Outro réquiem para a história diplomática?


A partir da década de 1960, a disciplina acadêmica de história diplomática foi severamente criticada nos EUA. Em um exame da área, críticos afirmavam que o campo estava excessivamente focado em “o que um burocrata escreveu para outro burocrata”, era excessivamente descritivo, tendo como principal objetivo enunciar o curso de eventos pueris do passado. Também era criticada a falta de capacidade analítica e habilidade de generalizar – sem contar o fato de a área estar excessivamente ligada à política governamental (Salomon: 1993, 375-6; Sharlet: 1999). Com o passar do tempo, o campo foi visto como inerte, sem trabalhos coletivos, produzindo questionamento demasiadamente limitados, com perspectivas paroquiais e sem afastar-se de um modelo “rankeano” clássico de análise (Gaddis: 1986; Hunt: 1992; Maier: 1980; Ninkovich: 1991). Para piorar a situação, na década de 1970 havia grande relutância e resistência em dialogar com as categorias de outras disciplinas (Mccormick: 1982). Com efeito, em muitos aspectos ainda subsiste em alguns setores a idéia de que historiadores que lidam com assuntos internacionais são “metodologicamente independentes e podem sobreviver sem ajuda teórica”, mesmo sabendo que especulações teóricas aumentam a “imaginação histórica” (Burns: 1960, 55 e 70-1).

Mas houve sinais de mudança nos anos 1980, no qual há a aparição de uma nova história diplomática. Além de continuar a trabalhar com os cânones da área, ela procura estabelecer uma história global (Hoffman: 1997, 500; Hogan: 2004, 1; Mcmahon: 2005, 95-6). Agora, portanto, os processos são o foco, já que o espaço limitado pelas fronteiras nacionais não é mais totalizante e central no entendimento da história, e sim processos transnacionais – tendo o trabalho do historiador que se voltar para as redes externas e internas (Hogan: 2004, 5, 14; Iriye: 1979; Iriye: 1989; Rosenberg: 1990).

No último número do periódico da Diplomacy & StatecraFT, no entanto, foi publicado artigo de Karl Schweizer e Matt Schumann, no qual, aparentemente, defende-se as fronteiras e as particularidades estanques da disciplina (não o li ainda, pois o EBSCO possui uma barreira de 12 meses para acesso a textos completos do periódico). Ora, tal intento, se possível, iria de encontro ao que se pratica há mais de vinte anos no campo. A busca sistemática de internalização teórica e metodológica de outras áreas trouxe grandes avanços interpretativos, o que explica até a volta da história diplomática no currículo das grandes universidades americanas. Deve-se, outrossim, buscar exatamente o oposto. Procurar um novo ethos fundamentado na composição de uma matriz complexa de conhecimento, receptiva às novidades que possam contribuir para melhores análises do objeto de estudo da disciplina.

Bibliografia:
BURNS, ARTHUR LEE. International theory and historical explanation. History and Theory, v. 1, n. 1, p.55-74. 1960.

GADDIS, JOHN LEWIS. The corporatist synthesis: a skeptical view. Diplomatic History, v. 10, n. 4 (Fall), p.357-62. 1986.

______. New conceptual approaches to the study of American Foreign Relations: interdisciplinary perspectives. Diplomatic History, v. 14, n. 3 (Summer), p.405-23. 1990.

HOFFMAN, ELIZABETH COBBS. Diplomatic history and the meaning of life: toward a global American history. Diplomatic History, v. 21, n. 4, p.499-518. 1997.

HOGAN, MICHAEL J. The “next big thing”: the future of diplomatic history in a global age. Diplomatic History, v. 28, n. 1, p.1-21. 2004.

HUNT, MICHAEL H. The long crisis in US diplomatic history: Coming to closure. Diplomatic History, v. 16, n. 1 (Winter), p.115-40. 1992.

IRIYE, AKIRA. Culture and power: international relations as intercultural relations. Diplomatic History, v. 3, n. 2 (Spring), p.115-28. 1979.

______. The internationalization of history. The American Historical Review, v. 94, n. 1, p.1-10. 1989.

MAIER, CHARLES S. Marking time: the historiography of international relations. In: The Past before Us: Contemporary Historical Writing in the United States. New York: Cornell University Press, 1980. p. 355-87.

MCCORMICK, THOMAS J. Drift or mastery? a corporatist synthesis for american diplomatic history. Reviews in American History, v. 10, n. 4, p.318-30. 1982.

MCMAHON, ROBERT J. Diplomatic History and Policy History: Finding Common Ground. The Journal of Policy History, v. 17, n. 1, p.93-109. 2005.

NINKOVICH, FRANK. The end of diplomatic history? Diplomatic History, v. 15, n. 3 (Summer), p.439-48. 1991.

ROSENBERG, EMILY S. Walking the borders. Diplomatic History, v. 14, n. 4 (Fall), p.565-73. 1990.

SALOMON, KIM. What is the use of international history? Journal of Peace Research, v. 30, n. 4, p.375-89. 1993.

SHARLET, JEFF. Why diplomatic historians may be victims of American triumphalism? Disponível em: <http://chronicle.com/colloquy/99/dhistory/background.htm&gt;. Acesso em: 1/12/2005.

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