grupo do intangível Osama Bin Laden – ele mesmo pode estar refugiado no Paquistão, ainda aliado dos Estados Unidos.
Assim, contingentes em atuação no Iraque poderiam ser deslocados para travar o combate no local ‘correto’. Estima-se em mais dez mil logo nas primeiras semanas de 2009 se Obama tornar-se o novo titular da Casa Branca. Desde janeiro de 2008, os Estados Unidos enviaram mais de três mil fuzileiros para as frentes de batalha.
É possível especular se nestes anos todos o problema foi de fato a insuficiência militar ou simplesmente a falta de apoio da população local, desgastada pelo envolvimento em confrontos há mais de um ¼ de século, desde a entrada em seu território de tropas da antiga União Soviética – em quase vinte anos de permanência, mais de 15 mil militares morreram em combates.
Atualmente, a ação da Organização do Tratado Atlântico Norte (OTAN) engloba constantes ataques aéreos, nem sempre de precisão cirúrgica como o realizado no dia 22 de agosto no estado de Herat, em retaliação a uma investida do Talibã contra uma patrulha da coligação. Quase 40% das mortes dos 700 civis em 2008, de acordo com a avaliação das Nações Unidas, podem ter sido por mãos de efetivos ocidentais.
A existência indefinida de um exército estrangeiro, não obstante as intensas rivalidades étnicas, auxilia a evocar um sentimento maior, o de nacionalidade. Nem sequer o valor ofertado como recompensa por Bin Laden ou pelo Mulá Omar – respectivamente 25 milhões e 10 milhões de dólares – refletiu positivamente para a coligação atlântica.
Despachar mais combatentes não é o melhor encaminhamento, mas decerto é o menos inventivo, visto que muitos afegãos apoiaram, de início, a intervenção provisória, na esperança de que ela proporcionasse ao país a tardia incorporação à chamada globalização virtuosa e, deste modo, possibilitasse a sua modernização por meio de fluxos contínuos de investimentos.
No entanto, não chegou capital para a recuperação da infra-estrutura, sem recursos desde a época soviética, sequer para as cidades mais importantes. Energia elétrica contínua e água potável não integram o cotidiano da população – a mortalidade infantil é uma das mais altas do planeta e doenças como tuberculose e poliomielite proliferam.
Ao mesmo tempo, aguardou-se uma modificação social que permitisse maior participação das mulheres na nova fase política do país e ampliasse o acesso à educação formal – parcela significativa do povo é analfabeta, sendo o índice maior quando aplicado apenas às mulheres.
Em 2004, a Constituição assegurou a igualdade de direitos e deveres a todos os cidadãos. No ano seguinte, a composição feminina do parlamento superou ¼. Vários tratados internacionais, relativos aos direitos humanos, têm sido subscritos pelo Executivo. Na prática, porém, a assimetria não foi superada.
A formulação de política externa dos neoconservadores da administração Bush no Oriente Médio e cercanias mostrou-se rudimentar. Esposar a idéia de que a implementação de um governo secular no Afeganistão resolveria de súbito antigas disputas internas – sendo muitas delas de origem religiosa – e simultaneamente aproximá-lo-ia de diretrizes ocidentais era temerária desde o início. Entrementes, a postura democrata de incrementar a guerra poderá ser mais imprudente ainda.
Virgílio Arraes é Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – iREL-UnB (arraes@unb.br).