Publicado na edição semanal de 18 de junho de 2008
Há 100 anos, com a chegada do primeiro grupo de imigrantes japoneses ao porto de Santos a bordo do navio Kasato Maru, começava a ser trilhada uma das histórias de maior sucesso de integração cultural entre dois povos tão distintos. Passado tanto tempo, a relação entre Brasil e Japão deixou marcas importantes nos costumes dos dois países. Não há como negar que hoje, para nós, brasileiros, muito da cultura japonesa faz parte natural do nosso dia a dia e que os japoneses, especialmente nos últimos anos, descobriram em seu próprio país a força da cultura brasileira.
Os restaurantes de culinária japonesa estão espalhados por todo o Brasil, assim como o nosso pãozinho de queijo e os sorvetes de nossas frutas também marcam presença em algumas cidades do Japão. Aqui, nós integramos as lutas marciais à vida esportiva de nossas crianças e nos tornamos um país campeão no judô. Lá, no Japão, eles importaram muitos dos nossos principais talentos do futebol, Zico é o maior exemplo disso, e chegaram a sediar a Copa do Mundo de 2002.
É importante destacar que o que uniu e une os cidadãos dos nossos países foi e continua a ser o sonho de uma vida melhor. Foi isso que moveu centenas de milhares de imigrantes japoneses que vieram viver no Brasil entre o final do século XIX e meados do século XX e é isso que levou dezenas de milhares de dekasseguis a seguirem o caminho inverso de seus antepassados -, rumo, agora, ao Japão.
Os números não deixam nenhuma dúvida sobre a força da integração entre brasileiros e japoneses. O Brasil é hoje o país com a maior comunidade japonesa fora do Japão. São ao todo mais de 1,5 milhão de japoneses e descendentes vivendo por aqui. No Japão, moram mais de 300 mil brasileiros, a maior parte de netos e bisnetos de japoneses que vieram para o Brasil no século passado.
Quero, neste espaço, enfatizar a importância dos isseis, nisseis, sanseis e yonseis não só para a cultura como para a economia do Brasil. Destaque-se o associativismo e o aprimoramento tecnológico na agricultura, que permitiu o desenvolvimento de cinturões verdes dos centros urbanos, garantindo a auto-suficiência brasileira em verduras, legumes, frutos e produtos de origem animal. Lembro também o desenvolvimento da siderurgia nacional, que recebeu capital e tecnologia japoneses.
A comemoração do centenário da imigração japonesa estimula-nos a lançar as bases para um novo ciclo virtuoso nas relações bilaterais. Essa nova relação deverá combinar temas tradicionais de nossa agenda – mineração, siderurgia e agricultura — com frentes inovadoras de atuação conjunta, como projetos no âmbito do desenvolvimento limpo, incorporação do etanol na matriz energética japonesa e desenvolvimento de novo sistema de TV digital. Posso citar como resultados concretos dessa aproximação a venda de dez aviões da Embraer para a Japan Airlines e os entendimentos para a exportação de software brasileiro para o mercado japonês.
O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) oferece oportunidades concretas de um novo ciclo de investimentos. Até 2010, serão investimentos de US$ 250 bilhões em logística, energia e infra-estrutura. O trem de alta velocidade, ligando Rio de Janeiro, São Paulo e Campinas, um projeto de US$ 10 bilhões, é especialmente atraente.
A recente concessão de grau de investimento atesta as excelentes perspectivas que a economia brasileira oferece aos investidores. Mas o Brasil também começa a investir no Japão. Além dos investimentos da Vale, a Petrobrás adquiriu, recentemente, usina de distribuição de combustível em Okinawa, que poderá servir de base, no futuro, para a distribuição de etanol no mercado japonês.
Na verdade, as relações econômicas bilaterais são uma extensão natural da relação que cidadãos brasileiros e japoneses construíram por sua conta ao longo deste último século. Uma lição de tolerância, trabalho duro e paixão que se renova neste início de século XXI e que, tenho certeza, ainda vai gerar muitos frutos para o Brasil e para o Japão.

18/06/2008



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