Petróleo: a manutenção da importância geoeconômica, por Virgílio Arraes
Em 1999, John McCain, em sua primeira disputa no Partido Republicano para ser o candidato a Presidente, havia sido favorável à interrupção de novas prospecções petrolíferas ao longo da costa norte-americana ao menos até 2012. Em 2008, contudo, ele alterou o seu posicionamento, sendo favorável à imediata retomada da exploração, sob a justificativa de que ela auxiliaria a estabilizar, no curto prazo, o abastecimento energético. Desta forma, a cotação poderia situar-se em patamar inferior à atual, com resultado positivo sobre a economia nacional.
No entanto, caso houvesse o fim da suspensão a partir, por exemplo, de 2009, a produção materializar-se-ia apenas em 2014 – estima-se que as reservas marítimas estejam próximas de 20 bilhões de barris. Atualmente, os Estados Unidos consomem quase 21 milhões de barris diários, o que representa ¼ do total, embora os estoques do país correspondam a meros 3% do mundo inteiro.
A despeito da instabilidade política e econômica, ocasionada pela disputa para obtenção regular de petróleo e gás, os republicanos não parecem dispostos a investir maciçamente no desenvolvimento de novas matrizes energéticas. Conquanto no início de seu segundo mandato Bush tenha enfatizado a importância da energia renovável, na prática, a Casa Branca concedeu poucas verbas para pesquisas.
De imediato, apenas medidas protecionistas, a fim de resguardar o biocombustível, no caso extraído majoritariamente do milho. Sabe-se que este tipo de etanol está impossibilitado de concorrer com o da cana-de-açúcar em termos de aproveitamento energético. No entanto, ao ser produzido maciçamente no centro-oeste do país, região conhecida por seu conservadorismo político, os republicanos sentem-se à vontade para resguardá-lo.
John McCain pertence politicamente à ala que se opõe a destinar parte dos impostos do setor petrolífero para pesquisar fontes energéticas renováveis e menos poluentes. Assim, a fixação na energia de origem fóssil perdurará bastante.
A questão deste tipo de combustível tornou-se mais complexa recentemente porque há uma presença significativa de empresas estatais. Até o início dos anos 70, as grandes companhias ocidentais controlavam cerca de 80% das jazidas de petróleo e de gás, enquanto hoje mal passam de 10%. Contribuíram para o presente quadro o posicionamento da Rússia e da Venezuela. Assim, 15 das 25 maiores empresas do ramo são, ao menos parcialmente, estatais.
A mudança da composição administrativa já implica considerações de ordem geoeconômica em um grau observado apenas quando do Primeiro Choque do Petróleo em 1973: o quarto fornecedor dos Estados Unidos é a Venezuela, o que deixa o Departamento de Defesa, por meio do Comando do Sul, alarmado com as iniciativas políticas do Presidente Hugo Chávez. Desde 2005, uma subsidiária da PDVSA, a Citgo, comercializa o óleo de aquecimento a preços menores em algumas localidades carentes norte-americanas.
Além do mais, a África, considerada por Washington como uma alternativa relevante ao Oriente Médio, recebe cada vez mais a atenção da China, desassossegada na busca de matérias-primas com o objetivo de manter o ritmo de seu crescimento. Na encarniçada disputa por recursos energéticos, endereçam-se lamentavelmente direitos humanos e referências democráticas para um plano secundário.
No inicio do ano passado, o governo chinês vetou uma resolução do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas sobre a União de Mianmar, país detentor de gigantescas reservas de gás natural e com o qual Pequim estreita-se comercialmente. Na Ásia Central, o Casaquistão, farto em petróleo, é o exemplo de um país transformado em um regime, onde a presidência é, de fato, vitalícia, sob o férreo comando de Nursultan Nazarbayev. No relacionamento diplomático russo-ucraniano, o fornecimento de gás é um elemento-chave, sendo a maneira de Moscou influenciar os rumos políticos de Kiev.
Ainda assim, destaque-se que não se pode menosprezar a força das companhias privadas no setor energético, ainda mais após os recentes e robustos aumentos do petróleo, originados simultaneamente do rumo desastrado da II Guerra do Golfo e do crescimento econômico indo-chinês.
Deste modo, a presença das corporações petrolíferas se confirma no cenário, em muitas ocasiões, por meio da transferência de conhecimento ou do estabelecimento de parcerias. Vários países estatizantes não dispõem por si mesmos de condições – tecnológicas ou econômicas – suficientes para uma exploração adequada de seus recursos naturais, por onde se diminua o desperdício e se minimizem os danos ambientais, como é o caso do próprio Cazaquistão.
Virgílio Arraes é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (arraes@unb.br).
Esta noite estaria mais na disposição de elaborar um argumento para adaptação ao cinema ou coisa semelhante do que própriamente uma crítica sobre um assunto que deixa qualquer leitor preocupado. Por isto, tentarei dar a minha opinião, de forma diferente da habitual e se me permitem, com um pouco de ironia.
