Chega de delongas. Vamos ao capítulo XV: “Morre Cabo Frio”. Gurgel do Amaral relata a morte e o legado do diplomata. Intriga-me um aspecto presente em todas as obras sobre o Barão do Rio Branco, mas de forma não tão pormenorizada: a relação entre o Barão e o Visconde, quando aquele assume a Chancelaria, em 1902. Cabo Frio é descrito como o bastião do tradicionalismo, herdeiro dos costumes mais sedimentados da burocracia imperial. Já Rio Branco, mesmo vindo da Monarquia, assumiu o cargo com o ímpeto de mudar a Chancelaria, preparando-a para novos desafios, ao mesmo tempo em que consolidava diversos princípios das relações exteriores imperiais.
Assim, não é surpresa ver o embate entre essas duas grandes personalidades. O relato de Gurgel do Amaral é naturalmente tendencioso, mas apresenta algumas características interessantes de Cabo Frio, especialmente como sua tenacidade esvaziou-se progressivamente na luta pelo controle do trabalho cotidiano da Chancelaria. Nesse aspecto, a questão do controle do horário de expediente é um dos tópicos do livro no qual é visível a própria construção da imagem do Barão.
Vou examinar com mais detalhes esse ponto. Como vocês sabem, havia, no século XIX, uma concepção particular do tempo nas chancelarias ao redor do mundo. Nesse período, os Ministérios das Relações Exteriores mantinham atmosfera de trabalho mais frugal, pouco adequada às demandas febris existentes no setor privado e em outras áreas dos governos. Em um dos melhores livros sobre o ambiente diplomático das chancelarias européias no período que vai de meados do século XIX até a I Guerra Mundial , David Paull Nickles afirma que os diplomatas pertenciam a uma exclusiva fraternidade que aderia a um protocolo construído no curso de vários séculos. Eles falavam a mesma língua (francês), passavam as férias nos mesmos spas, cultivavam os mesmos gostos cosmopolitanos e vinham de seletas aristocracias européias — entre 1871 e 1914, por exemplo, 377 dos 548 funcionários da chancelaria alemã eram nobres, incluindo 56 dos 62 embaixadores (p. 104).
Apesar do status, o ofício era mal pago; diplomatas, então, lidavam com a profissão como uma nobre obrigação. Naturalmente, essa classe esmerou-se em cultivar relacionamentos e consumir o seu tempo em atividades de lazer. O “tempo aristocrático”, então, era muito distinto do “tempo do trabalho”, que se espraiava nos já então crescentes centros capitalistas europeus. Nickles relata diversos casos de chancelarias européias, inclusive a dificuldade do chanceler alemão Otto von Bismarck em domar a indolência de seus diplomatas, que até então não tinham horário para trabalhar (p. 121).
E como essa tendência apresentou-se no Brasil? Utilizando-se o relato de Gurgel do Amaral, fica nítida a inversão do processo que ocorreu na Europa. Explico-me. Aqui, na Rua Larga, Cabo Frio arduamente domava seus funcionários para que respeitassem um padrão pós-industrial de ritmo de trabalho, com horas regulares e pré-determinadas para o desempenho das atividades públicas. Rio Branco, quando assume o ministério, acaba com a iniciativa de Cabo Frio, revertendo o difícil processo de socialização que se tentava impor.
Houve, portanto, retrocesso nesse aspecto do cotidiano diplomático. Cabo Frio, apesar de descrito como indivíduo pouco afeito às novidades do novo século, já era modernizador em seu tempo. Rio Branco, por seu turno, é a força da tradição, revertendo iniciativa que generalizava em todas as modernas chancelarias do mundo. Muitos poderão argumentar que o ritmo de trabalho do barão era distinto; um workaholic que dormia em cima de seus papéis, passava a madrugada lendo telegramas, trabalhando incansavelmente na administração de seu pequeno império republicano. Assim, mesmo sem impor “ponto” aos subordinados, o Barão legou uma obra incontrastável na história independente do país. Todavia, conquanto tenha alcançado tais resultados, do ponto de vista comparado, Cabo Frio não deve ser reputado como força do atraso.
A descrição do livro, porém, faz o exame das diferenças entre os dois diplomatas exatamente no tradicional esteriótipo. Aparentemente, nada pode rivalizar a grandeza de Rio Branco. A construção dessa imagem leva a sérias distorções nas memórias e nos próprios trabalhos acadêmicos, mesmo quando consideramos a grandeza de Paranhos. Até aspectos não tão positivos do Barão, como o apresentado acima, conseguem ser enquadrados de forma a enaltecê-lo. E é aqui que merece ser considerado como a obra do barão necessita ser urgentemente revisitada, agora de maneira menos hagiográfica. Com efeito, as biografias de Álvaro Lins e Luís Viana Filho são excelentes, mas aindas muito comprometidas com o culto ao estadista. Recentemente, porém, já são visíveis novas iniciativas que reexaminam com lentes mais depuradas esse indivíduo central do período de apogeu da diplomacia brasileira. Angela Alonso, em biografia recém publicada sobre Joaquim Nabuco, por exemplo, já expressa a tensão do relacionamento entre Rio Branco e Nabuco de forma mais sóbria — principalmente a dimensão competitiva que existia entre os dois.
Bom, termino por aqui. Antes, no entanto, uma curiosidade: pelo menos até 2004, as folhas de ponto do período Cabo Frio ainda estavam arquivadas no Centro de Documentação Diplomática do Itamaraty, no Rio de Janeiro. Fiquem, agora, com um trecho do livro:
Quando cheguei ao Itamaraty, Cabo Frio era apenas uma relíquia viva! Percebia-se o declínio do seu antigo poderio, que lhe escapava das mãos não só pela sua avançada idade e combalida saúde como também por que Rio Branco, rendendo-lhe homenagens e tributando-lhe deferências constantes, já enfeixara nas deles a direção quase total da Secretaria, para novos rumos e novos horizontes. O Barão encontrara um passado e começara a construir um futuro… Ao Visconde restava ainda a ilusão do mando, pela respeitosa obediência dos seus subordinados, pela autoridade, que nunca lhe foi disputada, de continuar regulando a entrada e saída do pessoal, aferrado ao “ponto”, como princípio de disciplina e méritos, e aos processos burocráticos do expediente, atento ao preparo dos relatórios (como se eles devessem ainda aparecer em suas justas épocas), mecanismo de relógio tão contrário às inclinações do Barão, para quem as horas não tinham expressões definidas e todas eram boas para o trabalho. No fundo do seu ser, o austero ancião não poderia deixar de sentir o desgaste corruptor dos anos,tantos de apogeu, e nas sonolências dos meios-dias, em que a luz ardentedo sol, coada através das persianas, enchia sua sala de suave penumbra, sem dúvida, pensaria com amargor nos distantes tempos do sobradão da Glória, palco dos seus melhores triunfos, onde impunha sua vontade, mesmo quando parecia obedecer!

11/08/2008



Ainda sem comentários... Seja o primeiro a responder!