Obama, McCain e as “Não-Questões”: O Doméstico, por Cristina Soreanu Pecequilo

2008 Julho 10

Depois de um período intenso de primárias, principalmente do lado democrata, que culminou com a desistência de Hillary Clinton da disputa e a confirmação do nome de Barack Obama como o candidato do partido à eleição presidencial, a corrida à Casa Branca entrou em um período de relativa desaceleração. Transitando dos embates intra ao entre-partidário de 4 de Novembro, este período antecede as convenções partidárias (25 a 28/08 para os democratas e 01 a 04/09 para os republicanos) e é marcado por três dimensões. Primeiro, a reconciliação interna entre as facções e aliados dos candidatos derrotados com o candidato vencedor, fundamental para uma campanha nacional unificada que garanta a transferência do apoio dos eleitores fiéis e da base ao nome escolhido. Segundo, as negociações para a escolha do vice-presidente e com grupos de interesse. Terceiro, a busca tentativa de quais temas terão maior ressonância com o eleitorado, adaptando o discurso prévio ao pleito nacional e ao adversário a ser enfrentado.
Se republicanos e democratas empenham-se igualmente na segunda destas dimensões, na primeira os republicanos tem enfrentado este desafio antecipadamente, uma vez que a candidatura McCain foi confirmada três meses antes do que a de Obama. Todavia, esta vantagem parece não ter surtido os efeitos desejados, uma vez que a candidatura McCain continua sendo de difícil apelo político e econômico a grupos mais conservadores, enquanto os democratas aceleraram suas promessas de unidade, com a própria Hillary reafirmando seu compromisso com o partido. Esta tendência de distanciamento de McCain destas bases pode, contudo, alterar-se à medida que se intensifique a campanha e a vantagem democrata, gerando o fenômeno do voto útil (alguns grupos da coalizão cristã já se comprometeram a apoiá-lo recentemente).
Por fim, a terceira dimensão tem se provado a mais desafiadora, girando em torno dos temas de campanha e das “não-questões”: assuntos controversos que demandam uma maior clareza dos candidatos e que revelam forças e fraquezas, expondo linhas de fratura pessoais, nacionais e internacionais. Mais ainda, estes tópicos trazem à tona o que se precisa saber destes candidatos (e do futuro dos EUA), a partir não só daquilo que está escrito ou falado, mas do que se encontra subjacente a cada discurso.