No ruas que dão acesso ao meu espaço físico de predilecção nos últimos meses, passam indivíduos vestidos de algumas cores. A maioria de branco. Porém, o preto, vermelho e amarelo, fazem sentir a sua presença. Umas misturas destas cores, não são tímidas e por vezes também se observam. De todas, os indivíduos que vestem de amarelo são os que parecem mais introvertidos. Cumprimentam os que encontram no percurso, falam consigo próprios parecendo pensar no que irão fazer amanhã. São em média os que mais se preocupam com o aspecto visual, não se metem com frequência em conflitos e os que vestem de outras cores observam-nos a uma certa distância. Estes últimos são precisamente o contrário. Lamentam-se fatalmente do salãrio insuficiente, da carestia de vida, na possibilidade de emprego, de um biscate ou até de um possível furto. Tudo indica que o pé de meia dos antepassados, já não é suficiente para tantas dificuldades. Esta realidade não se aplica aos mais gastos pelo tempo.
A duzentos metros ouvesse um alívio que mais parece uma mulher a parir quando o indivíduo que veste de branco vende um objecto. Interrogo-me e respondo que só daqui a 4 ou 5 horas irás parir novamente. O de amarelo está constantemente a parir junto há caixa registadora. Por momentos sou interrompido por um diálogo entre uma mãe e filho que passam:
- Mamã, apetecia-me um chocolate!
- Hoje não. O papá só recebe daqui a 8 dias e o dinheiro que resta é para pagar a renda de casa e a letra do automóvel.
A criança passa na montra das guloseimas impávida mas serena, mais parecendo a reacção do cão do Pavlov ao toque da campainha. Dá um pontapé numa lata e diz:
-Maldido preço do petróleo.
Aproveitaria estes acontecimentos referidos para tentar fazer uma crítica ao artigo que em minha opinião têm interpretações diversas, daí a excelente qualidade.
A tríade que outrora orientava a economia e política mundial, sofreu alterações profundas no seu conjunto. A Europa e Extremo Oriente assistiu a uma expansão do sistema que parece não ter facilitado a Norte Americana. A disputa de espaços de influência, junto de fontes de energia e de mercados, originou uma maior presença da China por exemplo em África. Alterações na política venezuelana. A dependência do Cazaquistâo etc. Este novo arranque industrial sino-indiano exige matéria prima, nomeadamente petróleo para alimentarem as suas indústrias que adicionado a políticas internacionais favoráveis, salários baixos, qualidade em muitas produções e outros aspectos, encontram receptividade no consumidor europeu ou americano de parcos e médios recursos. Parte dos países produtores são deficitários e alguns precisam praticamente de tudo o que é produzido industrialmente. O aumento do consumo destes últimos que apresentam um forte crescimento económico, facilitam as exportações e consequentemente a acumulação de capital, necessário ao desenvolvimento e modernização.
O aumento brutal do preço do crude e empréstimos bancários não pagos a tempo são os principais responsáveis por crecimentos negativos ou incipientes de muitas economias desenvolvidas. É aquilo que muitos estudiosos referem ser efeito dominó.
Os EUA não estão alheios a esta situação, independentemente do líder que venha a ser eleito no próximo sufrágio eleitoral. Se o candidato Republicano se têm oposto, por razões mencionadas no artigo à atribuição de subsídios para o incremento de outro tipo de fontes de energia, ou se a prospecção de petróleo for insuficiente para as necessidades estadunidenses, não podemos descurar o peso tremendo da influência de companhias petrolíferas nas decisões dos eleitos. Os principais estados produtores de petróleo deste país são orientados por Republicanos, a sua relação com o Canadá ou Mexico será cordial. A escolha da governadora do Alasca poderá ser indicador de futuras intenções face ao assunto.
O candidato Democrata, terá um trunfo superior na sua relação com os países produtores africanos ou mesmo árabes e venezuelanos. Os últimos contactos da administração Bush através da segunda figura com a Líbia têm objectivos comerciais e a principal fonte de pagamento deste país são as receitas do petróleo e tudo indica existirem projectos de vulto no domínio da construção civil. A reconstrução do Iraque parece ter sido esquecida pelos média e resolvido pode atenuar este déficit para os países industrializados. A OPEP não parece estar tão segura sobre a fixacção dos preços e a qualquer momento podemos assistir ao inverso e o preço caír acentuadamente, apesar de não ser muito previsível.
Os sectores de actividade das economias industrializadas são atingidas, não se vislumbrando o esvasiamento de stoks consideráveis, o ramo automóvel não encontra solução e dispensa diáriamente milhares de trabalhadores, companhias aéreas entram na ruína, etc. Os estratos sociais mais atingidos são a média/média superior que nos EUA e Europa estão em grande percentagem.É ela que paga os impostos, decide politicamente e em época de crise como esta, parece não conseguir ultrapassar o problema. Os sistemas políticos muitas das vezes não correspondem há estrutura das respectivas sociedades por a conjuntura não facilitar, os modelos económicos ou conceito de empresa dos países que servem de exemplo nas tríades têm dificuldades em se adaptar. A crise é acompanhada por actos menos dignos, corrupção, tráfico de influências, etc. Diria mesmo que esta crise Ocidental que tudo indica para os mais cépticos poder vir a ser pior a curto prazo, não é financeira, nem mesmo económica é mais de valores e de designios. Falta-nos ética nas atitudes. Saber fazer política, negociar, ensinar, criar, etc parece ter sido atirado para as calendas gregas. Infelizmente muito poucos actuam deste modo. Com sinceridade, estou com receio desta última geração presente.