Integração da América do Sul depende do Brasil, por Amado Luiz Cervo

O título do artigo corresponde a uma afirmação do Presidente Lula, ao regressar de sua viagem à Bolívia e à Colômbia nessa semana. Depende, em seu entender, porque o Brasil é a maior economia e o país mais industrializado, é líder na região e não lhe convém estar rodeado de países pobres. Afirma que a integração avançará por meio de ações conjuntas e nesse sentido a integração também depende dos vizinhos.
Além dessas boas razões, convém examinar a fundo por que a integração sul-americana interessa ao Brasil.
A integração da América do Sul constitui um projeto brasileiro. Nenhum outro governo o concebeu tão consistente e fez tantos esforços para sua programação como o governo brasileiro.
O projeto brasileiro, que os estudiosos chamam de construção da América do Sul, inicia formalmente à época de Itamar Franco, com a negociação em torno da criação da Área de Livre Comércio da América do Sul (Alcsa), em oposição ao projeto norte-americano da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Segue com as Reuniões de Cúpula, instituídas por Cardoso, que criaram a Comunidade Sul-Americana de Nações (Casa), transformada na União das Nações Sul-Americanas (Unasul), durante reunião de cúpula em Brasília em 2008.
A institucionalização da integração sul-americana foi acompanhada desde o ano 2000 por algumas ferramentas operacionais como a Iniciativa para a Integração da Infra-Estrutura Regional Sul-Americana (Iirsa), o Programa de Substituição Competitiva de Importações (PSCI) e o Programa Sul-Americano de Apoio às Atividades de Cooperação em Ciência e Tecnologia (Prosul). Esses mecanismos financiam projetos regionais ou bilaterais, nos quais a presença do BNDES é relevante.
A construção da América do Sul, como se observa, é real. Mas seus resultados situam-se muito abaixo do projeto brasileiro de converter a América do Sul em uma unidade política, econômica e de segurança. A América do Sul vem se equipando, porém ainda não fala ao mundo de uma só voz nas negociações multilaterais e não se constitui um pólo de poder geopolítico e econômico que promova os interesses do conjunto dos países. Esse horizonte está por vir.
Em razão da lentidão, mas aproveitando o caminho aberto pela diplomacia, segmentos econômicos e sociais brasileiros avançaram com andar próprio. Exportadores brasileiros elegeram a vizinhança como destino de sua melhor exportação de qualidade, a de manufaturados, que para a área representam 80%, enquanto sobre o total situam-se em aproximadamente 50%. Investidores brasileiros elegeram a vizinhança, especialmente a Argentina, como destino privilegiado de seus capitais e empreendimentos.  A América do Sul converteu-se em plataforma de expansão dos negócios brasileiros, uma base de apoio ao processo de internacionalização da economia, em ritmo acelerado desde 2005, pois que ultrapassa em 2007 a cifra de cem bilhões de dólares de investimentos diretos no exterior.
Nenhum país da América do Sul exibe tal dinamismo de expansão sobre a vizinhança, ao contrário. Para remediar situações econômicas e sociais muito frágeis, por volta de 2000, os países da América do Sul conceberam projetos de recuperação de caráter introvertido. Esqueceram-se da integração. Mesmo quando recorriam ao comércio regional, utilizavam-no como instrumento de proteção para expandir atividades internas, distantes da visão brasileira de integração produtiva. O ritmo dos movimentos de fatores econômicos deixa muito longe o Brasil de seus vizinhos, com exceção da Venezuela, que utiliza recursos do petróleo para atender a demandas de financiamentos.
O modelo brasileiro de inserção internacional no mundo da globalização não permite ao país abandonar sua estratégia, que é correta e rende frutos. Há como convencer os vizinhos de mudar a sua? Por exemplo, a estratégia boliviana de afugentar empreendimentos e investimentos em nome do interesse nacional? A estratégia venezuelana do socialismo de estatizações? É possível trazer a Argentina socialmente regenerada e economicamente reindustrializada pelos Kirchner ao projeto desenvolvimentista brasileiro de América do Sul? Se a diplomacia brasileira fez muito, ainda tem muito a fazer. Os agentes econômicos brasileiros sabem responder ao apoio logístico que recebem, até mesmo andar soltos e na frente por conta e risco.

Amado Luiz Cervo é Professor Titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília   (alcervo@unb.br).

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