A)    O Perfil dos Candidatos

A.1) Experiência, Idade, Raça e Religião

Desde o início tanto Obama quanto McCain procuraram apresentar-se como candidatos “diferentes” na corrida presidencial: outsiders frente ao poder estabelecido, a despeito de ocuparem cadeiras no Senado, prometendo não repetir as práticas políticas de Washington. Cada qual tem como prioridade a reforma do sistema a partir de dentro, alegando não ter se contaminado por seus vícios, cruzando a linha do Legislativo ao Executivo. Em termos de trajetória política, optaram por abrir mão do tema “experiência”, normalmente entendida como “administrativa”, procurando focar em sua história. Se este viés ressalta independência frente ao que se define como establishment e os grupos de interesse, ele gera vulnerabilidade por focar em “não-questões” de cunho pessoal: Idade, Raça e Religião.
Em termos de Idade, Obama e McCain encontram-se em extremos de geração, podendo ser criticados por sua juventude ou maturidade, o que leva à busca de uma certa aura de atemporalidade. Os resultados tem sido mesclados, pois esta “atemporalidade” se por um lado elimina críticas de despreparo e desconhecimento (Obama) ou de condição de saúde e longa trajetória em Washington (McCain) também elimina pontos positivos que ambos podem apresentar às parcelas do eleitorado que mais os favorecem: os jovens e os mais velhos (independentes e conservadores).
Em McCain, além disso, esta atemporalidade insere uma contradição: ao mesmo tempo em que busca distanciar-se do passado, McCain o busca para dar sustentação e visibilidade ao seu perfil de conservador clássico em oposição ao neoconservadorismo Bush. O candidato visa suprir deficiências já experimentadas em suas tentativas anteriores de concorrer à presidência (tendo falhado em obter a indicação do partido previamente) como a falta de carisma, baixa arrecadação, dificuldade de relacionamento com minorias e grupos de interesse e a associação com o partido republicano de um presidente impopular e de um país em crise. Tal sustentação baseia-se na tentativa de explorar o gap geracional e demonstrar maior preparo para lidar com crises (tática já fracassada na campanha de Clinton ainda que McCain evite o termo “experiência”) e na apresentação de sua performance no Senado como republicano moderado e independente.
Esta vulnerabilidade de McCain tem sido de difícil administração pelos republicanos e muitos sugerem que o partido fez uma escolha equivocada como em 1996 quando indicou Robert Dole para concorrer contra Bill Clinton. Naquele momento, o nome de Dole ganhou força como o de McCain em 2008 pela ausência de candidaturas unificadoras do âmbito conservador, devido às ofensivas de Clinton e sua popularidade, com o partido considerando a eleição perdida. A tática foi focar em 2000 e alguns indicadores apontam que o mesmo poderia estar acontecendo agora.
Se explora-se a vulnerabilidade de McCain na idade, situação similar se repete na temática racial com maior peso para os democratas. Além de seus enfoque específicos, esta agenda ampliada engloba os direitos civis, sociais e a percepção (e mesmo realidade) de qual é a face da América. Paralelamente, a opção religiosa e que papel ela desempenha no Estado secular norte-americano. Para Obama, estas discussões foram colocadas desde o início como “não-questões” , definindo-se uma agenda positiva em discursos e livros como Audácia da Esperança (2007) e A Origem dos Meus Sonhos (2008).
Antes de ser rotulado pelos oponentes, Obama apresentou-se ao público, fortalecido por seu carisma, como um homem de reconciliação de valores, um candidato pós-racial: um retrato da América presente e passada, produto de um mundo global e interdependente (a qual antes se aplicava a idéia do melting pot). Também como representante da modernidade, a campanha de Obama ganhou um peso no mundo virtual, fazendo uso da Internet para divulgação de seu programa de governo, arrecadação e para atingir grupos normalmente desinteressados na política como o eleitorado jovem abaixo dos trinta anos. A renovação no partido democrata foi ressaltada, assim como a necessidade de lidar com temas não abordados tradicionalmente por este campo como fé e religião, mas que ganharam espaço entre os eleitores nas últimas duas décadas. Sem se afastar de seu compromisso com o secularismo ou com os direitos civis e sociais em tópicos como raça, orientação sexual e aborto, Obama deixou claro o significado da religião e da fé em sua vida. De forma abrangente, apresentou-se como o candidato de uma só América por pertencer, justamente, a vários mundos.
Muito bem sucedida, esta primeira ofensiva começou a sofrer os revezes normais do jogo político devido ao prolongamento das primárias e ao crescimento nacional do fenômeno Obama. Episódios associados ao Pastor Jeremiah Wright, com declarações polêmicas e agressivas que contrariavam o discurso reconciliador, a associação com radicais nos anos 1960 começaram a ganhar peso na mídia conservadora, avançando até a moderada. Declarações do próprio Obama sobre o eleitorado mais conservador como “amargo, defensor das armas e que somente vai à Igreja”, contrariando suas colocações como um candidato religioso e que respeita diferenças, e de sua esposa Michelle (que somente agora teria “orgulho” de ser americana) foram bastante exploradas.
Da parte democrata, isto forçou uma reação do candidato no sentido de recuperar os temas que ele mesmo definira como “não-questões” e moderar seus discursos internos e, como se verá, externos, moldando-os não mais só ao público democrata, mas ao nacional. O afastamento do candidato de figuras polêmicas como Wright com sua saída da Igreja comandada por este pastor, a sua definição como cristão (e não muçulmano), a divulgação mais clara de planos de governo, a relativização do papel de radicais de esquerda, o distanciamento de personalidades da direita como Brzezinski fizeram parte deste processo.
Retomou-se ao padrão positivo de responder as acusações com diálogo e não com críticas. Entretanto, a transição da campanha intra para a entre partidária é cada vez mais complexa uma vez que os republicanos ressaltam a mudança de posições do candidato em áreas como religião, imigração, livre comércio e Iraque. Sintetizadas na expressão flip-flop (expressão usada contra Kerry em 2004 que significa oscilar e mudar escolhas), estas críticas são um reflexo natural da larga pauta abordada por Obama nas primárias de maneira genérica resumida a expressões como “Mudança na qual Podemos Acreditar” e “Reconciliação” e que procuravam apresentar discursos condizentes com cada público.
Nas primárias, Hillary chegou a explorar parte destas contradições e o que seria o perfil liberal à esquerda de Obama, mas certos limites foram respeitados para não provocar uma fragmentação sem volta do partido que prejudicasse suas chances em Novembro. Porém, este compromisso certamente não existe do lado republicano, ainda que McCain negue-se a usar estas táticas. Com isso, Obama tem deixado de ser o candidato Teflon para ser um candidato normal, com seus adversários explorando suas idas e vindas e as críticas que o seu partido, no grupo aliado a Clinton, realizou. Entretanto, Obama ainda tem uma considerável vantagem sobre McCain no campo da arrecadação de fundos (abrindo mão do financiamento público) e na produção de slogans. Por sua vez, a campanha republicana resume-se à idéia do “Straight Talk”, faltando elementos que motivem o eleitorado.

A.2) Liberal, Conservador ou Reconciliador?

Como mencionado, ambos os candidatos colocam-se como outsiders a Washington apesar do gap geracional, diferentes origens e experiências pessoais, prometendo um salto qualitativo na forma como a política vem sendo feita nos EUA. Em uma era de polarizações sociais, raciais, religiosas e políticas, incrementada pela presidência W. Bush e aprofundadas no pós-11/09, ambos se colocam como reconciliadores, ultrapassando as disputas bipartidárias que paralisam a nação. A convergência programática neste campo reflete o descrédito da opinião pública, a ausência de diálogo entre grupos diversos e a transição societária, com consequências para a administração nacional.
Para os candidatos, esta situação resume-se ao descompasso entre os interesses do Estado e da Sociedade, privatizando a administração pública para os lobbies, recuperando argumentos de autores como Chalmers Johnson na trilogia Blowback e de Zakaria em artigo na edição on line de Foreign Affairs de Maio/Junho 2008 (”The future of American power- how can America survive the rise of the rest”). Zakaria chega a afirmar que não há nada fundamentalmente errado na economia dos EUA, que continua mostrando vigor, e que o problema reside na falta de disposição política em mudar e conciliar.
Existiria uma América “real” e uma América vista a partir de “Washington”, sendo que esta última prejudica o bom andamento dos negócios nacionais e externos do país. Embora possa concordar-se com parte do argumento, de que existe a interpenetração da política pelos interesses particulares levando à privatização e polarização que, nas palavras de Zakaria, faz com que a política tenha “perdido a capacidade de consertar seus defeitos”, ao mesmo tempo é difícil negar que esta separação foi gerada por este próprio sistema. Afinal, a dinâmica social que favoreceu essas realidades data dos anos 1970/1980, não se resumindo ao governo Bush filho ou a este “mundo particular” que seria a capital federal.
Em meio a estas transições e crises, a pergunta essencial, por vezes, acaba não sendo respondida: quem são Obama e McCain , independente de como ambos de definem, moderados e reconciliadores? E, na prática, não existe uma resposta simples: se McCain possuí um histórico de construção de consensos no Senado, de realizar pontes bipartidárias, Obama caminha para o lado oposto com decisões que tenderam ou à esquerda dos democratas e republicanos moderados ou à abstenção em votações importantes (algo que certamente será explorado pelos republicanos como o foi por Hillary). Ao mesmo tempo, Obama não detém uma passagem longa pelo Congresso para que um padrão possa ser estabelecido, ocupando o cargo de Senador desde 2004, enquanto o de McCain justamente por sua longevidade pode ser negativamente apresentado pela ausência de mudança.
A tendência é que ambos tentarão reforçar e construir sua imagem ao longo da campanha, desafio melhor superado por Obama, mas que trouxe algumas inconsistências ao discurso e necessidades de ajustes. Esta volatilidade, nas palavras republicanas, será crucial nos swing states, que tem votado pelos conservadores nas últimas eleições (Florida) e nos battleground states, percebidos em aberto na disputa que podem ser conquistados por ambos (Pensilvânia, Indiana, Virginia, Wisconsin, Nebraska). Do lado republicano, se parece não haver em McCain esta fluidez (mesmo com seu relacionamento pendular de aproximação e distanciamento com Bush filho), falta-lhe uma real mensagem e algo que o desligue e da imagem de um político preso ao passado. Segundo previsões do dia 08/07/2008 dos sites independentes realclearpolitics.com e electoral-vote.com, Obama possuiria 320 votos eleitorais contra 218 de McCain (sendo necessários 270 para a eleição).
Todavia, a campanha nacional está em sua fase inicial e estes números tendem a mudar a partir dos movimentos aqui mencionados. Todos estes debates, abertos e velados, alcançarão seu melhor termo nos meses de Agosto e Setembro, na sequência das convenções nacionais, e dos debate televisivos. Enquanto isso, e depois muito mais, estas não questões domésticas far-se-ão presentes, ao lado das transformações estruturais do poder dos EUA e do mundo.

Cristina Soreanu Pecequilo é Professora de Relações Internacionais Universidade Estadual Paulista – UNESP (Campus Marília), e Pesquisadora Associada ao Núcleo de Estratégia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (crispece@gmail.com).

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